29 outubro 2018

Dois entusiastas colecionadores de arte

Luísa Sampaio, conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, explica as linhas gerais desta mostra, destacando o sugestivo diálogo estabelecido entre as peças das duas coleções.

Como surgiu a ideia desta exposição?
Fomos contactados pela New Carlsberg Foundation, que manifestou interesse em desenvolver um projeto expositivo comum. Embora a coleção dinamarquesa seja inteiramente dedicada à escultura, ao contrário da nossa, onde a diversidade é a nota dominante, encontra no seu riquíssimo núcleo de escultura francesa do século XIX um ponto de convergência com a Coleção Gulbenkian.

Que ligações se podem estabelecer?
As coleções do Museu Calouste Gulbenkian e da Ny Carlsberg Glyptotek foram fundadas por dois entusiastas colecionadores de arte. Um dos mais notáveis paralelismos entre os acervos de Carl Jacobsen e de Calouste Sarkis Gulbenkian reside no modo como as esculturas francesas, que ambos adquiriram ao longo da vida, dialogam naturalmente entre si. Rodin, Carpeaux e Dalou são claramente escultores que ambos procuraram acrescentar aos seus acervos. Jacobsen de forma sistemática, no sentido de criar uma amostragem significativa da obra dos autores, Gulbenkian de forma mais “afetiva”, procurando ir ao encontro dos exemplares que realmente lhe interessavam, tal como fez com outros núcleos da coleção.

Quer destacar algumas obras?
Talvez as duas versões de Flora, de Jean-Baptiste Carpeaux: a do Museu Gulbenkian, em mármore, de 1873; e o seu modelo original em gesso, de 1870, da Ny Carlsberg Glyptotek. Saliento ainda uma figura entrelaçada de Rodin, A Eterna Primavera (1888), também do nosso museu, e uma figura de pé, O Jovem Ciclista (1907), de Maillol, da coleção dinamarquesa.
Tal como O Beijo, originalmente concebido para representar a história de Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, na Divina Comédia, de Dante, da qual é, de alguma forma, uma variante, a composição constitui uma afirmação da felicidade amorosa.
A obra, que conheceu enorme sucesso com uma dezena de passagens a mármore e diversas edições em bronze (a exposição apresenta-a em versões de ambos os materiais), foi concebida durante o extenso período de realização de As Portas do Inferno, o monumental projeto que ocupou Rodin durante décadas. Já O Jovem Ciclista de Maillol encontrou na estatuária arcaica a sua fonte de inspiração direta, uma vez que o artista teve ocasião de admirar na Acrópole o célebre Efebo de Crítio. O jovem retratado por Maillol, representado em contraposto, distancia-se, porém, na sua candura muito própria, do protótipo clássico da figura atlética.

 

Pose e Variações

Até 4 fevereiro