Iniciativa Gulbenkian Aprender
Em 2023, as escolas portuguesas contavam mais de 400 mil crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Independentemente das suas capacidades, o número de alunos deste universo a progredir para o ensino superior era, em 2021, quase 65 pontos percentuais inferior ao número registado no universo de alunos sem apoios sociais. É ainda de referir que, em 2022, apenas 10% dos filhos de famílias pobres e com poucas qualificações chegam ao ensino superior.
É neste contexto que surge a iniciativa Gulbenkian Aprender, que procura apoiar, no seu percurso escolar e de forma constante, longitudinal, de proximidade, crianças e jovens do 5.º ao 12.º ano de escolaridade de 38 agrupamentos dos 11 concelhos da Comunidade intermunicipal do Tâmega e Sousa.
Com o apoio de um conjunto alargado de parceiros, a iniciativa materializa-se num conjunto integrado de cinco ações-chave que visa responder aos diferentes desafios que se colocam ao sucesso dos alunos de 38 Agrupamentos de Escolas dos 11 concelhos da Comunidade intermunicipal do Tâmega e Sousa:
- Apoio educativo individual, com um programa de desenvolvimento de competências académicas básicas (clubes de leitura e escrita, clubes de inglês e de matemática);
- Mentoria, promovendo a autorregulação, a metacognição, a comunicação e a orientação para a carreira;
- Enriquecimento social e cultural, prevendo um conjunto de experiências socioeducativas (como campos de férias, visitas de estudo ou intercâmbios) que visam expor os alunos a novas redes sociais, a contextos geográficos e culturais diversificados, dotando-os do conhecimento e dos recursos sociais que lhes permitirão fazer escolhas informadas e livres;
- Apoio material à família, oferecendo uma bolsa para satisfazer necessidades básicas nos domínios da educação, saúde e acesso à cultura (como material escolar e equipamentos; saúde oral, oftalmológica, estomatológica, entre outras);
- Apoio à parentalidade, estando previsto um programa de desenvolvimento de competências parentais que passará pela promoção de rotinas e hábitos de vida saudáveis (como regras e limites, alimentação, sono, condições para o estudo, atividade física, comunicação e relações interpessoais).
Com um orçamento estimado de 3,4 milhões de euros para um piloto de três anos, a iniciativa Gulbenkian Aprender conta apoiar 150 alunos no ano letivo 2025/26, crescendo este número progressivamente até aos 400 alunos por ano, a partir de 2027/28.
A sua implementação no terreno será assegurada por consórcios locais, de âmbito municipal, que reúnem os municípios, as escolas, as organizações sociais e as empresas, com quem serão estabelecidos protocolos de parceria. A iniciativa conta, ainda, com o apoio da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa e do Instituto Empresarial do Tâmega, que coordena toda a implementação na região. Estão envolvidos parceiros como a Associação Portuguesa de Matemática e a Sociedade Portuguesa de Matemática, o British Council, a Class of Wonders, o Knowledgehook ou a Associação para o Voluntariado na Leitura.
Mais equidade na educação
Acresce, aos números acima referidos, a forte transmissão intergeracional da educação – quando a escolaridade máxima dos pais é o 9.º ano, apenas 22% dos filhos completa o ensino superior. Essa percentagem ascende a 58% quando os pais têm o ensino secundário e 80% quando têm o ensino superior. A transmissão intergeracional da educação é reforçada pelas dificuldades financeiras das famílias – apenas 11% dos indivíduos cujos pais tinham no máximo o 9.º ano de escolaridade e que viviam com dificuldades financeiras concluiu o ensino superior. Essa percentagem sobe para 31% se os pais tinham uma boa situação financeira. A situação financeira não emerge como relevante quando os pais têm o ensino superior.
Com esta iniciativa, a Fundação Gulbenkian quer criar as oportunidades para que os jovens possam fazer escolhas educativas e profissionais independentes da sua condição socioeconómica, para que possam explorar todo o seu potencial de aprendizagem e cada um se torne num modelo positivo de mudança na sua comunidade. Pretende, ainda, testar e validar metodologias suscetíveis de, posteriormente, contribuir para as políticas públicas de equidade educativa.