Grigory Sokolov

Ciclo de Piano

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Não escasseiam as vozes que consideram Grigory Sokolov o mais brilhante pianista dos nossos dias. Faltam já adjetivos capazes de fazer justiça ao génio do músico russo, cuja presença recorrente na Gulbenkian Música ao longo da última década se traduziu no privilégio de privar com as suas sublimes qualidades interpretativas todos os anos. O realizador Bruno Monsaingeon, que filmou um recital do pianista em 2013, escreveu que “Sokolov acredita que o palco representa o foco da vida musical e que tudo o mais é artificial”. Daí que a sua entrega em cada recital seja sempre algo a que não se pode deixar de assistir.

 


Programa

Grigory Sokolov Piano

Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
15 Variações e Fuga para Piano, em Mi bemol maior, op. 35
Introduzione col Basso del Tema: Allegretto vivace
A due
A tre
A quattro
Tema
Var. I
Var. II
Var. III
Var. IV
Var. V
Var. VI
Var. VII. Canone all’ottava
Var. VIII
Var. IX
Var. X
Var. XI
Var. XII
Var. XIII
Var. XIV: Minore
Var. XV: Maggiore. Largo
Finale: Alla fuga – Allegro con brio – Andante con moto

Composição: 1802
Duração: c. 24 min.

Beethoven é reconhecido como um colosso do Classicismo Vienense. Recordado como inovador musical, antecipou a ideia de génio criador na qual se baseou o sistema de valores do Romantismo que se cristalizou no século XIX. Contudo, a afirmação do jovem compositor realizou-se em moldes significativamente distintos. Ludwig fixou-se em Viena em 1792, após ter visitado a cidade alguns anos antes. Dada a proximidade da corte do Arcebispo de Colónia, para a qual Beethoven trabalhava, e a nobreza do Império dos Habsburgo, o músico de Bona foi recebido de braços abertos pelos aristocratas melómanos da cidade. Nessa altura, Viena tinha uma intensa vida musical em palácios privados e em teatros públicos. O pianista recém-chegado atuava regularmente nas salas de música dos mais prestigiados patronos. Nesse contexto, era valorizada a improvisação, o que fazia com que as variações ocupassem um lugar privilegiado nas soirées. Na altura, Beethoven escreveu várias obras nesse género. Posteriormente, o compositor modificou o seu estilo e regressou, pontualmente, ao género.

As 15 Variazioni e fuga per pianoforte in mi bemolle maggiore, op. 35, foram escritas em 1802, quando o compositor se encontrava numa fase de grande reconhecimento. A sua fama aumentou aquando da apresentação das duas primeiras sinfonias e Beethoven tinha apresentado o bailado As criaturas de Prometeu no ano anterior. Foi desta obra que o compositor retirou o tema para as presentes variações, que empregou posteriormente na inovadora Sinfonia n.º 3.

Na introdução, Beethoven apresenta o baixo que suporta o tema, numa textura a duas vozes que enfatiza a vivacidade rítmica. A atmosfera torna-se mais densa pela adição de vozes, sobrepondo melodias sinuosas. Uma breve cadência solista entrecorta a apresentação da melodia e prepara uma abordagem mais orquestral.

O tema das variações encontra-se numa textura de contradança em que a harmonia cria tensão. As variações abarcam uma grande quantidade de mecanismos expressivos, encarnando ambientes leves e lúdicos que contrastam com passagens virtuosísticas que tiram partido da nova extensão do piano à época. O recurso a ritmos contrastantes, as estruturas de pergunta-resposta que opõem registos do instrumento e as corridas com que as duas mãos percorrem o teclado são elementos basilares nas técnicas de variação da época. Beethoven recorre, igualmente, à sincopação e ao melodismo, atravessando atmosferas rústicas e campestres e momentos tempestuosos. Da emulação das trompas ao lirismo operático, o compositor transporta-nos ao seu universo, em que o contraste melódico, harmónico, rítmico, tímbrico e ornamental sublinha a visão estrutural das variações. O dramatismo, a percussividade e o virtuosismo contrastam com a contenção lírica. O contraponto emerge em algumas variações, revelando a importância dessa técnica na produção de Beethoven. Das práticas barrocas aos novos modelos, encarnados na fuga final (que marca o regresso da atmosfera do início), a sobreposição de melodias ocupa um lugar central nas variações, conduzindo a um final operático.

Johannes Brahms (1833 – 1897)
Três Intermezzi op. 117
1. Andante moderato
2. Andante non troppo e con molta espressione
3. Andante con moto

Composição: 1892
Duração: c. 16 min.

As peças características de Schumann para piano causaram grande impacte em Brahms, que manteve uma relação fiel com os Schumann. Os Intermezzi, op. 117 foram escritos em 1892 e fazem parte das últimas obras que o compositor escreveu. Neles, pontificam a expressividade, a dissolução da diferença entre melodia e acompanhamento. Paralelamente, a transformação permanente de curtos elementos e o recurso ao contraponto na condução de percursos harmónicos, simultaneamente ambíguos e aventurosos, marcam essas peças.

Os três intermezzi foram escritos numa forma ABA e as melodias cantabile evocam as canções de embalar e da música tradicional. A primeira peça centra-se na apresentação da melodia, de caráter vocal, sobre um acompanhamento regular. A periodicidade alimenta uma ideia de estatismo, ao passo que alguns elementos são transformados progressivamente. Uma melodia numa das vozes intermédias revela o interesse de Brahms pelo contraponto, contido através da expressividade romântica. Uma secção intermédia, escura e misteriosa, onde dominam os arpejos, contrasta com a evocação nostálgica que marca o início do intermezzo, que retoma a atmosfera de canção de embalar com a reexposição transformada do material inicial.

O segundo intermezzo baseia-se num curto motivo sobre um acompanhamento arpejado. Esse elemento basilar alimenta um trabalho motívico e harmónico de constante mudança, a partir de pequenas alterações. Esse percurso é intensificado pela instabilidade e dinâmica em crescendo, conduzindo a uma secção intermédia contrastante pela luminosidade e brilho. Um caráter contemplativo emerge, enfatizado pelo diferimento das resoluções através do cromatismo e do contraponto. O regresso da atmosfera inicial, com elementos profundamente transformados, conduz a peça ao término, intensificado pela repetição que antecipa a submersão da obra numa atmosfera de quietude.

O ciclo completa-se com uma obra que começa com um contexto solene e sincopado baseado em pequenas células. A melodia ondulante que se constitui com a sucessão de elementos encarna a indecisão e ambiguidade, valores acarinhados pelo Romantismo. A instabilidade da secção intermédia é marcada pelas arrancadas expressivas e pela circularidade, onde as vozes interiores concentram a atenção do ouvinte. O intermezzo termina com a apresentação do material inicial, num ambiente mais escuro que valoriza os graves do piano. O legado pianístico e estético de Brahms num conjunto de miniaturas.

— Intervalo de 25 min —

Robert Schumann (1810 – 1856)
Kreisleriana. Fantasien op. 16
1. Äußerst bewegt (Agitadíssimo)
2. Sehr innig und nicht zu rasch (Muito expressivo e moderado)
    Intermezzo I: Sehr lebhaft (Muito vivo)
    Erstes Tempo (Tempo I)
    Intermezzo II: Etwas bewegter (Mais animado)
    Erstes Tempo (Tempo I)
3. Sehr aufgeregt (Muito agitado) – Etwas Langsamer (Moderado)
    Erstes Tempo (Tempo I) – Noch schneller (Mais rápido)
4. Sehr langsam (Muito lento)
5. Sehr lebhaft (Muito vivo)
6. Sehr langsam (Muito lento)
7. Sehr rasch (Muito rápido)
8. Schnell und spielend (Rápido e lúdico)

Composição: 1838
Duração: c. 31 min.

Johannes Kreisler é uma figura emblemática do Romantismo. Personagem criado por E. T. A. Hoffmann, um pioneiro literário da época, encarna um temperamental mestre de capela. A dificuldade de relacionamento com o mundo traduziu-se na solidão e afastamento desse músico da sociedade. Dessa forma, um ser artístico marcado pela insatisfação constante e pela busca da perfeição inspirou Kreisleriana.

Schumann desenvolveu, desde cedo, um apetite voraz pela literatura germânica da época e tentou retratar o espetro de emoções contidas em Kreisler numa obra para piano. Epíteto do músico romântico, Kreisler tinha traços de personalidade nos quais Schumann se revia. Kreisleriana consiste em oito peças características para piano, reflexo do fascínio que o Romantismo nutria pela expressão do momento. Transformações abruptas de atmosfera, ambiguidade tonal e virtuosismo sobressaem numa obra marcante do repertório do século XIX.

Escrita em Leipzig em 1838, Kreisleriana incorpora elementos centrais na linguagem do compositor que, à época, se encontrava noivo de Clara Wieck. Os entraves ao relacionamento interpostos pelo antigo professor de piano e futuro sogro, Friedrich Wieck, fizeram desse período um momento conturbado. O encantamento amoroso, que contribuiu para Schumann sair de um estado depressivo, encontra-se refletido em Kreisleriana. O ambiente afirmativo e cinético da primeira obra encarna num movimento perpétuo ascendente e em crescendo, cuja ambiguidade e tensão são sublinhadas pelo cromatismo. A textura rarefeita da secção intermédia, que alterna registos, contrasta com as passagens iniciais, que Schumann retoma no fim. Segue-se uma peça caracterizada pelas linhas melódicas líricas e ondulantes. A harmonia surpreendente enfatiza uma melodia cuja resolução é diferida. Schumann interpola um intermezzo contrastante, baseado num gesto descendente e afirmativo.

O regresso da atmosfera inicial é interrompido por um segundo intermezzo, cinético e agitado, em que as progressões rápidas dão lugar a uma transição lenta e cromática. Esse momento é marcado pela instabilidade harmónica que apoia a fragmentação do material melódico do início da peça, sobreposto através do contraponto, conduzindo a um momento final estático. A agitação pontifica na terceira peça, em que a percussividade e o ritmo marcado dominam a narrativa. Um episódio lírico de textura leve emerge, antecipando o regresso do material inicial. Segue-se uma passagem que intensifica e acelera esses elementos, conduzindo a um final apoteótico.

Sehr langsam consiste num lamento conduzido pela melodia, apoiado pela verticalidade da harmonia. Tripartido, a secção intermédia encarna o lirismo schummaniano, em que a tensão e a escuridão são intensificadas pelo contraponto. A quinta peça estiliza uma fuga barroca, baseando-se em células curtas isoladas pela articulação. O adensamento da textura contrasta com uma secção dominada pela melodia cantabile. O contraponto regressa, conduzindo a uma secção de textura esparsa com frases regulares e oscilações de tempo até emergir a atmosfera inicial.

A peça seguinte aproxima-se do noturno, em que a melodia é sublinhada pelo acompanhamento arpejado. O pathos é traduzido pela instabilidade, precipitando uma secção estática que, gradualmente, acelera e cresce até o retorno à quietude inicial. A peça seguinte consiste num momento cinético de ritmo marcado em que o movimento acentua algumas notas. O contraponto entra em cena na secção intermédia, na qual a adição de vozes e as transições abruptas para passagens verticais em que pontifica a quietude interrompem a condução melódica.

Kreisleriana termina com uma peça dominada pelos galopes que acentuam as notas principais da melodia nas notas agudas. Schumann integra um episódio marcado pelo domínio do registo grave e pela intensidade expressiva da melodia. O retorno da atmosfera inicial conduz a uma passagem densa e sincopada, preparando a reexposição do material temático ornamentado. Um decrescendo marca o final de uma obra que retrata as muitas faces e expressões de Johannes Kreisler, mestre de capela fictício de um Romantismo bem real.

Notas de João Silva

Johannes Brahms 
6 Peças para piano, op. 118
– n.º 3, em Sol menor, Ballade

Sergei Rachmaninov
10 Prelúdios, op. 23
– n.º 4, em Ré maior, Andante Cantabile
– n.º 9, em Mi bemol menor, Presto
– n.º 10, em Sol bemol maior, Largo

Alexander Scriabin 
24 Prelúdios, op. 11
n.º 4, em Mi menor, Lento

Johann Sebastian Bach
Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ!, BWV 639


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