Célimène Daudet

Ciclo de Piano

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De ascendência haitiana, a pianista francesa Célimène Daudet criou o Haiti Piano Project em 2017, quando quis apresentar-se em concerto no país da sua família materna e percebeu que, devido aos severos fenómenos naturais que se abateram sobre o território nos últimos anos, nenhum piano capaz tinha sobrevivido. Assim, enquanto recolhia fundos para a aquisição de um instrumento, montou um festival dedicado ao piano no Haiti. Foi nessa ocasião que descobriu a obra de Justin Elie, compositor local que a levou a aprofundar a pesquisa e a criar um concerto em que interpreta peças dos haitianos Justin Elie e Ludovic Lamothe, ao lado de referências para estes autores, como Debussy e Chopin.


Programa

Célimène Daudet Piano

Justin Elie
Isma-o!: Les Chants de la montagne n.º 1
Nostalgie: Les Chants de la montagne n.º 2

Composição: c. 1920
Duração: c. 4 + 4 min.

A figura de Justin Elie (1883-1931) destaca-se na música do Haiti das primeiras décadas do século XX. Pianista e compositor, estudou em França, apresentou-se na Europa e fixou-se nos Estados Unidos da América na década de 1920. Nessa altura, esse país exportava o jazz para todo o Mundo, símbolo da sofisticação e regeneração cultural. Paralelamente, estreitava laços com nações como o Haiti, numa política de expansão económica e cultural. Muitos géneros musicais das Caraíbas tornaram-se famosos nesse processo.

Compositores como Elie incorporaram elementos da música da diáspora africana no Haiti, em especial os cantos e ritmos do voudou, nas suas obras de concerto. O voudou é uma religião que mistura elementos da costa ocidental africana com aspetos do Catolicismo. Nesse contexto, destacam-se Les Chants de la montagne, obras editadas na década de 1920 e inspiradas nessas cerimónias.

Isma-o! (O Eco) apresenta uma melodia isolada em oitavas que ressoa através do uso do pedal. O estatismo dramático prepara a apresentação de uma melodia cantabile nos graves à qual Elie sobrepõe acordes. Segue-se uma secção dominada pelas síncopas, sublinhando o caráter africano da obra. Um lamento inspirado nos cantos do voudou emerge, posteriormente acompanhado de acordes paralelos de sabor modal. A insistência da melodia sobre um fundo quase estático conduz a obra ao final.

Nostalgie é apresentada por uma melodia a solo, que contribui para criar uma atmosfera misteriosa. Essa quietude é interrompida por uma secção em arpejos rápidos que aproveita o timbre cristalino dos agudos do piano. Sob esse fundo, o compositor apresenta uma melodia. Após uma passagem vertical homorrítmica e solene, regressa a atmosfera inicial.

Edmond Saintonge
Élégie-Méringue

Duração: c. 7 min.

Edmond Saintonge (1861-1907) é um dos primeiros compositores haitianos reconhecidos no domínio da música erudita. Tendo passado a sua juventude em França, regressou ao Haiti, onde criou várias obras para piano inspiradas na música do seu país, em especial o méringue (dança paralela ao merengue do lado hispânico da ilha).

As Caraíbas são um espaço de encontro de culturas. As músicas africanas, europeias e americanas misturaram-se de forma muito particular. Assim, os primeiros géneros haitianos resultam da hibridização. Danças sociais europeias foram transformadas pelos músicos caribenhos, dando origem ao méringue, por exemplo. De cerimónias voudou ao salão dos descendentes de franceses nascidos no Haiti, o género encarnou de muitas formas distintas. Assim, Lamothe estilizou a dança, criando obras de caráter marcadamente nacional, numa época de afirmação do Haiti.

A Élégie-Méringue começa com uma melodia nos graves, recorrendo, contidamente, ao contraponto. Após essa introdução, tem início a secção baseada na regularidade métrica e na sincopação dançável do méringue. A primazia da melodia, por vezes entrecortada em esquemas de pergunta-resposta, destaca-se numa obra que representa a heterogeneidade cultural do Haiti.

Ludovic Lamothe
Feuillet d’album n.º 1
Loco
Danza n.º 4

Duração: c. 6 + 3 + 5 min.

O percurso de Ludovic Lamothe (1882-1953) reflete as tensões entre a Europa e as Américas do início do século XX. Por um lado, os compositores americanos procuravam uma voz particular a partir da música dos seus países. Por outro lado, muitos estudavam na Europa, integrando aspetos dessa formação nas suas obras. Dessa forma, misturaram-se elementos estilísticos associados ao virtuosismo centro-europeu com tradições musicais locais.

No contexto da passagem do século XIX para o século XX, a afirmação do estado-nação cultural é um elemento para compreender a arte das Américas. A colónia francesa de Saint-Domingue tornou-se no Haiti independente em 1804. Seguiram-se períodos de turbulência política, económica e artística. Contudo, o Haiti e a França mantiveram relações fortes, inclusivamente durante a ocupação do Haiti pelos Estados Unidos da América, iniciada em 1915.

Ludovic Lamothe foi um importante pianista e compositor haitiano que refletiu sobre a importância de transformar o património local e regional numa música de apelo generalizado. Estudou no Haiti e em França, tendo desempenhado um papel importante no estudo e preservação da música do seu país.

Feuillet d’album n.º 1 é uma obra dominada pelo melodismo cantabile, aproximando-se, por vezes, da textura do noturno. Lamothe foi um destacado intérprete de Chopin, o que pode ajudar a explicar o lirismo que perpassa na obra, sublinhado por um acompanhamento polarizador da narrativa. O caráter rapsódico de Feuillet d’album n.º 1 encontra-se fortemente ligado a modelos europeus, enquanto metaboliza melodias de sabor tradicional.

Loco pertence aos Icônes vaudouesques e a sua percussividade imita os padrões associados à invocação de uma família de espíritos nessa religião, os Petwo. A sobreposição de melodias e harmonias, por vezes paralelas, sobre ostinati, marcam a invocação das divindades, contrastando com uma secção intermédia dominada por um ambiente de quietude. O regresso da atmosfera inicial marca e reitera o caráter ritualístico da obra.

A leveza da Danza n.º 4 coloca-nos nos salões haitianos. A fluidez rítmica, a repetição, o acompanhamento repetido e a sincopação situam-na nos modelos tardo-românticos das danças americanas, fundindo elementos europeus, africanos e americanos.

Claude Debussy
Seis Prelúdios do Livro II
1. Brouillards
3. La puerta del Vino
5. Bruyères
6. Général Lavine – eccentric
8. Ondine
12. Feux d’artifice

Composição: 1910-1913
Duração: c. 20 min.

Claude Debussy (1862-1918) é uma grande referencia do Modernismo. A sua obra para piano encarna perspetivas visionárias do pensamento musical. O segundo caderno de prelúdios para piano foi escrito entre 1911 e 1913; as peças apresentam uma grande depuração estilística, sintetizando elementos essenciais da abordagem do compositor.

Em Brouillards, pontificam a fluidez rítmica e melódica, introduzida pelo ostinato original. A repetição de materiais ondulantes antecipa a apresentação de melodias que se sobrepõem ao acompanhamento regular. O compositor usa a ressonância como elemento tímbrico que apoia a angularidade de alguns motivos baseados em notas repetidas. Passagens verticais que encadeiam acordes preparam o regresso da célula inicial, que conduz a peça ao fim.

Uma textura de habanera permeia La puerta del Vino. O ritmo característico do acompanhamento no registo grave do piano apoia os elementos dissonantes que Debussy lhe sobrepõe. Uma passagem centrada em arpejos descendentes sublinha o caráter modal da peça, que submerge, progressivamente, até se transformar numa ressonância longínqua.

Bruyères começa com uma melodia pentatónica e sinuosa apresentada sem acompanhamento. Depois, é harmonizada de forma paralela, mecanismo estilístico frequentemente usado por Debussy. Uma secção vertical em que vários elementos pertencentes a planos sonoros distintos são sobrepostos prepara o regresso da melodia inicial.

A magia do cakewalk inspirou Général Lavine - eccentric. Uma dança sincopada de negros americanos fornece a Debussy o modelo para contruir a obra. A vivacidade rítmica e os esquemas de pergunta-resposta marcam uma peça satírica e lúdica, em que a textura de dança é interpolada de momentos livres de caráter contemplativo.

Ondine é o espírito feminino aquático descrito por Paracelso e reconfigurado no Romantismo. A fluidez métrica e o recurso ao pedal de sustentação representam o caráter líquido da entidade, encarnada no timbre cristalino do piano. O compositor explora a ressonância através da sobreposição de planos sonoros. Uma passagem movimentada baseada na repetição de notas dirige o prelúdio ao final.

Feux d’artifice baseia-se num ostinato sinuoso e cromático em torno de uma nota principal. A sobreposição de melodias e uma sucessão de acordes descendentes articulados em pares criam blocos sonoros que conduzem a uma secção centrada em glissandi e tremolos até à dissolução etérea.

— Intervalo de 20 min —

Fryderyk Chopin
Sonata para Piano n.º 3, em Si menor, op. 58
1. Allegro maestoso
2. Scherzo: Molto vivace
3. Largo
4. Finale: Presto non tanto

Composição: 1844
Duração: c. 26 min.

A Sonata n.º 3, em Si menor, op. 58 foi a última obra de grande fôlego escrita por Fryderyk Chopin (1810-1849). Composta no verão de 1844, quando o compositor se refugiava na residência campestre de George Sand em Nohant, aglutinou vários aspetos do pianismo romântico como a organicidade e a sobriedade formal.

O Allegro maestoso lança-se de forma cinética e afirmativa e antecipa um tema cantabile da primeira secção da forma sonata. Após uma transição, Chopin apresenta o segundo tema, que domina o andamento. O desenvolvimento conduz a uma reexposição parcial, focada nos materiais temáticos principais. O Scherzo é curto, rápido e tempestuoso, encontrando-se numa forma tripartida que contrasta a cinética das secções extremas com o estatismo vertical da secção central. Introduzido de forma marcada, o Largo transmite uma atmosfera contemplativa, inspirada pelos noturnos do compositor. A sofisticação harmónica da secção intermédia contrasta com o lirismo do andamento. O final interpola um refrão de caráter vocal com episódios contrastantes. Neste andamento destaca-se o virtuosismo, que sublinha, sem ofuscar, uma marcante expressividade individual.

Notas de João Silva


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