Tchaikovsky: Sinfonia n.º 6
Orquestra Gulbenkian / Jukka-Pekka Saraste
A Patética de Tchaikovsky, uma das sinfonias mais célebres e intensamente emocionais de todo o repertório romântico, é um contraste total ao misticismo de Gubaidulina, embora a intensidade emocional de ambas as obras de certa maneira lhes conceda afinidades eletivas inicialmente insuspeitadas.
Os dias finais de Tchaikovsky continuam envoltos em mistério. Aliás, toda a sua vida continua envolta em mistérios, desde a estranha relação com a Senhora von Meck e o seu conturbado casamento, até à sua sexualidade e às relações com outros homens, nomeadamente as suas relações com membros eminentes da corte russa, passando obviamente pela música e o seu significado, e a sua morte atroz, e, na realidade, precoce, com apenas 53 anos e com tanto ainda para dar, a julgar pela qualidade crescente da sua música, nomeadamente a da 6.ª Sinfonia, a mais complexa e conseguida de todas quantas escreveu. E, se Tchaikovsky não era já, em 1893, quando falece, um modelo de modernidade (Debussy estreará o seu Fauno apenas um ano mais tarde), também não é, de todo, um reacionário. A 6.ª Sinfonia abunda em achados orquestrais felizes, nomeadamente o andamento final, com a sua partilha do material melódico entre os naipes das cordas, antecipando algumas técnicas do período neoclássico de Stravinsky que, precisamente, tendo sido aluno do grande Rimsky-Korsakov, ainda assim considerava Tchaikovsky “O mais russo dos compositores russos”, tendo escrito todo um bailado sobre peças do compositor (O Beijo da Fada, 1928).
A Patética foi estreada apenas nove dias antes da morte de Tchaikovsky, por cólera, supõe-se (como, aliás, a sua mãe já morrera), não se sabendo até hoje se por causas acidentais ou deliberadas (ingestão de água contaminada) ou mesmo se terá sido a cólera a levar o compositor ou a toma de veneno com efeitos semelhantes aos da doença. Seja como for, o desespero da Patética contribuiu para a tese de suicídio, que se teria devido a amores proibidos e impossíveis na corte, enquanto suporta também a ideia de um assassinato devido a esses mesmos amores interditos e, muito provavelmente, altamente comprometedores de posições oficiais de alto gabarito (a homossexualidade, embora corrente nos meios artísticos russos e não só, era tabu, e fortemente reprimida de um ponto de vista público). Cerca de 60.000 pessoas terão pedido senhas para entrarem na Catedral de Kazan para assistirem ao velório, catedral que só suportava 6.000 cabeças, e 8.000 curiosos e admiradores terão, ainda assim, sido “espremidos” para dentro do recinto, tal era, por um lado a celebridade do compositor, mas também as circunstâncias da sua morte, que decerto atraiu personalidades de toda a ordem.
Seja como for, não há dúvidas de que a intensidade emocional da Patética é extrema, mesmo para o compositor que já escrevera peças tão emotivas como a abertura-fantasia Romeu e Julieta, entre várias outras, e esse aspecto trágico e, aparentemente autobiográfico, não escapou a muitos ouvintes ainda antes da morte do compositor, como atesta a reação do Grão-Duque Konstantin da Rússia que, após o ensaio geral da sinfonia, dirigida pelo próprio compositor, correu porta fora chorando e gritando: “Mas o que é que fez?? É um Requiem, um REQUIEM!!”. Na estreia, embora de forma inversa à do Grão-Duque, a reação foi igualmente inesperada. Ao invés das inevitáveis palmas, depois de Tchaikovsky baixar os braços e dos últimos sons da sinfonia se desvanecerem na sala, apenas silêncio e alguns soluços. O compositor permaneceu de cabeça baixa e o público sem reação durante largos minutos após esse final, provavelmente o mais desolado de todo o repertório sinfónico. Obra que, pelas circunstâncias, acabou mesmo por ser o seu adeus à vida, o seu próprio Requiem, como Konstantin, Grão-Duque, mas também poeta e admirador de Tchaikovsky, já pressentira.
Intérpretes
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Orquestra Gulbenkian
Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de sessenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas, que pode ser expandido de acordo com as exigências de cada programa. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório, do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas podem também ser interpretadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório, em Lisboa, em cujo âmbito colabora com os maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos nacionais, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas. No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian desde 2023.
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Jukka-Pekka Saraste
Maestro
Jukka-Pekka Saraste nasceu em Heinola, na Finlândia. Iniciou a sua carreira artística como violinista, tendo-se formado posteriormente em direção de orquestra com Jorma Panula na Academia Sibelius, em Helsínquia. Maestro de excecional versatilidade, sente no entanto uma especial afinidade para com as sonoridades e o estilo da música romântica tardia, mantendo uma ligação particularmente forte com as obras de Beethoven, Bruckner, Chostakovitch, Stravinsky, Mahler e Sibelius. Em setembro de 2023, iniciou o seu mandato como Maestro Titular e Diretor Artístico da Filarmónica de Helsínquia. De 2010 a 2019, foi Maestro Principal da Sinfónica WDR, em Colónia. É Maestro Laureado da Filarmónica de Oslo, onde foi Diretor Artístico e Maestro Principal. Anteriormente desempenhou funções idênticas na Orquestra de Câmara Escocesa, na Sinfónica da Rádio Finlandesa e na Sinfónica de Toronto. Foi Maestro Convidado Principal da Sinfónica da BBC e consultor artístico da Sinfónica de Lahti.
Nos últimos anos, desenvolveu um forte perfil operático, com produções de sucesso de Oedipus Rex de Stravinsky, O Castelo do Barba Azul de Bartók, A Cidade Morta de Korngold e Rei Lear de Reimann, entre outras. No início de 2025, dirigiu uma nova produção de Salomé, de R. Strauss, no Grand Théâtre de Genève.
Uma extensa discografia reflete a amplitude artística de Saraste: inclui as Sinfonias de Sibelius e Nielsen, com a Sinfónica da Rádio Finlandesa; obras de Bartók, Dutilleux, Mussorgsky e Prokofiev, com a Sinfónica de Toronto; e gravações com a Orquestra Sinfónica WDR, incluindo as Sinfonias de Brahms, as Sinfonias n.º 5 e n.º 9 de Mahler e a Sinfonia n.º 8 de Bruckner.
Jukka-Pekka Saraste é membro fundador da Fundação LEAD!, criada em 2017 para apoiar as carreiras de jovens maestros, compositores e aspirantes a chefes de orquestra. Em 2020, fundou o Fiskars Summer Festival, uma plataforma internacional onde artistas finlandeses e internacionais partilham os seus conhecimentos com a próxima geração.
Em reconhecimento das suas significativas contribuições para a música, Jukka-Pekka Saraste recebeu a Medalha Pro Finlandia, a Medalha Sibelius, o Prémio do Estado Finlandês para a Música e a insígnia de Comendador da Ordem do Leão da Finlândia. Recebeu doutoramentos honorários pela Universidade de York, em Toronto, e pela Academia Sibelius, em Helsínquia.