Hack for Good – Maratona digital pelos refugiados

Nos dias 24 e 25 de junho, a Fundação Calouste Gulbenkian organiza mais uma edição do Hack for Good. Este ano, a maratona digital vai centrar-se no desenvolvimento de soluções tecnológicas destinadas a melhorar a vida dos refugiados, numa parceria com o Techfugees, uma organização não governamental que mobiliza a comunidade tecnológica internacional em busca de respostas a esta situação. Pretende-se reunir mais de 150 participantes de áreas como programação, design, engenharia, gestão ou outros, numa hackathon de dois dias em que o objetivo será desenvolver soluções abrangentes e sustentáveis para resolver os desafios atualmente vividos por refugiados e organizações de apoio aos refugiados.

Numa breve entrevista, o alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado (mentor do projeto) fornece algumas pistas para ajudar a contextualizar a realidade vivida pelos refugiados em Portugal e centrar o foco desta maratona.

 

O Hack for Good quer encontrar soluções para melhorar a vida dos refugiados em Portugal. Como vê a situação atual na Europa?

Dados recentes da Comissão Europeia sobre o programa de recolocação apontam para que, do total de 1,2 milhões de pessoas que chegaram à Europa em 2015, só 18 mil pessoas tenham sido recolocadas noutros países da União Europeia, sendo que o compromisso era de colocação de 160 mil refugiados. Creio que esse continua a ser o maior problema. As pessoas não chegam sequer a ser refugiadas porque ainda não encontraram o seu refúgio; estão em condições muitas vezes difíceis, nos chamados “países de trânsito”, seja a Grécia ou a Itália, onde este inverno foi absolutamente avassalador, com temperaturas negativas, com muitas crianças expostas a este risco… Creio que é importante centrarmo-nos nas dificuldades dos que já chegaram, dos que estão cá ainda por se integrar, mas sobretudo temos de nos preocupar com estas centenas de milhares que estão neste limbo. E, num dos continentes mais desenvolvidos, que é um baluarte dos direitos humanos, creio que é altura de erradicarmos de vez esta situação, acolhendo e dando refúgio a estas pessoas.

 

Relativamente à situação em Portugal, chegam muitos pedidos de ajuda ao Alto Comissariado? Quais são as necessidades principais?

O Alto Comissariado para as Migrações (ACM) integra o Grupo de Trabalho para a Agenda Europeia da Migração em Portugal ao lado de muitos parceiros, numa rede conjunta que acolheu mais de 1300 pessoas. O modelo é muito descentralizado, utilizando essa rede de parceiros da sociedade civil, e já temos pessoas em 92 municípios do país. Ao ACM compete não só decidir para onde é que essas pessoas vão, a partir do mapeamento que fizemos das disponibilidades, como apoiar nos processos de integração. Nesta fase, diria que temos sobretudo dois desafios: o primeiro, muito superado nos últimos meses, é a questão da língua portuguesa. Lançámos 420 cursos, que estão disponíveis por todo o país, e também uma plataforma de e-learning – uma plataforma online – que permite aprender português falando árabe, através de cursos online totalmente adequados ao quadro europeu de línguas. Nesta fase, o que importa é sobretudo a empregabilidade. Tentar garantir que estas pessoas, sabendo que por cá vão ficar algum tempo, conseguem encontrar empregos, formação profissional e, claro, a sua autonomia. Os indicadores são promissores: 38 por cento das pessoas refugiadas que estão em Portugal já conseguiram encontrar um emprego ou uma formação, e isso já são números francamente animadores. Agora faltam todos os outros, e garantir esse match entre oferta e procura talvez seja um dos maiores desafios.

 

Falou do e-learning… Considera que as tecnologias podem ser um bom instrumento de ajuda?

Absolutamente! É incontornável neste processo porque dos poucos objetos que qualquer requerente de asilo ou refugiado traz é um tablet, ou um telemóvel, com um nível de acesso tecnológico já bastante sofisticado. Hoje em dia, um smartphone é algo absolutamente acessível e quase todas estas pessoas o trazem para contactar com os familiares e perceber a cidade em que se movem. Temos vindo a tentar desenvolver, através do Refugee Welcome Kit, uma versão digital de boas-vindas a Portugal que ajude à boa integração e ao conhecimento sobre o nosso país. Há muito desconhecimento sobre Portugal junto destes refugiados. Tudo o que ajude a melhor informar, a melhor comunicar, eventualmente a resolver alguns dos desafios da integração de quem cá está, será absolutamente extraordinário e aí só posso mesmo felicitar a Gulbenkian por mais uma vez nos desafiar para nos juntarmos a este movimento que é muito inspirador.

 

De entre os vários temas do Hack for Good – Infraestrutura, Educação, Saúde, Identidade e Inclusão –, há algum em especial que ache que precisa verdadeiramente de apoio tecnológico?

Eu acho que essa diversidade de temas reflete a complexidade do desafio da integração. Não há uma solução passe-partout. De facto, temos de tocar em muitas dimensões. Aqui dizemos sempre que a integração é um processo multidimensional, e é nesse sentido que acredito que lançaram tantos temas, porque a saúde é tão importante como a educação ou o trabalho ou o conhecimento da língua, depende de cada um dos indivíduos, não é? Agora, se me dissessem que só posso escolher um, nesta fase do processo diria que são essenciais as questões do emprego, do conhecimento de como funciona o nosso mercado de trabalho, a questão do reconhecimento de competências, de como podemos alinhar melhor a oferta e a procura, como podemos também chamar melhor à responsabilidade as empresas… Parece-me absolutamente decisivo o tema da empregabilidade, até porque estamos a chegar aos 18 meses dos primeiros que chegaram, e os 18 meses são um marco importante na medida em que chega o termo do apoio institucional. A partir daí, as pessoas estarão autónomas. Portanto, se não conseguirmos que estas pessoas se autonomizem por via do trabalho, naturalmente teremos desafios. Daí que esta ajuda vem num momento muito importante, no mês de junho, que é o mês dezoito destes primeiros refugiados, que chegaram em dezembro de 2015.

 

Alguns conselhos para as equipas que vão participar?

Ouçam as pessoas. Ouçam as pessoas refugiadas, percebam que elas trazem muitas competências e que mais do que ninguém sabem do que precisam. Acho que isso é muito importante para termos um Hack for Good que tenha um grande sentido de utilidade. Esse era o desafio que eu deixaria: ouvirmos as pessoas, percebermos quem são, o que trazem, e o que nos sugerem, porque seguramente vamos ter muito boas ideias.

 

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