“Estar com o mundo e para o mundo”: as mentes das bolsas Novos Talentos
Nove horas e trinta minutos, aproximadamente. Este é o número de horas de luz expectável para esta altura do ano. É João Figueirinha, jovem bolseiro Novos Talentos Gulbenkian, quem o diz. Dentro das salas de reunião do Hotel Villa Galé, em Coimbra, a entrada de luz é escassa, mas os espaços de convívio transportam-nos para um ambiente que se opõe por completo a este cenário: não são os mesmos jardins da Fundação, mas encorajam a visita.
João, com 21 anos, não se dedica à área de astronomia, mas sim de química, mais propriamente, ciências farmacêuticas, mas a luz e a “dança das sombras” é algo que admira. Acabava de chegar do Algarve e, em contraste com muitos outros alunos, não se mostrava nervoso. Olhava em seu redor, abotoava o terno e terminou a conversa dizendo que depois nos explicaria melhor o seu projeto – foi algo que fez no último dia do retiro sintetizando a importância da “farmacovigilância” no mercado de opioides, algo que até a luz – segundo refere citando neurocientistas da Universidade Washington – pode influenciar no tratamento.
O retiro ocorreu, maioritariamente, no piso inferior, em seis salas distribuídas por especialidades – Humanidades, Ciências Sociais, Biologia, Física, Química e Matemática –, e um grande auditório. Todas dão acesso a um lugar-comum: um átrio interior, usado nas pausas das sessões. Nele, distribuíam-se pequenas mesas, sofás, quadros e fotografias com vestuário alusivo a géneros de dança.
É fim de tarde de mais uma sexta-feira. O relógio marca as 18horas. Centenas de pessoas movimentam-se de um lado para o outro. Mais um novo cumprimento, agora, entre a comissão científica e alguns tutores que já se encontram sentados no auditório do hotel. Aguarda-se por mais bolseiros. Os que chegam por último vão passando com as suas malas e sentam-se nos poucos assentos que vão ficando a descoberto. O barulho vai dando lugar ao silêncio. Foi assim que se iniciou a sessão de boas-vindas do primeiro retiro da edição de 2024/2025 das bolsas Novos Talentos da Gulbenkian.
Introduções feitas, enquanto seis alunos terminam a sua apresentação, outros tantos estão apenas a começar. “Vocês são os potenciais transformadores”, afirma Sara Bahia, professora da Universidade de Lisboa, que integra a Comissão Científica de Ciências Sociais, das bolsas Novos Talentos.
Para si, as bolsas materializam o que a investigação reconhece como talentos fundamentais. Anda na academia “há décadas” e, também por isso, “atreve-se” a dizer que os jovens ali presentes estão num mundo onde procuram reconciliar-se com o melhor dele e, por sua vez, transformá-lo. “Se pensarmos que somos um ser num universo infinito, tem de existir alguma parte que desconhecemos”, partilha na conversa que fechou o primeiro dia de retiro e que contou com Hélder Maiato, cientista portuense, e João Rocha, professor e investigador em Química na Universidade de Aveiro.
Hélder Maiato não quis deixar de mencionar que “se não fossem estes programas, não conheceríamos parte das pessoas que aqui estão”. As bolsas, na prática, servem para isso: “detetar e apoiar o talento de estudantes excecionais e estimular a iniciação à investigação nas áreas de ciência básica”.
“Onde começa tudo isto?”
Todos os dias usamos objetos sem darmos grande pensamento à sua existência: telemóveis, computadores, eletrodomésticos, fármacos. A fórmula parece fácil – adquirimos estes bens e damos-lhes uso. Queremos que funcionem com precisão. Sem falhas. Mais difícil seria dizermos de onde vêm os materiais usados na sua produção ou como são fabricados – a pergunta de partida para estes bolseiros: “onde começa tudo isto?”.
É já no segundo dia de retiro que se esperam respostas a esta questão e a muitas outras. “Se pensarmos bem, o processo de investigação é isso mesmo: fazer-nos questionar o que já temos em mãos”, diz gargalhando Bruno Loff, matemático e tutor de uma das bolseiras da área de matemática.
A manhã que antecedeu o início de uma conversa que durou cerca de uma hora ficou completa com dezenas de apresentações dos bolseiros. O dia de sábado dedicava-se a essa partilha: o ponto de partida, em que momento de pesquisa estavam e quais as perguntas que se seguiam.
A experiência que o tutor descreve nesta mentoria das bolsas “é o que a educação deveria ser”. “Há liberdade e tempo para pensar e é importante vermos as coisas de uma forma que vai além trabalho”. Loff faz notar que há uma característica ou “faceta” – como prefere nomear – muito especial do pensamento humano: “a capacidade de pensar com precisão” e, “sem que haja tempo é muito difícil que isso aconteça”, termina.
Segue-se Mariana Costa, bolseira que orienta. A aluna ganhou pela segunda vez uma bolsa Novos Talentos. O seu projeto parece ser mais simples do que o nome que lhe foi atribuído: criptografia.
Imagine-se um conjunto de pontos que estão ligados por vértices que, por sua vez, estão ligados por arestas. Estas pequenas leituras podem levar-nos àquilo que Mariana Costa define como grafo – quanto mais expandido for, mais caminhos aleatórios cada um dos vértices poderá ter. Este desenho pode parecer de difícil compreensão quando colocado na prática, mas, por outro lado, pode ser muito útil na programação e na criptografia, ajudando a reservar ou preservar os nossos dados.
“Qualquer pessoa está a usar criptografia. Basta mandarmos uma mensagem numa rede social para outra pessoa sem que toda a gente do mundo saiba o que enviamos”, refere, concluindo que o objetivo é estudar esse espaço em branco e de caminhos aleatórios que podem vazar ou recolher informação.
E como se pode chegar a esse passo aplicando-o a outras áreas? Passando do momento de “sonho” ao trabalho “concreto”.
Para Mariana, todos estes encontros permitem enriquecer de alguma forma todas as áreas representadas no retiro, interligando-as: “a matemática é uma área aplicável em todo o lado, por exemplo, houve professores da área de biologia que explicavam que as sinapses que o nosso cérebro tem, podem ser representadas através dos grafos”, afirma surpresa.
No campo da biologia é Tomás Brocô quem se mostra “curioso” pela forma como todas estas áreas no retiro se influenciam. “É curioso como a investigação começa num sentido e, depois, dá uma volta de 180 graus e acaba por influenciar uma área completamente diferente. A medicina e a biologia são também esses casos. Aliás, são inúmeros os exemplos na história que ilustram isso”, partilha.
O seu objeto de estudo não se pode esquematizar com grafos, mas mostra ser um contributo importante para o campo da medicina: perceber como o exercício físico pode influenciar na reprodução de oligodendrócitos, células que se formam no sistema nervoso central.
Já nas outras áreas, o debate teórico revela-se cada vez mais fluente. Margarida Martins, aluna de psicologia clínica, candidatou-se à bolsa, pois tinha vontade de colocar a teoria em prática – investigar.
O seu projeto foca-se na perceção da identidade de voz em pessoas cegas e, a partir dessa condição, avalia de que forma é que o reconhecimento do outro se dá quando há uma privação de um sentido.
Além de estudante universitária é voluntária no Crescer Bem no Hospital Dona Estefânia, onde colabora essencialmente com o luto antecipatório. E este é um dado importante porque foi um dos temas que teve em cima da mesa para a sua candidatura, “é um tema complexo, sobretudo em Portugal”, lamenta.
Não deixou de se focar nas emoções, mas, tal como refere, com um ângulo diferente. Foi ao abdicar deste segundo tema que viu uma outra janela aberta: hoje integra um projeto de investigação criado pela sua tutora, Ana Pinheiro.
“Podemos ser as pessoas mais científicas, mas há uma maior abertura a esta conversa [saúde mental], e isso é muito importante, porque acaba por estar associada a esta questão que é perceber mais da dimensão deste problema. É claro que depois há outras características da nossa atualidade que contribuem para aumentar este problema, nomeadamente, as redes sociais, mas mesmo assim, é muito positivo este não ser um assunto tão tabu”, realça Margarida.
No meio desta “revolução” a arte e a psicologia podem também interligar-se? Para Miguel Tintim, sim. “A tendência do ser humano para o desenho é facto a que assistimos — desenhar é linguagem e jogo com regras próprias que flui, atravessa idades e culturas”, afirma.
Dando mote à primeira representação do curso de arquitetura nas bolsas, Miguel defende que a passagem pelo retiro é fundamental, pois define-o como dotado de “um ambiente transformador e, tal como o desenho, a passagem por aquele lugar, pode ser uma ferramenta que ajuda outras pessoas não só no fomento da imaginação, como veículo para potenciar o outro”.
“A experiência metafísica”
Inovação foi a palavra de ordem ao longo do retiro e, no último dia, não foi exceção.
Depois de dois dias intensos, o objetivo passou a ser “acalmar”. O facilitador Vasco Gaspar preparou um conjunto de atividades para uma manhã tranquila e com este novo grande desafio: parar.
Enquanto estudantes de alto rendimento, estes jovens reconheceram a dificuldade em “fazê-lo”. Em fechar os olhos sem desconforto, a desligar o computador quando a hora de trabalho ou de estudo terminou. Parar para pensar em si mesmo.
Para Beatriz Teixeira, bolseira da área de física, foi um grande desafio, pois “não sabia onde estar, como me colocar, ou confiar simplesmente”. Seguiu-se a pergunta: porquê? “Sempre me considerei uma pessoa muito extrovertida, falo muito alto, rio-me muito e, tal como eu, há pessoas que se sentem desconfortáveis naquele silêncio e, isso, foi uma experiência que me deixou muito fora da minha zona de conforto, o ter de estar calada a ouvir os meus pensamentos – um caos”, reconhece.
As dinâmicas desenvolvidas por Vasco Gaspar permitiram, sobretudo, fortalecer a inclusão e trabalhar competências interpessoais e sociais. Dar a atenção-plena a si mesmo e à saúde-mental de cada um dos cem jovens era um desafio que já se mostrava complexo, mas que, por sua vez, pretendeu ir “além de uma bolsa e de um financiamento para um projeto”. E tal como encoraja a jovem bolseira, este era um pensamento bastante presente na sala, junto de todos os alunos que, poucas horas depois, regressavam às suas (outras) vidas.
Ana Patrícia Silva