Coro Gulbenkian A Cappella

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O Coro Gulbenkian e o maestro Jorge Matta apresentam um programa com fortes ligações a Portugal e inteiramente dedicado à música coral do século XX. A par de Nuits, do compositor grego Iannis Xenakis – uma das obras-primas do século passado, encomendada pela Fundação Gulbenkian e estreada em 1968 – o concerto inclui peças dos compositores portugueses Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santos e Filipe Pires. Da compositora Constança Capdeville, nascida em Barcelona, mas radicada em Portugal a partir de 1951, será interpretada a mística peça Libera me (1979), uma inspirada e expressiva convergência entre ocidente e oriente.


Programa

Coro Gulbenkian
Jorge Matta Direção
António Sousa Dias Piano / Percussão
Marco Fernandes Percussão
Ricardo Martins Piano
Sergi Miñana Trombone

Beatriz Ventura
Claire Santos
Filipa Passos
Susana Duarte
Verónica Silva
Rosa Caldeira
Mónica Santos
Marisa Figueira

Joana Esteves
Joana Nascimento
Manon Marques
Michelle Rollin
Patrícia Mendes
Marta Ribeiro

Diogo Pombo
Frederico Projecto
João Pedro Afonso
Sérgio Fontão
Jaime Bacharel
Pedro Rodrigues

João Costa
Nuno Rodrigues
Pedro Casanova
Rui Borras
Tiago Navarro
Miguel Jesus

 

Iannis Xenakis (1922 – 2001)
Nuits*

Iannis Xenakis (1922-2001), compositor grego (apesar de ter nascido na Roménia) foi uma das mais marcantes personalidades da cultura do século XX. Engenheiro, arquiteto, resistente e combatente nacionalista (pela Grécia), sintetiza nas suas obras essas múltiplas facetas. Como homem político é interventivo – Nuits é dedicada aos prisioneiros políticos, em particular a dois gregos, a um espanhol e a um português, havendo mesmo na partitura alguns efeitos que serão presumivelmente gritos de tortura e slogans de manifestações. Como engenheiro, introduz nas suas obras os cálculos matemáticos, as probabilidades e a aleatoriedade racionalizada; como arquiteto e como músico, desenha edifícios, pavilhões e partituras com o mesmo sentido espacial – linhas retas e curvas, pontos, interseções, figuras geométricas. Na partitura de Nuits – encomendada pela Fundação Gulbenkian e estreada em 1968 – encontramos cones dialogantes, linhas estáticas e direcionais, oposições entre elementos horizontais e verticais, grandes massas compactas ou contrastantes, sucessão e sobreposição de densidades, exploração de materiais novos. Nuits (as citações são do compositor) é um “vocalizo coral para 12 vozes solistas”, em que se sucedem as “arborescências” (“glissandos ramificados e entrançados como os ramos de uma árvore”), as “nuvens” (criação de massas sonoras a partir de partículas elementares, criando um contraponto pulverizado), os sons estáticos (em que a harmonia é neutralizada em função da criação de sonoridades). Os sons vocais são “remoinhos, crepitações, gemidos, latidos e chilreios de animais ou gritos humanos”.

 

Fernando Lopes-Graça (1906 – 1994)
Tres Líricas Castellanas de Camões

Fernando Lopes-Graça (1906-1994), destacada figura da cultura portuguesa do século XX, com uma vasta obra literária publicada, foi compositor, pianista, maestro, professor e musicólogo. Pesquisador e estudioso da música tradicional portuguesa, integrou-a de algum modo na sua música, diretamente pela harmonização das suas melodias ou através da integração das suas características (ritmos, melodia, harmonia) no seu estilo pessoal. As Três Líricas Castelhanas de Camões, de 1955, refletem a música antiga ibérica, com frases curtas e cadências elaboradas. A harmonia é ousada, por vezes muito dissonante, usando os acordes como uma subtil paleta de cores que refletem o ambiente do texto de Camões.

 

Joly Braga Santos (1924 – 1988)
Cantarcillo (Estreia absoluta)
Cuatro Canciones
1. De los álamos vengo
2. Al alba venid
3. Al cantar de las aves
4. Ay, luna que reluces

Joly Braga Santos (1924-1988) foi maestro (com uma duradoura ligação à Orquestra Sinfónica do Porto e à Orquestra Sinfónica da RDP) e compositor, discípulo dileto de Luís de Freitas Branco. Numa primeira fase a sua música refletiu um gosto especial pela música tradicional e pela polifonia renascentista. Depois dos estudos de composição em Itália, adquiriu facetas mais vanguardistas, sempre sem perder o seu próprio estilo. Na música vocal, o texto é altamente condicionante da música que o serve: a nível melódico e rítmico, em que o desenho, o impulso e a organização no tempo se apoiam natural e intimamente na prosódia e na harmonia, em que as cores, as tensões e as densidades servem as situações e os ambientes. Cantarcillo, de 1972, sobre um poema de Calderón de la Barca, tem uma melodia cromática, uma métrica irregular e uma harmonia dissonante, nunca se fixando numa verdadeira tónica. Cuatro Canciones, sem data de composição, mas estreada em 1973 pelo Coro Gulbenkian, é sobre textos anónimos dos séculos XV e XVI. As canções têm uma escrita simples e belíssimas melodias, quase sempre de caráter modal, transparentes e luminosas.

 

Filipe Pires (1934 – 2015)
Canções do Mar
1. Dormem na praia
2. Liberdade
3. Meditação

Filipe Pires (1934-2015) foi pianista, professor (em Lisboa e no Porto) e compositor, com uma vasta carreira internacional. Ganhou prémios de composição e foi representante de Portugal na UNESCO. As Canções do Mar, compostas em 1981, têm um ambiente modal e uma harmonia ousada, livre de atrações tonais. Cada uma das canções está intimamente ligada ao texto poético, traduzindo-o com subtileza e expressivo lirismo. Serão cantadas as canções “Dormem na praia” e “Liberdade” (Sophia de Mello Breyner Andresen), e “Meditação” (Rui Cinatti).

 

Constança Capdeville (1937 – 1992)
Libera me

Constança Capdeville (1937-1992) nasceu em Barcelona, em plena Guerra Civil, mas veio com a família para Portugal, e aqui ficou a viver.  Estudou piano e composição, e desde cedo se distinguiu com as suas obras de vanguarda e a sua absoluta independência criativa. Foi uma professora, pedagoga e musicóloga brilhante, criou e colaborou com vários grupos dedicados à música contemporânea, integrou o movimento, a cena e a dança na sua música e nos seus espetáculos (a que ela própria chamava “teatro musical”), compôs bandas sonoras para vários filmes.

Libera me foi criada inicialmente para bailado (para o Ballet Gulbenkian, com uma coreografia de Vasco Wellemkamp), numa versão totalmente gravada. Na sequência do sucesso dos espetáculos, a compositora recriou a obra para ser executada ao vivo. A estreia desta nova versão foi em 1979, com o Coro e o Ballet Gulbenkian. O texto de Libera me é uma das partes do rito católico fúnebre, mas Constança não o utiliza literalmente, apenas o toma como estímulo compositivo, recriando a ideia de libertação. A obra faz uso do princípio aleatório (neste caso não quer dizer ausência de escolha do criador, mas deixar ao executante a determinação de certos parâmetros, seguindo princípios definidos), utiliza elementos originais e colagens de excertos de obras anteriores. A compositora explica, em 1981, numa entrevista ao Diário de Notícias: “Não considerei as colagens como elementos já existentes, não as usei como citações. Peguei no material como se fosse material musical ainda por elaborar. Quanto à essência da obra, é o querer chegar, através de material contraditório, através do assumir desses elementos, a uma unificação. Utilizei material musical em perfeita oposição: canto tibetano, canto gregoriano, etc. Tudo foi trabalhado de modo a conseguir uma unificação. […] Libera me é o nascer de qualquer coisa, a libertação através da própria aceitação das nossas limitações. E, como acontece com todas as minhas obras, também esta termina com um ponto de interrogação. O público tem de ficar com a noção de um todo, mas de um todo que fica no ar, em suspenso para a próxima obra.”

Notas de Jorge Matta

 

* Encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, 1968


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