Rodrigo: Concerto de Aranjuez

Orquestra Gulbenkian / Pablo Sainz-Villegas / Giancarlo Guerrero

O guitarrista Pablo Sainz-Villegas e a Orquestra Gulbenkian interpretam a obra-prima de Joaquín Rodrigo, sob a direção do maestro Giancarlo Guerrero.
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Sérgio Azevedo 27 mar 2026 26 min

O Concierto de Aranjuez merece, na nossa opinião, a constante atenção que guitarristas e público a ele têm dedicado desde o dia da estreia, a 9 de novembro de 1940 no Palau de la Música Catalana, em Barcelona, pelas mãos de Regino Sainz de la Maza com a Orquestra Filarmónica de Barcelona dirigida por César Mendoza Lasalle. Cego desde os três anos, Rodrigo escrevia numa máquina de Braille adaptada (sendo os seus esboços mais tarde transcritos para pauta tradicional pela sua mulher) e nunca viu sequer uma guitarra perante os seus olhos, pelo que a escrita para um instrumento já de si difícil para quem nunca o tenha tocado se lhe poderia ter afigurado impossível. No entanto, Rodrigo conseguiu ultrapassar todas as eventuais dificuldades e iniciou, com esta obra, uma série brilhante de peças para guitarra e orquestra, nomeadamente três concertos, ou obras concertantes, para uma guitarra, um quarto concerto para duas guitarras (Concierto Madrigal), e ainda um quinto concerto para quatro guitarras e orquestra (Concierto Andaluz), para além de inúmeras peças a solo, que fazem de Joaquín Rodrigo um dos principais compositores de sempre para esse instrumento.

O sucesso da obra tem sido também, de certa forma, a sua cruz. Como o Bolero de Ravel, ou L’Apprenti Sorcier de Dukas, o sucesso do segundo andamento do Concierto de Aranjuez, um evocativo adagio conduzido pela melancolia do corne-inglês, transformou Rodrigo num “compositor de obra única”, vendo relegada, na ideia do público, toda a sua restante produção para um plano quase irrelevante em termos de popularidade. E, se bem que o Concierto de Aranjuez seja um milagre de equilíbrio, elegância, ideias melódicas e leveza orquestral, uma espécie de Sinfonia Clássica da guitarra, ainda assim não é tão superior a várias das outras obras concertantes de Rodrigo que justifique o quase olvido destas face ao Aranjuez.

Embora Rodrigo se tenha várias vezes referido às suas fontes de inspiração, sendo os jardins do Palácio Real de Aranjuez (século XVI) as mais notórias e evidentes (o concerto capturaria “a fragância das magnólias, o canto dos pássaros e os repuxos das fontes”), durante anos recusou-se a falar do andamento central, logo aquele que mais suscitava, como vimos, a curiosidade da imprensa e das multidões. A melancolia da música, aumentada pela sonoridade do corne-inglês, tradicionalmente associada à morte (Wagner, Sibelius), terá levado vários críticos a associarem o adagio ao bombardeamento de Guernica. Porém, e para além de Rodrigo nunca ter escrito, ou dito, nada referente a acontecimentos do seu país, políticos, sociais, ou outros fora do âmbito exclusivo da música, a sua esposa, a pianista Victoria Kamhi (1933-1997), revelará anos mais tarde, na sua autobiografia comum, De la mano de Joaquín Rodrigo – História de nuestra vida, que a verdadeira inspiração por detrás do concerto teria sido dúplice: por um lado, a felicidade da lua de mel do casal, que teria inspirado os andamentos rápidos, e por outro, no adagio, a imensa tristeza que Rodrigo, curiosamente ainda mais do que a própria mulher, terá sentido quando esta sofreu um aborto espontâneo quando da primeira gravidez.

De um ponto de vista puramente técnico, o Concierto de Aranjuez consegue uma fusão felicíssima entre neoclassicismo e folclorismo, entre tradição e modernidade, entre drama e humor, entre peso e leveza. É, sem dúvida, o mais significativo concerto da história da guitarra e, embora se discuta se foi mesmo o primeiro concerto moderno para o instrumento ou se foi antes o 1.º Concerto de Mario Castelnuovo-Tedesco a merecer essa honra (Tedesco estreou o seu primeiro, mas o período de composição de ambos é praticamente o mesmo), o que é certo é que o Concierto de Aranjuez arrasará toda e qualquer obra concertante para guitarra do seu tempo, mantendo essa supremacia ainda nos dias de hoje e sendo constantemente abusado em reclames, arranjos “kitsch”, cançonetas, transcrições para um só dedo, caixinhas de música, fundos de elevador, esperas telefónicas e por aí adiante, sina dos tempos que vivemos e da banalização dos objetos artísticos mais sublimes.


Intérpretes

  • Maestro
  • Guitarra

Programa

Joaquín Rodrigo

Concierto de Aranjuez
1. Allegro con spirito
2. Adagio
3. Allegro gentile

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