Orquestra Gulbenkian e Benjamin Bernheim

Debussy / Chausson / Brahms

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Desde que assumiu a liderança artística da Orquestra Gulbenkian, Lorenzo Viotti tem deixado várias marcas pessoais na programação de cada temporada. Nestes últimos concertos como Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian, junta o simbolismo do Prélude à l’après-midi d’un Faune, de Debussy, com a sombra de Beethoven na 1.ª Sinfonia de Brahms, e retoma parcialmente o programa da sua primeira apresentação, em janeiro de 2017, relembrando a beleza etérea do Poème de l’amour et de la mer, de Chausson, agora com a colaboração do tenor francês Benjamin Bernheim.


TRANSMISSÃO


Programa

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Benjamin Bernheim Tenor

Claude Debussy (1862 1918)
Prélude à l’après-midi d’un Faune

Composição: 1894
Estreia: Paris, 22 de dezembro de 1894
Duração: c. 10 min.

A presença inspiradora de elementos da natureza na atividade criativa de Claude Debussy e de outros compositores ativos em França na transição para o século XX, entre os quais Maurice Ravel (1875-1937), Paul Dukas (1865-1935) e Frederick Delius (1862-1934), trouxe consigo associações frequentes à corrente do Impressionismo, ainda que, sob a aparência vaga e generalizadora de algumas destas analogias com o domínio plástico, tivessem ficado esquecidas as especificidades estético-estilísticas individuais, bem como as influências de outras áreas de expressão intelectual, designadamente da literatura. A relação com este último domínio aparece em destaque no célebre Prélude à l’après-midi d’un faune, uma das páginas orquestrais mais célebres de Debussy, ao lado dos três esboços sinfónicos que constituem La mer. Trata-se aqui da evocação de uma natureza mítica, tal como representada em Prélude, interludes et paraphrase finale pour l’après-midi d’un faune, um dos mais belos poemas do escritor Stéphane Mallarmé (1842-1898), representante destacado do movimento simbolista francês na segunda metade do século XIX.

Do projeto inicial de composição, em três andamentos, Debussy reteve apenas o Prelúdio, composto entre 1892 e 1894, no mesmo período em que foi iniciada a composição da ópera Pélleas et Mélisande. É o compositor quem melhor explicita o significado da obra, com as seguintes palavras: “…uma ilustração muito livre do belo poema de Stéphane Mallarmé, mas que não pretende, de nenhum modo, ser uma síntese do mesmo. São antes os quadros sucessivos através dos quais se movem os desejos e os sonhos de um fauno no calor do início da tarde. Depois, em lugar de seguir o curso da fuga amedrontada das ninfas e das náiades, entrega-se antes a um estado inebriante, repleto de sonhos enfim realizados, de possessão total na natureza universal”. A peça de Debussy serviria de base para o bailado L'après-midi d'un faune, coreografado por Vaslav Nijinsky para os Ballets Russes e estreado no Théâtre du Châtelet, em Paris, em maio de 1912.

Rui Cabral Lopes

 

Ernest Chausson (1855 1899)
Poème de l’amour et de la mer, op. 19
– La Fleur des eaux
– Interlude
– La Mort de l’amour

Composição: 1882-90 / rev. 1893
Estreia: Bruxelas, 21 de fevereiro de 1893
Duração: c. 28 min.

Oriundo de famílias abastadas, formado dentro da cultura clássica (em Direito, conforme a tradição familiar), Ernest Chausson teve um contacto privilegiado com a poesia, a literatura e a pintura contemporâneas. Uma autocrítica severa e uma partida prematura, quando entrava na fase de maturidade musical, levaram a um espólio de composições relativamente reduzido.

Chausson foi visto durante muito tempo como um “burguês enfadonho”, epígono de César Franck, mas hoje é reconhecido como uma das mais importantes figuras do romantismo francês, uma ponte entre Franck e Debussy, mas também uma personalidade criativa individual, antecipando em certos aspetos o impressionismo musical da última década do século XIX. Enquanto secretário da Sociedade Musical de Paris, impulsionou jovens compositores e o seu salão era um local de encontro de importantes personalidades artísticas.

A génese de Poème de l’amour et de la mer remonta a 1882, época em que Chausson era discípulo de César Franck. Os textos provêm de uma coleção de poemas do seu amigo e contemporâneo Maurice Bouchor (1855-1929). Viria a concluir a obra quase uma década depois e a apresentá-la como “canto sinfónico” em Bruxelas, em fevereiro de 1893, e depois na sala Érard em Paris, em abril do mesmo ano.

Considerado o mais wagneriano dos compositores franceses, a descoberta de O Navio Fantasma e de outras óperas a que assistiu em Bayreuth, influenciou-o bastante numa fase inicial. A sua admiração por Wagner revela-se através de uma presença de Tristão e Isolda no Poème op. 19, com a ligação entre o mar, a morte e o amor e uma secção final com muito do Liebestod.

Partitura única no panorama musical da época, descreve o típico romance de verão de fin de siècle marcado por uma melancolia retrospetiva, mas vai além da tradução de sentimentos e de atmosferas. Dentro de uma estética simbolista, as emoções não são traduzidas diretamente, mas evocadas na sensibilidade do sujeito poético aos sons, imagens e perfumes que o rodeiam. Chausson funde com precisão poesia e música sobre uma orquestração refinada e transparente.

Dividida em duas partes com um interlúdio no centro, a obra assenta na melodia contínua e na forma cíclica. É atravessada por l’idée, um constante jogo de ondas, do mar e do amor, e pela evocação do lilás – flor inspiradora de pintores e poetas, associada a um amor jovem ou antigo – no início e no final.

Susana Duarte

 

Johannes Brahms (1833 1897)
Sinfonia n.º 1, em Dó menor, op. 68
Un poco sostenuto – Allegro – Meno allegro
Andante sostenuto
Un poco allegretto e grazioso
Adagio – Più andante – Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro

Composição: 1876
Estreia: Karlsruhe, 4 de novembro de 1876
Duração: c. 45 min.

Decorria o ano de 1853 quando o compositor Robert Schumann apresentou o jovem Johannes Brahms como um dos mais talentosos artistas da sua geração, motivando-o a compor uma obra sinfónica de grande dimensão. Brahms efetuou várias tentativas para compor uma sinfonia, mas estas acabariam por derivar noutras obras de igual interesse, como o Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, op. 15, e a Serenade n.º 1, op. 11. O caminho para a Sinfonia n.º 1 seria longo e marcado não apenas pelo espírito autocrítico do compositor, mas também pelo facto de surgir como herdeira da tradição beethoveniana. Como o próprio referiria numa carta ao maestro e amigo Herman Levi: “Eu nunca irei compor uma sinfonia! Não faz ideia do que é, para alguém como eu, ouvir sempre um gigante como Beethoven a caminhar atrás de mim”. Desde os primeiros esboços, alguns dos quais partilhou com Clara Schumann, até à versão final da sinfonia, passariam mais de 20 anos. Assim que a terminou, em 1876, Brahms enviou-a ao seu amigo e maestro Felix Otto Dessoff, que a estreou a 4 de novembro, em Karlsruhe.

Na sua 1.ª Sinfonia, Brahms mantém os tradicionais quatro andamentos, embora, como acontecera com Beethoven, introduza várias inovações formais em cada um deles. No início do primeiro andamento capta a atenção do ouvinte para a monumentalidade da obra, com o efeito intenso da percussão e do cromatismo nas cordas. Depois da introdução, segue-se o primeiro tema do Allegro, mais dramático e agitado, que contrasta com o segundo, mais lírico e sombrio. O segundo andamento é um monumento à capacidade melódica e de harmonização reconhecida em Brahms, com exploração de diversas cores e texturas orquestrais. Segue-se um andamento mais curto, Un poco allegretto e grazioso, que funciona como um intermezzo no qual o compositor recupera a frescura quase rústica das serenades. O andamento final inicia-se com um Adagio, onde Brahms explora a intensidade tempestuosa com os timpani e com recurso ao cromatismo. Surge depois um tema, em modo maior, que liberta a música da melancolia e carga emocional anterior, movendo-se numa direção mais luminosa. O hino que se segue, em conjunto com o coral majestoso dos trombones, antecede a coda triunfante que marca o final desta afirmação sinfónica de Brahms.

Pedro Russo Moreira


GUIA DE AUDIÇÃO

 

Por Jorge Rodrigues

No Guia de Audição desta semana, Jorge Rodrigues fala-nos das três obras que serão apresentadas pela Orquestra Gulbenkian e Benjamin Bernheim, sob a direção de Lorenzo Viotti.


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