Ensaios e Artigos (1951-2007) de Agustina Bessa-Luís

Apresentação da obra que reúne os textos publicados na imprensa ao longo de 58 anos de vida literária ativa.

No dia 6 de fevereiro, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, foi apresentada a obra Ensaios e Artigos (1951-2007), que reúne em três volumes os textos de Agustina Bessa-Luís publicados na imprensa ao longo de 58 anos de vida literária ativa.

O lançamento contou com a presença de Lourença Baldaque, neta da escritora e responsável pela recolha e organização dos textos, José António Saraiva, ex-diretor dos semanários Expresso e Sol e autor do prefácio do livro, e Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação, incluindo ainda um testemunho de Mónica Baldaque, filha de Agustina Bessa-Luís.

Foi uma tarefa intrincada e complexa esta a que Lourença Baldaque se dedicou durante dois anos de investigação, recolha e organização de milhares de textos e documentos, muitos deles não datados ou identificados, outros quase totalmente perdidos ou esquecidos na memória da imprensa. Ao reconstituir o percurso jornalístico de Agustina, foi confrontada com a diversidade de temas e a variedade de publicações a que a autora se dedicou, numa verdadeira viagem no tempo que permitiu desvendar uma nova faceta – pública –, embora esta não pareça distanciar-se muito da privada. De facto, para a neta, a escrita de Agustina nos textos jornalísticos permite reconhecer o sentido crítico, a visão humanista, o espírito inquieto e curioso, a tenacidade e a firmeza que marcavam a sua personalidade e vida interior. A forma livre e desafiante com que escrevia foi inclusive fonte de muitas antipatias e dissabores, de que ela parecia estar consciente, como se verifica em excertos como este em “António Duarte ou o Sistema Respiratório”, publicado no Diário do Norte em 1957: “Eu, que construí com os ossos da profissão um monumento de antipatias, recuso-me a chamar responsável a todo aquele que se desvia do seu trabalho para abrir-se a conflitos dúbios, ainda que ideais.”

Também para José António Saraiva a leitura destes textos não constituiu um choque, antes pelo contrário; entre a ficção e o texto jornalístico de Agustina as diferenças são quase inexistentes. Isto porque “do que ela gosta verdadeiramente é de escrever” e tudo o resto – o tema, o género, o local – é rematado para segundo plano, como pretexto para exercitar a escrita. “Enquanto os colunistas tradicionais da imprensa usam a escrita para transmitir opiniões, Agustina faz exatamente o contrário: usa as opiniões para escrever”, conclui o jornalista.

De entre os inúmeros jornais e revistas com que Agustina colaborou, destacam-se alguns como o Diário Popular, o Diário de Notícias, o Diário do Norte, o Jornal Novo, o Jornal de Letras, o Primeiro de Janeiro ou o Independente. Nestas publicações os textos variam entre contos e pequenos ensaios literários, crónicas de viagens, textos históricos, observações e críticas a acontecimentos ou a grandes temas da atualidade. A declarada aversão ao fútil e o desinteresse pelo efémero não impediam a autora de ser uma observadora atenta da realidade que a circundava, embora se mostrasse particularmente desconfortável nos textos políticos e favorecesse os temas literários. Os seus textos estão, aliás, repletos de referências literárias e dão conta da sua enorme erudição. Ainda que tenha escrito um pouco sobre tudo, José António Saraiva destaca dois temas centrais na vida de Agustina: a sua relação com o universo das mulheres, de onde se ressalta o seu conservadorismo e antifeminismo, na recusa de colocar homens e mulheres em igualdade; e a sua relação com o Norte, particularmente com a cidade do Porto.

Com ou sem surpresa, estes textos jornalísticos são, nas palavras de Mónica Baldaque, uma “continuação da ficção em páginas soltas”, como pausas para respirar do mundo fechado dos romances. São mais de três mil páginas para consultar devagar e mergulhar um pouco mais fundo no universo de Agustina, onde a ficção se torna realidade e a realidade se torna ficção.

O livro foi também apresentado no Porto, dia 10 de fevereiro, na Biblioteca Serralves, numa sessão que reuniu os mesmos participantes. Além de poderem ser adquiridos na livraria da Fundação Gulbenkian, os livros estão à venda em várias livrarias de Lisboa e Porto e também nas lojas FNAC.

 

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