Encontros entre Portugal e o Brasil

Entrevista a Tania Martuscelli
01 jul 2015

Como chegou aos estudos luso-brasileiros?

Há uma série de razões que me levaram a encontrar este caminho. Uma delas tem a ver com a minha formação académica:licenciei-me em Letras na Universidade Estadual de Campinas, no Brasil, numa época em que havia um programa de sólida formação nos estudos luso-brasileiros, ainda que não fossem assim denominados. A minha tese de mestrado teve como foco a obra de António Maria Lisboa, o que me trouxe até aqui para poder ter acesso à obra dos surrealistas. Viver em Lisboa foi outra razão que me trouxe até à questão luso-brasileira – deixou de ser só motivação exclusivamente académica, mas também de identidade, ainda que eu não tenha família portuguesa. Fiz o meu doutoramento na Universidade de Massachusetts, em Amherst, onde fui apresentada ao universo dos países africanos de língua oficial portuguesa, além de seguir os meus estudos do surrealismo, desta vez Mário-Henrique Leiria. Outro motivo é porque sou professora nos Estados Unidos, um terceiro lugar para explorar (de fora, mas também de dentro!) esse universo luso-brasileiro. Tive o privilégio de poder elaborar um programa de Português na Universidade do Colorado, em Boulder, e optei por uma proposta em que os alunos têm um treinamento mais globalizante, isto é, do mundo falante de português, não exclusivo ao Brasil ou a Portugal. As motivações foram, por isso, profissionais e pessoais.

 

Lecionou Português em algumas universidades norte-americanas. É uma língua procurada por estudantes de outros idiomas?

O português tem-se tornado cada vez mais popular nos Estados Unidos. O perfil dos estudantes não se restringe apenas aos descendentes de portugueses, brasileiros ou cabo-verdianos, mas a americanos também. Há um aumento na oferta de cursos de Português para falantes de espanhol, por exemplo, de modo a aprenderem a língua em menos tempo, o que atrai mais alunos. Evidentemente – por questões económicas e políticas sobretudo –, o interesse é maior no Brasil. Contudo, ao oferecer uma gama de cursos que engloba os países de língua oficial portuguesa, além do “sotaque” brasileiro, os alunos aprendem muito desse “mundo vasto mundo” e encantam-se com a ideia de poderem estudar e conhecer culturas que, apesar de aparentemente díspares, têm tantas conexões.

 

A par de grandes nomes da literatura, já publicou artigos na Colóquio/Letras. É importante para si colaborar com revistas deste género?

Publicar na Colóquio/Letras, ou ter meu primeiro livro recenseado nela, posso dizer firmemente, é uma grande realização profissional. Ademais dos grandes nomes da crítica literária que aí publicam, o profissionalismo e rigor com que Nuno Júdice, Ana Marques Gastão e Maria F.Ramos Rosa cuidam dos textos e das edições de cada número é impressionante. Revistas como a Colóquio são verdadeiras referências para estudiosos da literatura. Ter o meu trabalho inserido nesse contexto é um privilégio.

 

Está agora a escrever um livro sobre as relações entre escritores portugueses e brasileiros. Qual é a ideia central do livro?

A ideia central é voltar a discutir alguns momentos de encontro da cultura (literária, sobretudo) dos dois países de modo a perceber o hibridismo – como foi cunhado por H.Bhabha. Desafiei-me a revisitar acontecimentos socioculturais que tiveram lugar tanto cá como lá com base no diálogo entre intelectuais e em periódicos sobretudo. O título provisório do livro, (Des)Conexões entre Portugal e o Brasil – Estudos Culturais, já aponta para a dificuldade de afirmar o hibridismo. Estou a lidar com questões de identidade cultural, que a princípio subentendem singularidade e emancipação. Contudo, além da complexidade do processo de colonização e posterior descolonização na formação das duas sociedades, a inédita transmigração do reino de Portugal ao Brasil leva essa discussão a outro patamar. A colónia foi metrópole de sua metrópole. Essa imagética e o imaginário que tal fenômeno acarreta, acaba por trazeruma nova camada de subversão nos estudos pós-coloniais.

 

Quais os mais destacados pontos de contacto entre os autores dos dois países?

O “fenômeno Eça” no Brasil; as “geração de 70” de cá e de lá; a República brasileira e a portuguesa; a figura de João do Rio em Portugal; os modernismos e os modernistas; o romance social brasileiro e o neorrealismo; as neovanguardas, como o concretismo, a poesia experimental, etc. Não são pontos de contato propriamente desconhecidos, mas o argumento de hibridismo cultural é o que me parece mais instigante nesse estudo.

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