Reabilitação da Quinta de Crasto vence Prémio Gulbenkian Património 2026

03 nov 2026
O prémio distingue este ano a qualidade do restauro da Quinta de Crasto (Vila do Conde), mas também a sua adaptação a um centro de investigação ligado à biodiversidade.

De fora, ninguém dá por nada. Em Vairão, Vila do Conde, da estrada que percorre uma paisagem historicamente moldada por um mosaico de campos abertos, áreas arborizadas e povoações rurais dispersas, o que se vê é uma casa senhorial, de meados do século XIX, circundada por um muro antigo.

Construída por Bento Amorim, filho do Barão de Rio Ave, e antigo autarca de Vila do Conde, a quinta contava, além dos campos, com a casa senhorial, uma eira, um espigueiro, sequeiros e outros edifícios dedicados à lavoura, todos virados para um pátio interior. Muito próspera na agricultura, em 1930, a quinta chega a ser visitada pelo governo em peso, segundo registo fotográfico. Quase três décadas depois, a propriedade seria vendida ao Estado, que nela instala a Direção-Geral da Agricultura entre Douro e Minho. Com o passar dos tempos, seria depois um centro de formação para agricultores (no pós-25 de Abril) e um Museu Agrícola (1989–2007). A seguir, cai num acentuado estado de degradação.

Hoje, para lá do muro, ninguém diria, mas vive todo um novo mundo. O espigueiro foi recuperado e apresenta-se junto à eira onde se estende uma esplanada com mesas e cadeiras coloridas. Os edifícios envolventes foram reabilitados e adaptados para acolher a Sede da Associação Biopolis (centro de investigação desenvolvido no âmbito do programa europeu “Teaming for Excellence”, dedicado à investigação sobre biodiversidade e à transferência de conhecimento). Onde em tempos havia cereais, alfaias agrícolas e gado, há escritórios, salas de reuniões, laboratórios de última geração, estufas… todo um mundo ligado à investigação e à biodiversidade.

Entre estas estruturas, destaca-se o Laboratório de ADN Antigo e Ambiental do BIOPOLIS. Desenvolvido em colaboração com a Universidade de Oxford, é a primeira infraestrutura do país dedicada ao ADN antigo e vai permitir recuperar e estudar ADN preservado há milhares de anos em vestígios arqueológicos e reforçar a capacidade de investigação do centro em três outras áreas-chave: ADN ambiental, museómica e ciência forense aplicada à vida selvagem. Inserido no projeto de reabilitação da Quinta de Crasto, este novo espaço é o expoente máximo da combinação entre preservação do património histórico e de infraestrutura científica de vanguarda.

Esta transformação foi feita em colaboração com o gabinete de arquitetura Nuno Valentim, que candidatou o projeto de reabilitação ao Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva. O júri, presidido por António Lamas, considerou que a proposta se destacava pela “excecional qualidade patrimonial dos restauros do edificado, tanto do palácio como dos equipamentos agrícolas”, bem como pela “profunda e dinâmica pluridisciplinaridade e o relacionamento ativante [da Associação Biopolis] com as expectativas do território envolvente.”

A intervenção, destaca ainda o júri, é o resultado de uma colaboração multidisciplinar entre arquitetos (coordenados por Nuno Valentim), paisagistas (sob coordenação de Paulo Farinha Marques), engenheiros, designers gráficos, conservadores, restauradores e cientistas (sob a coordenação científica de Nuno Ferrand de Almeida, diretor do Biopolis), refletindo um compromisso comum com o rigor e a responsabilidade cultural.

As Menções Honrosas

Além do projeto vencedor, o júri do Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva, composto por António Lamas (Presidente), Gonçalo Byrne, Raquel Henriques da Silva, Rui Vieira Nery e Santiago Macias, propôs ainda a atribuição de três menções honrosas:

Projeto de reabilitação da Casa Cedo, na Rua da Cedofeita, Porto

Foi distinguida a reabilitação e reutilização de um conjunto habitacional que correspondia a uma única fração, de uso habitacional, nos dois pisos superiores do edifício principal, e de uso de serviços, no piso térreo do edifício e no que foi construído no logradouro.

O cuidado posto tanto na intervenção como a preocupação em a documentar de forma pormenorizada foram considerados merecedores de Menção Honrosa por parte do júri.

Reabilitação da Casa d’Abreu Neto (Siza Vieira), em Matosinhos

Construída entre 1954 e 1956 em Matosinhos, a casa d’Abreu Neto faz parte do conjunto das conhecidas Quatro Casas de Matosinhos, primeira obra integral do arquiteto Álvaro Siza Vieira, quando este tinha apenas 21 anos, ainda estudante da Escola de Belas Artes do Porto.

Além da singularidade arquitetónica, o júri apreciou também o modelo de uso programado da casa habitada e preservada como residência ao longo de quatro gerações da mesma família, que agora decidiu abri-la ao público permanecendo, no entanto, viva, habitável e reconhecível através de atividades variadas.

Reabilitação do antigo Telheiro do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda – Sala Estúdio Valentim de Barros, em Lisboa

A Sala-Estúdio Valentim de Barros está instalada no que começou por ser um telheiro para passeio dos doentes do sexo masculino, com uma estrutura aberta, e foi mais tarde fechado para servir de espaço de apresentação de espetáculos pela própria comunidade terapêutica. A recuperação criou uma black box multiusos de grande funcionalidade, que permite o acolhimento de projetos muito diversificados, mas respeita e valoriza, ao mesmo tempo, os elementos arquitetónicos originais do edifício.

A Sala-Estúdio constitui um exemplo simultaneamente de salvaguarda do património cultural material e imaterial, de preservação da memória histórica, de incentivo à criação cultural e artística contemporânea e de intervenção cívica comunitária.

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