Tchaikovsky: Sinfonia n.º 6

Orquestra Gulbenkian / Jukka-Pekka Saraste

Loading
Sérgio Azevedo 03 nov 2026 50 min
Sob a direção do maestro Jukka-Pekka Saraste, a Orquestra Gulbenkian interpreta a derradeira Sinfonia de Piotr Ilitch Tchaikovsky.

A Patética de Tchaikovsky, uma das sinfonias mais célebres e intensamente emocionais de todo o repertório romântico, é um contraste total ao misticismo de Gubaidulina, embora a intensidade emocional de ambas as obras de certa maneira lhes conceda afinidades eletivas inicialmente insuspeitadas.

Os dias finais de Tchaikovsky continuam envoltos em mistério. Aliás, toda a sua vida continua envolta em mistérios, desde a estranha relação com a Senhora von Meck e o seu conturbado casamento, até à sua sexualidade e às relações com outros homens, nomeadamente as suas relações com membros eminentes da corte russa, passando obviamente pela música e o seu significado, e a sua morte atroz, e, na realidade, precoce, com apenas 53 anos e com tanto ainda para dar, a julgar pela qualidade crescente da sua música, nomeadamente a da 6.ª Sinfonia, a mais complexa e conseguida de todas quantas escreveu. E, se Tchaikovsky não era já, em 1893, quando falece, um modelo de modernidade (Debussy estreará o seu Fauno apenas um ano mais tarde), também não é, de todo, um reacionário. A 6.ª Sinfonia abunda em achados orquestrais felizes, nomeadamente o andamento final, com a sua partilha do material melódico entre os naipes das cordas, antecipando algumas técnicas do período neoclássico de Stravinsky que, precisamente, tendo sido aluno do grande Rimsky-Korsakov, ainda assim considerava Tchaikovsky “O mais russo dos compositores russos”, tendo escrito todo um bailado sobre peças do compositor (O Beijo da Fada, 1928).

A Patética foi estreada apenas nove dias antes da morte de Tchaikovsky, por cólera, supõe-se (como, aliás, a sua mãe já morrera), não se sabendo até hoje se por causas acidentais ou deliberadas (ingestão de água contaminada) ou mesmo se terá sido a cólera a levar o compositor ou a toma de veneno com efeitos semelhantes aos da doença. Seja como for, o desespero da Patética contribuiu para a tese de suicídio, que se teria devido a amores proibidos e impossíveis na corte, enquanto suporta também a ideia de um assassinato devido a esses mesmos amores interditos e, muito provavelmente, altamente comprometedores de posições oficiais de alto gabarito (a homossexualidade, embora corrente nos meios artísticos russos e não só, era tabu, e fortemente reprimida de um ponto de vista público). Cerca de 60.000 pessoas terão pedido senhas para entrarem na Catedral de Kazan para assistirem ao velório, catedral que só suportava 6.000 cabeças, e 8.000 curiosos e admiradores terão, ainda assim, sido “espremidos” para dentro do recinto, tal era, por um lado a celebridade do compositor, mas também as circunstâncias da sua morte, que decerto atraiu personalidades de toda a ordem.

Seja como for, não há dúvidas de que a intensidade emocional da Patética é extrema, mesmo para o compositor que já escrevera peças tão emotivas como a abertura-fantasia Romeu e Julieta, entre várias outras, e esse aspecto trágico e, aparentemente autobiográfico, não escapou a muitos ouvintes ainda antes da morte do compositor, como atesta a reação do Grão-Duque Konstantin da Rússia que, após o ensaio geral da sinfonia, dirigida pelo próprio compositor, correu porta fora chorando e gritando: “Mas o que é que fez?? É um Requiem, um REQUIEM!!”. Na estreia, embora de forma inversa à do Grão-Duque, a reação foi igualmente inesperada. Ao invés das inevitáveis palmas, depois de Tchaikovsky baixar os braços e dos últimos sons da sinfonia se desvanecerem na sala, apenas silêncio e alguns soluços. O compositor permaneceu de cabeça baixa e o público sem reação durante largos minutos após esse final, provavelmente o mais desolado de todo o repertório sinfónico. Obra que, pelas circunstâncias, acabou mesmo por ser o seu adeus à vida, o seu próprio Requiem, como Konstantin, Grão-Duque, mas também poeta e admirador de Tchaikovsky, já pressentira.


Intérpretes

  • Maestro

Programa

Piotr Ilitch Tchaikovsky

Sinfonia n.º 6, em Si menor, op. 74, Patética

Relacionados

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.