5 outubro 2018

Prémio Calouste Gulbenkian 2015 vence Nobel da Paz

A Fundação Calouste Gulbenkian felicita o médico congolês Denis Mukwege que hoje venceu o Nobel da Paz, ao lado de Nadia Murad, ativista de direitos humanos yazidi.

Prémio Gulbenkian 2015
Prémio Gulbenkian 2015Jorge Sampaio, Denis Mukwege e Artur Santos Silva

Agraciado em 2015 com o Prémio Calouste Gulbenkian, Mukwege tem dedicado a sua vida a operar e reconstituir mulheres vítimas de violação e mutilação na República Democrática do Congo.

Na sua deslocação a Portugal para receber o Prémio e num curto encontro com a comunicação social, Denis Mukwege falou de uma realidade difícil de imaginar. Descreveu uma guerra suja, da qual qualquer um de nós pode ser cúmplice ao adquirir um aparelho eletrónico equipado com minérios extraídos ilegalmente pelos bandos de milícias armadas que aterrorizam o país.

Estas são as suas palavras, proferidas em julho de 2015, que recordamos agora como forma de homenagem à sua distinção com o Nobel da Paz.

 

“O corpo das mulheres é usado como campo de batalha”

 

Com o fim da guerra civil não seria de esperar uma situação menos complicada no Congo?

Infelizmente as violações e agressões a mulheres na República Democrática do Congo ainda constituem um enorme problema porque se dão num contexto de conflito. Apesar do fim oficial da guerra, grande parte do território está ocupado por milícias armadas que continuam a violentar as mulheres, que não dispõem de qualquer proteção, e cujo corpo é usado como campo de batalha. A violação é usada como arma de guerra barata e terrivelmente eficaz, produzindo o mesmo impacto imediato do que as armas convencionais, mas também a longo prazo, já que destrói, por vezes, comunidades familiares inteiras. Apesar de tudo, o número de zonas de conflito tem vindo a diminuir sensivelmente. Em média, recebemos cerca de seis mulheres por dia.

 

Algo tem sido feito para melhorar a situação?

Enquanto houver uma mulher violada pelo facto de ser mulher, ainda não foi tudo feito. Infelizmente observamos que esta arma é usada em praticamente todos os conflitos. A mulher é encarada como um alvo. Temos a responsabilidade de devolver à mulher a dignidade e o espaço que ocupa na sua comunidade. Ainda falta fazer bastante para pôr fim, ou pelo menos, para reduzir este tipo de violência. Até porque, cada vez mais, chegam bebés ao hospital e isso é terrível, abala e deprime toda a equipa que os acolhe e trata deles. Quando se vê um bebé de um ano com o períneo em pedaços, e falo também como pai ou como avô, atingimos um nível de horror inimaginável e intolerável. Quando uma comunidade não consegue proteger um bebé nada mais consegue proteger. É a pior coisa que se pode imaginar.

 

O fim da guerra não trouxe o fim do horror…

Quinze anos após o fim da guerra, diria que existe, de facto, uma maior compreensão do perigo associado a esta arma horrível que é usada, no fundo, contra nós mesmos. O modo como as mulheres e as crianças são tratadas é uma questão que nos envolve a todos, é um problema da nossa humanidade comum. Aí houve um certo progresso, até porque foram tomadas algumas resoluções e foram criadas algumas leis em vários países.

 

O que se pode mais fazer para enfrentar este flagelo?

Devemos exigir à comunidade internacional que estabeleça uma linha vermelha que não possa ser ultrapassada.

Violar é recusar a humanidade do outro, é um crime e deve ser tratado como tal. Outro crime é incorporar crianças, vulneráveis, nas milícias armadas, manipulando-as e ensinando-as a violar e torturar, por vezes a própria família, a troco de comida e dinheiro. Foram estabelecidas linhas vermelhas na questão do uso das armas químicas, das armas nucleares, deve-se ser também implacável nestes casos.

Estas ações querem atingir toda a gente, a mensagem é “nós fazemos aquilo que não é concebível fazer”, é uma mensagem de poder e de terror. Isto não se passa só em África, passa-se também na Ásia e noutras zonas de conflito em países como a Síria e o Iraque, na Colômbia. Não podemos tolerar estas ações, temos de lidar com elas como lidamos com as outras armas de destruição massiva e os responsáveis devem responder em tribunal pelos seus crimes.

 

É um problema que não tem tido a atenção merecida por parte dos governantes.

Os governos não podem cruzar os braços, devem atuar de um modo firme contra os responsáveis, impedindo-os, por exemplo, de viajar, confiscando passaportes. Deve haver uma posição firme de cada um dos países e da comunidade internacional, isolando os responsáveis e obrigando-os a responder pelos seus atos. As crianças que se tornam agentes de destruição das mulheres e das comunidades acabam também por se tornar vítimas deste sistema, muitas delas acabando com graves perturbações psicológicas ou mesmo completamente destruídas. A estas crianças foi-lhes retirada a escolha de agir de outra maneira, tornando-as um perigo social.

É muito difícil recuperar crianças desviadas tão cedo do caminho, mas pelo menos tenta-se que não pratiquem as agressões incutidas. Quando são desmobilizadas e reenviadas para as famílias, muitas tornam-se militares e continuam a praticar as violações e mutilações.

 

De que modo o hospital apoia estas mulheres vítimas desta violência?

As mulheres chegam ao hospital com graves lesões genitais necessitando de uma cirurgia reconstrutiva (por vezes várias), num processo muitas vezes longo e difícil. Apresentam, por isso, também, traumas profundos, pelo que o nosso trabalho passa também por dar-lhes apoio psicológico.

Para além disso, considerámos importante dar-lhes instrumentos para, depois de curadas, reocuparem um lugar na sociedade de forma autónoma. Criámos um programa para favorecer essa autonomia através da educação, promovendo o regresso das jovens à escola para que possam começar uma nova vida e serem reintegradas na sociedade. Ou seja, a nossa preocupação não é apenas curar as mulheres, mas acompanhá-las e apoiá-las na reinserção social. Damos também apoio legal porque, nalguns casos, as mulheres conhecem os seus violadores, precisando da ajuda de advogados para recorrer aos tribunais. Prosseguimos o nosso trabalho, apesar das ameaças e dos ataques à nossa missão.

 

Como é que a maioria destas mulheres ultrapassa os traumas vividos?

Depois de terem vivido estas experiências terríveis e após passarem pelo hospital e pelos centros de formação, quando retomam a vida pelas suas próprias mãos, estas mulheres tornam-se ativistas e agentes da mudança da sua própria sociedade. Sem a coragem destas mulheres, o nosso trabalho seria muito mais difícil. Temos o exemplo de jovens raparigas que tratámos, que não sabiam ler nem escrever e que, com o nosso apoio, estudaram e agora têm uma carreira profissional. Ou outras a quem concedemos pequenos empréstimos, a título de microcrédito, e que mostraram grande capacidade de montar os seus negócios. Impressiona a sua capacidade de organização, por vezes com tão pouco, depois de passarem pelos centros de formação.

Depois do atentado de que fui alvo e que, infelizmente, matou o meu segurança, tomei a decisão de abandonar o país, mas a força destas mulheres trouxe-me de volta: mobilizaram-se, fizeram manifestações, escreveram ao Presidente da República, ao secretário-geral das Nações Unidas, e quando perceberam que não tinham resposta, começaram a vender legumes e frutas nos mercados para me comprarem um bilhete de avião de volta ao Congo. Perante isto não tive escolha possível. A minha vida não é mais importante do que a vida destas mulheres admiráveis que combatem pelos seus direitos.