Raúl Costa premiado em Hanôver

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian

Raúl Peixoto da Costa tem 23 anos e é bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Hanôver, onde frequenta o mestrado de Piano.

O seu talento levou-o a conquistar dois prémios no último mês, um atribuído ao jovem pianista com mais destaque em termos de carreira e atividade na Alemanha e o outro atribuído pela sua escola, a Hochschule für Musik, Theater und Medien, que o distinguiu como melhor aluno do seu ano. Nesta curta entrevista, feita por escrito, Raúl da Costa fala dos seus projetos e da importância da música na sua vida.

 

“Uma vida na música clássica é um longo caminho”

 

O que significam estes prémios para a sua carreira?

Foi um ano feliz em relação a prémios internacionais e sinto-me muito agradecido por isso. Os prémios abrem portas, quer para recitais quer para concertos com boas orquestras, no centro da Europa.

No entanto, sei também que estes prémios não são tudo e que escolher uma vida na área de música clássica é um longo caminho, muito mais extenso do que qualquer prémio. A busca pela verdadeira essência da música, pelas intenções mais profundas do compositor, é o nosso maior objetivo. E este trabalho durará uma vida inteira, sendo esse o prémio que verdadeiramente me interessa. Digamos que é mais comparável a uma maratona, e não a uma corrida de 100 metros.

 

Como foi o seu percurso até agora?

Tive a sorte de começar a estudar piano com muito bons professores, como Luís Amaro e Maria Emília Coelho, na Escola de Música da Póvoa de Varzim. Posteriormente, estudei com Álvaro Teixeira Lopes na Academia de Música de Vila do Conde, uma mudança que teve um enorme impacto em mim. Aí fortaleci bases muito importantes para uma carreira como pianista e que ainda hoje me são imensamente úteis. Nesses anos, houve uma maior abertura para o exterior, com vários concursos internacionais, concertos em salas como Casa da Música, CCB, Teatro São Luiz e, além disso, várias masterclasses dentro e fora de Portugal. Em 2010, em Salzburgo, conheci o prof. Karl-Heinz Kämmerling e com ele comecei a minha aventura em Hanôver, até à sua morte em 2012. Desde então, estudo com o prof. Bernd Goetzke, com quem me identifico muitíssimo, e estou muito feliz por poder trabalhar regularmente com ele.

 

A sua relação com a música começou logo com o piano ou tocou outros instrumentos?

É difícil explicar. Sei que a minha mãe,enquanto estava grávida, todos os dias tocava piano para mim, portanto é bem possível que a relação com a música tenha começado aí! Mais do que a música, aquilo que me fascinou enquanto criança foi o som.

Era normal ficar horas à volta do piano, das guitarras do meu pai, de uma bateria improvisada, ou escutando o meu pai a declamar poesia, sempre acompanhado por excelentes músicos. Creio que isso me marcou muito. Aos sete anos, comecei a estudar oficialmente piano na Escola de Música da Póvoa de Varzim, e os anos foram passando. Claro que aprendi um segundo instrumento como qualquer outro aluno, e ainda toquei clarinete sete anos. Mas isso é outra história…

 

Como tem sido a experiência fora de Portugal?

Muito especial. Sei que me tornei uma pessoa diferente nos últimos cinco anos. Cá, sempre me viram muito sozinho e sei que formei o meu carácter em vários momentos mais difíceis. Nunca tive muitas saudades de Portugal, tirando o mar e as pessoas que me são mais próximas. Sei que vim para cá para trabalhar e para olhar em frente, para o meu futuro. Em termos de música de câmara, foi talvez a maior mudança na minha vida porque tenho a oportunidade de tocar com excelentes músicos muito facilmente, e aprendi imenso, algo que não aconteceu nos meus anos em Portugal.

 

O que pensa fazer quando terminar esta bolsa?

Trabalhar, trabalhar, trabalhar… Irei manter Hanôver como base e vou começar a minha pós-graduação, Konzertexamen. A relação com o meu professor é excelente e estou muito feliz pela oportunidade de aqui estar. Provavelmente mais concertos e concursos internacionais virão… Irei continuar a trabalhar com a mesma seriedade dos últimos anos, e estou curioso quanto ao futuro.