MACAM vence Prémio Vilalva 2025

Júri atribuiu ainda três menções honrosas ao Museu Mineiro do Lousal, à Casa do Passal – Museu Aristides de Sousa Mendes e à Igreja de Nossa Senhora da Lagoa.
16 set 2025

Comprou o primeiro original – um quadro sem-título de Rogério Ribeiro – em 1974. Vinte e cinco anos depois, Armando Martins, engenheiro de formação, empresário de profissão, já tinha uma coleção considerável e vontade de a mostrar ao público.

Depois de uma tentativa gorada de encontrar um espaço, em 2006-2007 comprou o Palácio dos Condes da Ribeira Grande, em Lisboa. Estava em muito mau estado, precisava de muitas obras, mas era o espaço ideal para cumprir os programas que tinha em mente: criar um museu onde pudesse expor a sua já vasta coleção, e um hotel que garantisse a sustentabilidade do projeto.

O palácio dos Condes da Ribeira Grande abriu portas em março de 2025, tal como o seu proprietário o havia sonhado: albergando um museu e um hotel, o MACAM. Nos 18 anos que separaram a compra do imóvel e a sua abertura ao público, Armando Martins conseguiu sobreviver à crise do subprime e aos desafios colocados pela pandemia da Covid-19, mas a reabilitação e ampliação do Palácio mereceu a atenção do júri do Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva, que o escolheu como merecedor da distinção, em 2025.

A decisão do júri foi unânime

O júri, presidido por António Lamas, referiu na ata que se trata de “uma das mais importantes edificações palacianas lisboetas de meados do século XVIII, época de grande dinamismo construtivo e de revalorização da Rua da Junqueira como eixo entre a cidade e o Palácio Real, instalado, depois do terramoto de 1755, na Real Barraca da Ajuda. Ao longo do século XX, o vasto edifício foi, na quase totalidade da sua área, ocupado por instituições escolares, a mais duradoura das quais, a Escola Secundária Rainha Dona Amélia.”

O palácio foi intervencionado pela Metro Urbe, dirigida pelos arquitetos João Pedras e Hélder da Silva Cordeiro, que criaram, ainda segundo o júri, um equilíbrio cativante entre a salvaguarda e restauro patrimoniais e as exigências estruturais, funcionais e estéticas dos novos equipamentos.

Armando Martins conta que “juntar os dois programas [o museológico e o hoteleiro] nasceu de uma necessidade material. Um Museu é uma atividade negativa [que dá prejuízo] e tínhamos de criar uma atividade lateral que fosse ‘mecenas’. Espero que este casamento seja perfeito” e, sobretudo, sobreviva ao seu fundador. A filha, Sophia, já trabalha com o pai e a neta, de 11 anos, já está discretamente em formação, diz.

Capela (antes) © EstudioPeso
Capela (depois) © Fernando Guerra I FG+SG

A preocupação de João Pedras foi outra. Arquiteto, quis erigir uma “obra que respeitasse e valorizasse o espaço e oferecesse uma experiência em que a arquitetura também seja uma arte”. O desafio era grande. Exigia uma “intervenção no edifício existente e o crescimento para alas novas – e um diálogo não antagónico com diferenciação entre o existente e o contemporâneo”. Implicava ainda a adequação aos constrangimentos legais e patrimoniais, bem como às regras atuais de construção, segurança e conforto capazes de albergar tanto um projeto museológico (e Armando Martins já terá 600 a 650 obras) como um projeto hoteleiro de cinco estrelas.

Isto sem referir todos os percalços e todas as surpresas que costumam surgir durante as obras. Neste caso, houve necessidade de reconverter ou destruir os pavilhões construídos para responder às necessidades da então comunidade escolar, mas também a descoberta de lareiras e fontes escondidas por trás de paredes ou de baixo do pátio. E houve ainda o desafio de nivelar, com o edificado, a fachada construída de propósito para dar uma dimensão apalaçada e uma unidade a um conjunto de edifícios pré-existentes.

Três menções honrosas

Nesta edição, o júri do Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva recebeu 23 candidaturas, tendo selecionado ainda três projetos a quem foram atribuídas menções honrosas: o Museu Mineiro do Lousal, a Casa do Passal – Museu Aristides de Sousa Mendes e a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, em Monsaraz.

O Museu Mineiro do Lousal, instalado no antigo edifício da Central Elétrica das minas de pirites do Lousal, que funcionaram entre 1900 e 1988, preserva a sua maquinaria original, restaurada com cuidado, e a extensa coleção de modelos de minas de fabrico alemão adquiridas para o Instituto Superior Técnico. Inaugurado em 2001, o Museu foi alvo, em 2024, de uma campanha de requalificação que se traduziu, entre outros aspetos, na modernização do suporte museográfico que enriquece e contextualiza a leitura do espólio e incluiu testemunhos vivos de mineiros e familiares que se estabeleceram à volta da mina ao longo das décadas.

A recuperação da Casa do Passal – Museu Aristides de Sousa Mendes tem dois aspetos complementares, em que o resgate da memória se revelou peça decisiva: por um lado, a recuperação do edifício, baseada num estudo escrupuloso das pré-existências; e, por outro, a recuperação da memória de Aristides de Sousa Mendes. A dispersão dos objetos pertencentes à família foi ultrapassada com o recurso a uma mostra documental que contextualiza o papel do diplomata e a sua ação humanitária.

A Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, classificada como Monumento Nacional em 1986, é um exemplo da arquitetura da contrarreforma de D. João III. Situada no Largo do Pelourinho, em Monsaraz, tem hoje um interior que transmite uma serena atmosfera de templo histórico que readquiriu continuidade como espaço vivo. Em paralelo com a reabilitação do edifício, houve lugar a um abrangente e criterioso restauro de talhas, retábulos e altares, e uma expressiva intervenção de luminotecnia, num trabalho exemplar de arquitetos, restauradores, arqueológos, luminotécnicos e construtores, mas também a interação junto das autoridades, entidades eclesiásticas e população local.

Sobre o Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva

Criado em 2007 em homenagem a Vasco Vilalva, o Prémio tem tido por objetivo assinalar intervenções exemplares em bens móveis e imóveis de valor cultural que estimulem a preservação e a recuperação do património.

O Prémio Gulbenkian Património – Maria Teresa e Vasco Vilalva tem o valor de 50 mil euros.

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