7 novembro 2018

Histórias que vão e vêm

Elsa Serra é contadora de histórias e fundadora do projeto “Na Rua com Histórias – Uma Biblioteca para Todos”, que tem o apoio da Fundação, na área da coesão e da integração social, e de uma vasta rede de instituições.

Na Rua com História
Na Rua com História

A paixão de contar histórias “vem desde criança”, de quando as contava às bonecas e gostava de ler em voz alta na escola. Estudou e fez teatro, mas foi com os ateliês de escrita criativa e o nascimento do primeiro filho que Elsa encontrou a sua vocação e iniciou o seu percurso como contadora de histórias.

Habitante da zona histórica de Lisboa, teve uma livraria durante dois anos onde “contava histórias diferentes todos os fins-de-semana” e isso obrigou-a “a aprender e descobrir um público heterogéneo, desde os bebés aos adultos e avós”. Daí foi um passinho até o Na Rua com Histórias tomar forma. “Este projeto surgiu na minha cabeça em 2013, a pensar nas crianças”, conta Elsa, enumerando problemas sociais como a iliteracia que conseguiu identificar junto das escolas. “A ideia era levar as histórias para a rua, daí o nome”. Mais tarde, uma artrose que a obrigou a fechar-se em casa fê-la equacionar a questão do isolamento social e o objetivo passou a ser outro: “chegar a toda a gente”.

 

 

Literatura sobre rodas

Cinco anos depois, a Biblioteca para Todos – um tuk-tuk elétrico transformado em biblioteca itinerante, que percorre os bairros históricos de Alfama, Castelo, Graça, São Vicente e Mouraria, com rotas semanais fixas – está na rua, com o apoio financeiro do projeto BipZip da Câmara Municipal de Lisboa. Ao fim de cinco meses, já tem cerca de 300 leitores inscritos que fazem uma média de oito requisições por dia, com tendência para preferir os livros de ficção ou literatura infantil. Qualquer pessoa se pode tornar leitora, bastando para isso fornecer alguns dados pessoais, como o nome, número de identificação e correio eletrónico. Uma parceria com a Associação Conversa Amiga tem também permitido chegar às pessoas sem-abrigo, num esforço para promover hábitos de leitura e inclusão social.

Além de permitir o acesso a livros, a biblioteca organiza igualmente várias atividades dentro e fora de portas. As sessões de leitura – planeadas ou espontâneas – são uma delas. A esse respeito, Mónica Pereira, uma das colaboradoras do projeto, conta-nos um episódio recente sobre “uma turista francesa que não percebia nada de português” e veio à biblioteca “pedir para lhe ler Fernando Pessoa. Disse que gostava de ouvir os sons da língua e que a mãe era muito fã de Pessoa”. Para Mónica e Elsa, estes têm sido alguns dos momentos mais gratificantes do projeto.

 

 

Ler Doce Ler

Dentro de portas, organizam-se também visitas às escolas, aos centros de dia e ao domicílio. Estas últimas ocorrem desde há dois anos, com a ajuda de instituições como a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior ou a Voz do Operário, que sinalizam os potenciais destinatários: pessoas idosas, que estão sós ou com mobilidade reduzida. Depois de inscritas, uma equipa de dois voluntários desloca-se semanalmente às suas casas para uma hora de leitura e conversa, em que o objetivo, segundo Elsa, é “proporcionar, através dos livros, das histórias deles e das nossas, momentos bons”. Até hoje, mais de 22 pessoas já usufruíram do programa Ler Doce Ler, graças a uma rede de quase 30 voluntários.

Quando paramos no Largo da Graça à sexta-feira à tarde e assistimos à sessão de leitura para os idosos do centro de dia da Voz do Operário, percebemos que os livros aqui são sobretudo um pretexto para a partilha. “Não são só as nossas histórias que vão até eles, as deles também chegam até nós”, diz Elisa Tavares, a terceira colaboradora do projeto. E é por isso que, logo depois de ler a primeira frase do livro Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, “Durante algum tempo julguei que estava apaixonada pelo Kalkitos”, a leitora pergunta: “Quem é que aqui se lembra da primeira vez que esteve apaixonado?” e, um a um, cada ouvinte tem a oportunidade de trazer um pouco da sua história para o grupo.

Elsa diz que o projeto “ainda tem um caminho a percorrer”, mas tenciona continuar a levar e a recolher histórias pela cidade, com a iniciativa, também recente, Histórias que Somos, que quer dar voz às memórias das pessoas que habitam no centro de Lisboa. No site do projeto já é possível ouvir, contadas na primeira pessoa, as histórias do casal Esperança, da D. Elisa, da D. Amélia e da D. Matilde.

 

Saiba mais em naruacomhistorias.pt.