Brahms: Sinfonia n.º 1
Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti
Inscrevendo-se numa linha de criação instrumental austro-germânica cujas origens remontam à escola de Viena, a primeira sinfonia de Johannes Brahms foi concluída no outono de 1876, no termo de um prolongado processo criativo de mais de vinte anos e que foi sofrendo várias interrupções, à medida que o músico expandia a sua atividade como diretor de orquestra e pianista. Na verdade, os primeiros esboços começaram pouco depois de Brahms ter conhecido Robert Schumann e a sua esposa, a pianista Clara Schumann, em Düsseldorf, numa época em que as sinfonias de Beethoven permaneciam como referencial absoluto do espaço musical público. O próprio Schumann reavivara esta ideia no periódico Neue Zeitschcrift für Musik, em certa passagem publicada em 1840: “…os compositores foram muitas vezes admoestados de que seria melhor para eles – depois de Beethoven – se se abstivessem do género sinfónico”. A influência de Schumann no jovem Brahms terá tido um papel de fundo no culto da tradição sinfónica beethoveniana e na posterior conduta reflexiva e autocrítica, que conduziria à conclusão tardia da primeira sinfonia, em 1876, quando Brahms contava quarenta e três anos de idade. Neste patamar de maturidade criativa, a Sinfonia n.º 1 expressa, de modo vincado, o compromisso entre a herança classicista e as novas tendências do Romantismo, rumo a um patamar abstrato, quase metafísico, no qual se fundem as emoções e os estados de espírito mais profundos e inusitados. A estreia sobreveio a 4 de novembro de 1876, no Großherzogliche Hoftheater de Karlsruhe, sob a direção do maestro Felix Otto Dessoff.
Contrariando o perfil estilístico da sinfonia clássica, o primeiro andamento, Un poco sostenuto – Allegro, principia com um rasgo do tutti orquestral, massivo e imponente, apoiado pela marcha inexorável dos timbales. A prolongada introdução prossegue em patamares harmónicos sucessivos, alternando a forte intensidade expressiva com momentos mais reflexivos e serenos. A seção Allegro recupera o motivo inicial da introdução, agora com articulação mais breve e partilha sucessiva pelos vários naipes orquestrais. Nesta forma de sonata de primeiro andamento sucede-se o idílico segundo tema, introduzido pelos oboés e comentado pelas trompas. A curto espaço, surge o terceiro componente temático, trazendo consigo a inquietude inicial, mercê das anguladas figurações motívicas que perpassam pela orquestra. O desenvolvimento baseia-se, em grande medida, em motivos anteriores, ainda que Brahms leve mais longe a harmonização desses motivos, por vezes infletindo em modulações sucessivas que seriam impensáveis na linha de composição clássica. A recapitulação evolui de forma linear, sendo de assinalar a coda final, Meno allegro, a qual destitui o andamento do seu pendor enérgico e fatalista, para anunciar, em breves e derradeiros compassos, o contrastante quadro sonoro do andamento que se segue.
É, com efeito, um cenário do mais sonhador e comovente Romantismo aquele que nos traz o segundo andamento, Andante sostenuto, na tonalidade relativa de Mi maior, assente numa instrumentação delicada, partilhada entre as cordas e os sopros. Linhas melódicas suaves, emolduradas por harmonias calorosas, conduzem o ouvinte aos recantos secretos desse jardim sonoro imaginado por Brahms, onde o sentimento e a emoção se conjugam com a confidência e algum mistério.
Com a indicação Um poco allegretto e grazioso, o terceiro andamento, na tonalidade sobredominante de Lá bemol maior, ocupa o lugar do Scherzo, mas o seu caráter diverge substancialmente do cânone beethoveniano, no sentido em que abandona totalmente a vocação experimental e dramática, para se afirmar como breve espaço de poesia sonora, com ecos do imaginário pastoral, no prolongamento do andamento anterior.
De regresso à tonalidade de partida, o quarto e último andamento, Adagio – Più andante –Allegro non troppo, ma con brio, é aquele que apresenta maiores proporções, a partir da grave secção inicial, a qual parece evocar, novamente, a dimensão onírica. Após um breve episódio das cordas, em pizzicato, a textura adquire maior dinamismo e faz surgir, nos sopros de madeira, um novo motivo, em ritmos ponteados. Com a secção Più andante, a tonalidade inflete na homónima maior para servir de fundo ao tema trazido pelas trompas e depois retomado pelas flautas, sobre o acompanhamento, em tremolo, das cordas. Os metais entoam então um “coral” que mais não é do que o prelúdio solene para a secção Allegro. Surge aí o famoso tema principal do andamento, a partir do registo grave dos violinos, tantas vezes conotado com a Ode à Alegria do último andamento da Sinfonia n.º 9, op. 125, de Beethoven. Foi este componente melódico muitas vezes invocado, por músicos e diretores de orquestra, como argumento de apoio à ideia de que a Sinfonia n.º 1 de Brahms poderia considerar-se como a 10.ª de Beethoven, ideia essa que atravessou gerações até à atualidade. O segundo tema do andamento, na tonalidade dominante de Sol maior, aparece nos violinos e vai-se prolongando, em volutas de colcheias, até ao momento em que Brahms decide conjugar outros componentes temáticos já surgidos anteriormente, com destaque para o tema principal. A coda final faz regressar o coral do anterior Più andante, partilhado por cordas e metais, antes da declamação triunfal do tutti orquestral, nos derradeiros compassos do andamento.
Intérpretes
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Orquestra Gulbenkian
Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de sessenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas, que pode ser expandido de acordo com as exigências de cada programa. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório, do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas podem também ser interpretadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório, em Lisboa, em cujo âmbito colabora com os maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos nacionais, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas. No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian, sucedendo a Lorenzo Viotti.
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Lorenzo Viotti
Maestro
Lorenzo Viotti é um dos maestros mais cativantes da sua geração, sendo reconhecida a sua notável versatilidade, tanto no repertório sinfónico como no operático.
Ao longo da temporada 2025/26, apresenta-se nos principais palcos mundiais, incluindo atuações com a Filarmónica de Viena, a Orquestra Nacional de França, a Sinfónica de Viena, a Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma, bem como a Filarmonica della Scala, em Milão, com a qual mantém uma colaboração profícua. Apresenta-se também com a Filarmónica dos Países Baixos, onde exerceu o cargo de Maestro Titular até 2025. Regressa ao Japão para dirigir a Sinfónica de Tóquio, orquestra onde assumirá as funções de Diretor Musical a partir da temporada 2026/27.
No domínio da ópera, estreia-se no Palau de les Arts, em Valência, com Fausto de Gounod, regressando à Ópera de Zurique para O Morcego, de J. Strauss, e à Ópera Estatal de Viena, para Il Trittico, de Puccini. Anteriormente, dirigiu produções no Teatro alla Scala, na Ópera de Paris, na Ópera de Zurique e na Semperoper Dresden. O seu mandato como Maestro Titular da Ópera Nacional dos Países Baixos (2021-2025) incluiu produções aclamadas pela crítica, tais como Peter Grimes e O Morcego, e um ciclo Puccini de três anos, em colaboração com o encenador Barrie Kosky. No plano sinfónico, as suas colaborações incluem compromissos com a Filarmónica de Berlim, a Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão, a Filarmónica de Munique, a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig e a Orquestra de Cleveland, entre outras.
Natural de Lausanne, na Suíça, Lorenzo Viotti nasceu no seio de uma família de músicos de ascendência italiana e francesa. Estudou piano, canto e percussão em Lyon, e direção de orquestra com Georg Mark, em Viena, e com Nicolás Pasquet, no Conservatório Franz Liszt, em Weimar. Alcançou destaque internacional ao vencer várias competições importantes, incluindo o Concurso Internacional de Cadaqués, o Concurso de Direção da Orquestra Sinfónica MDR e o Nestlé and Salzburg Festival Young Conductors Award (2015). Em 2017 recebeu o International Opera Newcomer Award nos International Opera Awards, em Londres. Foi Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian entre 2018 e 2021.
Programa
Johannes Brahms
Sinfonia n.º 1, em Dó menor, op. 68
1. Un poco sostenuto – Allegro – Meno allegro
2. Andante sostenuto
3. Un poco allegretto e grazioso
4. Adagio – Più andante – Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro