Rodrigo: Concerto de Aranjuez
Orquestra Gulbenkian / Pablo Sainz-Villegas / Giancarlo Guerrero
O Concierto de Aranjuez merece, na nossa opinião, a constante atenção que guitarristas e público a ele têm dedicado desde o dia da estreia, a 9 de novembro de 1940 no Palau de la Música Catalana, em Barcelona, pelas mãos de Regino Sainz de la Maza com a Orquestra Filarmónica de Barcelona dirigida por César Mendoza Lasalle. Cego desde os três anos, Rodrigo escrevia numa máquina de Braille adaptada (sendo os seus esboços mais tarde transcritos para pauta tradicional pela sua mulher) e nunca viu sequer uma guitarra perante os seus olhos, pelo que a escrita para um instrumento já de si difícil para quem nunca o tenha tocado se lhe poderia ter afigurado impossível. No entanto, Rodrigo conseguiu ultrapassar todas as eventuais dificuldades e iniciou, com esta obra, uma série brilhante de peças para guitarra e orquestra, nomeadamente três concertos, ou obras concertantes, para uma guitarra, um quarto concerto para duas guitarras (Concierto Madrigal), e ainda um quinto concerto para quatro guitarras e orquestra (Concierto Andaluz), para além de inúmeras peças a solo, que fazem de Joaquín Rodrigo um dos principais compositores de sempre para esse instrumento.
O sucesso da obra tem sido também, de certa forma, a sua cruz. Como o Bolero de Ravel, ou L’Apprenti Sorcier de Dukas, o sucesso do segundo andamento do Concierto de Aranjuez, um evocativo adagio conduzido pela melancolia do corne-inglês, transformou Rodrigo num “compositor de obra única”, vendo relegada, na ideia do público, toda a sua restante produção para um plano quase irrelevante em termos de popularidade. E, se bem que o Concierto de Aranjuez seja um milagre de equilíbrio, elegância, ideias melódicas e leveza orquestral, uma espécie de Sinfonia Clássica da guitarra, ainda assim não é tão superior a várias das outras obras concertantes de Rodrigo que justifique o quase olvido destas face ao Aranjuez.
Embora Rodrigo se tenha várias vezes referido às suas fontes de inspiração, sendo os jardins do Palácio Real de Aranjuez (século XVI) as mais notórias e evidentes (o concerto capturaria “a fragância das magnólias, o canto dos pássaros e os repuxos das fontes”), durante anos recusou-se a falar do andamento central, logo aquele que mais suscitava, como vimos, a curiosidade da imprensa e das multidões. A melancolia da música, aumentada pela sonoridade do corne-inglês, tradicionalmente associada à morte (Wagner, Sibelius), terá levado vários críticos a associarem o adagio ao bombardeamento de Guernica. Porém, e para além de Rodrigo nunca ter escrito, ou dito, nada referente a acontecimentos do seu país, políticos, sociais, ou outros fora do âmbito exclusivo da música, a sua esposa, a pianista Victoria Kamhi (1933-1997), revelará anos mais tarde, na sua autobiografia comum, De la mano de Joaquín Rodrigo – História de nuestra vida, que a verdadeira inspiração por detrás do concerto teria sido dúplice: por um lado, a felicidade da lua de mel do casal, que teria inspirado os andamentos rápidos, e por outro, no adagio, a imensa tristeza que Rodrigo, curiosamente ainda mais do que a própria mulher, terá sentido quando esta sofreu um aborto espontâneo quando da primeira gravidez.
De um ponto de vista puramente técnico, o Concierto de Aranjuez consegue uma fusão felicíssima entre neoclassicismo e folclorismo, entre tradição e modernidade, entre drama e humor, entre peso e leveza. É, sem dúvida, o mais significativo concerto da história da guitarra e, embora se discuta se foi mesmo o primeiro concerto moderno para o instrumento ou se foi antes o 1.º Concerto de Mario Castelnuovo-Tedesco a merecer essa honra (Tedesco estreou o seu primeiro, mas o período de composição de ambos é praticamente o mesmo), o que é certo é que o Concierto de Aranjuez arrasará toda e qualquer obra concertante para guitarra do seu tempo, mantendo essa supremacia ainda nos dias de hoje e sendo constantemente abusado em reclames, arranjos “kitsch”, cançonetas, transcrições para um só dedo, caixinhas de música, fundos de elevador, esperas telefónicas e por aí adiante, sina dos tempos que vivemos e da banalização dos objetos artísticos mais sublimes.
Intérpretes
- Maestro
- Guitarra
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Orquestra Gulbenkian
Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de sessenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas, que pode ser expandido de acordo com as exigências de cada programa. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório, do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas podem também ser interpretadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório, em Lisboa, em cujo âmbito colabora com os maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos nacionais, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas. No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian, sucedendo a Lorenzo Viotti.
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Giancarlo Guerrero
Maestro
Vencedor de seis prémios Grammy, Giancarlo Guerrero destaca-se pela criatividade na escolha do repertório e na interpretação. O seu entusiasmo é contagiante, levando os críticos a elogiar a precisão, o talento e o estilo vigoroso, apaixonado e subtil.
Em 2025 iniciou a sua primeira temporada como Diretor Artístico e Maestro Principal do Grant Park Music Festival, em Chicago. Na presente temporada, assumiu também o cargo de Maestro Titular da Orquestra de Sarasota, na Flórida, tornando-se o sétimo maestro a ocupar este lugar desde a fundação da orquestra em 1949. É também Maestro Laureado da Sinfónica de Nashville, depois de dezasseis anos como Maestro Titular, durante os quais impulsionou a programação de obras de destacados compositores norte-americanos através de encomendas e gravações de novas obras. Com Aaron Jay Kernis, também impulsionou a criação do Biannual Composer Lab & Workshop.
Como maestro convidado, os seus compromissos em 2025/26 incluem, além da Orquestra Gulbenkian, as Sinfónicas de Cincinnati e de Atlanta, a Eugene Symphony, a Grand Rapids Symphony, a Deutsches Symphonie Orchester Berlin e a Orquestra Nacional da Roménia, destacando-se a direção de uma versão de concerto da ópera Lady Macbeth de Mtsensk de Chostakovitch.
Em temporadas recentes, dirigiu várias orquestras norte-americanas, incluindo a Filarmónica de Nova Iorque, a Sinfónica de São Francisco, a Sinfónica de Boston, a National Symphony Orchestra e as orquestras de Baltimore, Chicago, Cleveland, Dallas, Detroit, Indianapolis, Los Angeles, Milwaukee, Montreal, Filadelfia, Seattle, Toronto, Vancouver e Houston. Na Europa, dirigiu a Sinfónica de Bilbau, a Deutsche Radio Philharmonie Saarbrücken, a Hr-Sinfonieorchester Frankfurt, a Filarmónica de Londres, a Orquestra Nacional de França, a Filarmónica da Radio France, a Filarmónica Neerlandesa, a NDR Radiophilharmonie, a Sinfónica da Galiza e a Orquestra da Ópera e Museu de Frankfurt, entre outras, bem como a Sinfónica do Estado de São Paulo, no Brasil, a Sinfónica da Nova Zelândia, a Sinfónica de Sydney e a Sinfónica de Queensland, na Austrália.
Giancarlo Guerrero foi Diretor Musical da NFM Filarmónica de Wrocław (Polónia), Maestro Convidado Principal da Orquestra de Cleveland e da Orquestra Gulbenkian, Diretor Musical da Eugene Symphony e Maestro Associado da Orquestra do Minnnesota. Tem-se dedicado também às orquestras de jovens, colaborando com o Curtis Institute of Music (Filadélfia), a Colburn School (Los Angeles), a Juilliard School e a National Youth Orchestra (Nova Iorque) e a Yale Philharmonia. Está também envolvido no programa Accelerando, da Sinfónica de Nashville, que proporciona uma intensa formação musical a jovens talentos.
Giancarlo Guerrero nasceu na Nicarágua, mas emigrou para a Costa Rica na infância. Estudou percussão e direção de orquestra na Baylor University, no Texas, EUA, tendo obtido o grau de Mestre em Direção de Orquestra pela Northwestern University.
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Pablo Sainz-Villegas
Guitarra
Natural de La Rioja, em Espanha, Pablo Sainz-Villegas vive atualmente nos Estados Unidos da América. Tem sido apelidado pela imprensa internacional como o sucessor de Andrés Segovia e “embaixador global da guitarra espanhola” (Billboard Magazine). Foi o primeiro guitarrista solista a tocar no Carnegie Hall de Nova Iorque desde Andrés Segovia e também o primeiro guitarrista a tocar no Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Berlim, sob a direção de Kirill Petrenko.
Desde a sua estreia com a Filarmónica de Nova Iorque e o maestro Rafael Frühbeck de Burgos, no Avery Fisher Hall do Lincoln Center, tocou em mais de 40 países e com orquestras como a Filarmónica de Israel, a Orquestra de Filadélfia, a Sinfónica de Chicago, a Orquestra do Tonhalle de Zurique, a Filarmónica de Munique e a Orquestra Nacional de Espanha. Apresentou-se no Musikverein de Viena, no Concertgebouw de Amesterdão, no Centro Nacional das Artes de Pequim, no Suntory Hall de Tóquio e no Teatro Colón de Buenos Aires, entre outros palcos.
Entre os marcos mais notáveis, destacam-se o Concerto dos Prémios Princesa das Astúrias e a sua participação na Gala da Metropolitan Opera no Palácio de Versalhes. De notar ainda as suas atuações no estádio Santiago Bernabéu de Madrid, para mais de 85.000 espectadores, bem como concertos realizados no Grant Park de Chicago, na Praça do Comércio de Lisboa e no Hollywood Bowl, com a Filarmónica de Los Angeles.
Artista socialmente comprometido através da sua associação sem fins lucrativos Strings in Common, tocou para milhares crianças em todo o mundo. Além disso, é o fundador e Diretor Artístico do Festival de La Rioja e membro da Academia de Artes Cénicas de Espanha.
Como artista exclusivo da Sony Classical, gravou álbuns a solo, bem como em duo com o tenor Plácido Domingo ou o violoncelista Yo-Yo Ma. O compositor John Williams dedicou-lhe duas obras para guitarra, Rounds e Prayer for Peace.
Entre os compromissos para a temporada 2025/26, destacam-se: o seu regresso à Sinfónica de Chicago, com o maestro Riccardo Muti; a continuação da digressão de estreia de Místico y Profano, do compositor mexicano Arturo Márquez, com as Sinfónicas de Ottawa, Annapolis e Pacific; a estreia mundial de uma obra para quarteto de cordas e guitarra, de Andrea Casarrubios, com o Quarteto Agarita; o novo projeto de música de câmara, Spanish Night, que estreará numa digressão pelos EUA; e apresentações com a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra do Quebeque e a Filarmónica de Argóvia Philharmonic, entre outras orquestras.