Broken Shadows

Slider de Eventos

Broken Shadows é um quarteto habitado por duas cumplicidades antigas – a dos saxofonistas Tim Berne e Chris Speed, e a da secção rítmica dos Bad Plus, composta por Reid Anderson e Dave King – e que homenageia, desde logo na sua designação, Ornette Coleman. Mas é mais do que isso: é um grupo que regressa às pistas deixadas pelos primeiros grandes mestres da improvisação livre, como Coleman, Charlie Haden, Julius Hemphill e Dewey Redman, colocando a melodia no centro da sua ação. Branford Marsalis referiu-se ao grupo, aliás, escrevendo que “numa era em que os temas são tratados como veículos para a improvisação, com esta banda o veículo é o tema”. Aqui, a liberdade é plantada numa admirável busca pela beleza.


Programa

Tim Berne Saxofone alto
Chris Speed Saxofone tenor
Reid Anderson Contrabaixo
Dave King Bateria

Quando John Zorn tocou a música de Ornette Coleman em “Spy Vs Spy”, foi Tim Berne quem ele convidou como segundo saxofonista alto, e por força de razão: no legado colemaniano já então (1989) Berne era uma figura em destaque. Pois ei-lo de novo a lidar com o repertório do mestre num projecto, Broken Shadows, que vai buscar o nome a um tema do próprio Ornette. As restantes composições tocadas pelo grupo são de figuras que acompanharam o trajecto do homenageado: Julius Hemphill, Dewey Redman e Charlie Haden. O facto de o autor de “Lonely Woman”, de Hemphill e de Redman terem nascido e crescido no Texas não é estranho à sonoridade buscada: um avant-jazz melódico com claras alusões à folk e aos blues profundos. E porque nos seus discos já os papéis dos instrumentos não correspondiam aos convencionais, Berne chamou para junto de si quem lhe garantisse semelhantes desfechos, um seu antigo parceiro nos Bloodcount, o tenor Chris Speed, e uma das mais entrosadas, e ao mesmo tempo soltas, duplas rítmicas da actualidade, a de Reid Anderson e Dave King nos The Bad Plus.

Este é um posicionamento musical que leva para diante noções já consagradas de complementaridade e interferência, opondo uma perspectiva de inovação a qualquer tentação museológica. Em conjunto com Berne, Speed não funciona da maneira como Redman interagia com Coleman. Nos Broken Shadows está a seu cargo a exploração dos detalhes, enquanto Tim Berne é um gestor de energia, se bem que esta mais medida do que em outras das suas formações e do que fez com Zorn na concretização da ideia de convergir os mundos de Ornette e do punk hardcore. Do mesmo modo, o que está em causa não é apenas prestar tributo a uma geração de mavericks, mas afirmar que esta maneira de criar música ainda faz sentido hoje. Se foi isso o que sempre, implicitamente, estes músicos fizeram, agora tudo se torna bastante explícito.

Rui Eduardo Paes

 


Parceiros

Rádio Oficial