Berg: Concerto para Violino

Orquestra Gulbenkian / Hannu Lintu / Leila Josefowicz

A violinista Leila Josefowicz junta-se à Orquestra Gulbenkian para interpretar, sob a direção de Hannu Lintu, o Concerto para Violino de Alban Berg.
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Rui Cabral Lopes 13 dez 2024 29 min

Membro da chamada “Segunda Escola de Viena”, Alban Berg destacou-se como um dos vultos mais originais e versáteis do seu tempo, tendo mesmo auferido de maior reconhecimento público do que o seu mestre Arnold Schönberg ou o seu condiscípulo Anton Webern. No Concerto para Violino, Berg levou ao máximo expoente esta capacidade de conciliar, na mesma obra, o método de composição dodecafónico com a herança musical romântica, do que resultou uma proposta inovadora e, ao mesmo tempo, acessível à maior parte das pessoas. A obra foi composta num breve período, entre abril e agosto de 1935, por solicitação do violinista americano Louis Krasner, o qual desejava ver refletidos no seu instrumento os frutos do mencionado método de composição com doze sons, consagrado por Schönberg a partir da década de 1920. Um acontecimento que sobreveio, já depois de Berg ter iniciado a composição, foi a morte, provocada por poliomielite, de Manon Gropius, a filha de Alma Mahler e do arquiteto alemão Walter Gropius. A especial afeição que Berg nutria pela jovem de dezoito anos de idade, cuja personalidade alternava entre o entusiasmo efusivo e a melancolia, levou-o a adicionar o subtítulo, em jeito de dedicatória. O Concerto foi objeto de estreia póstuma, a 19 de abril de 1936, no Palau de la Música Catalana de Barcelona, com o violinista Louis Krasner e a Orquestra Pau Casals, sob a direção do maestro Hermann Scherchen.

A estrutura formal do Concerto, descrita por Berg em carta que dirigiu a Schönberg, reveste-se de moldes pouco convencionais, dado que integra apenas dois andamentos, cada um deles assente em duas secções distintas. Vários estudiosos assinalaram a similaridade deste desenho formal com o da Sinfonia n.º 9, em Ré maior, de Gustav Mahler, obra que teremos também a oportunidade de escutar na segunda parte do presente concerto da Orquestra Gulbenkian. O musicólogo britânico Mosco Carner deu, aliás, como muito provável a influência desta última obra sinfónica no desenho global do Concerto para Violino de Berg. De modo esquemático, podemos constatar a seguinte sequência de andamentos e respetivas secções internas:

I.a. Andante
I.b. Allegretto
II.a. Allegro
II.b. Adagio

Na introdução do primeiro andamento, Berg expõe, no instrumento solista, a série dodecafónica que desempenha o papel de tema principal do Concerto. Em lugar de optar pela seleção aleatória de sons dentro da oitava justa, o engenho de Berg concebeu a série de doze notas encadeando terceiras menores e maiores, extraídas dos quatro tetracordes formados a partir das cordas soltas do violino, da mais grave para a mais aguda: Sol-Ré-Lá-Mi. As reminiscências familiares das tríades convivem, pois, com uma conceção melódica e harmónica afastada das tradicionais funções tonais, rumo a um patamar sonoro ilusoriamente liberto de constrangimentos, porque sujeito ao jugo da série dodecafónica subliminar, nas suas múltiplas cambiantes. É o retrato de Manon que emana numa primeira fase, pleno de beleza e ingenuidade. O andamento prossegue com o Allegretto, palco de diferentes gradações emocionais até ao aparecimento de uma citação melódica pitoresca, proveniente da região austríaca da Caríntia, facto assinalado originariamente pelo compositor e analista Ernst Krenek. Uma breve coda encerra o andamento.

O segundo andamento, Allegro, traz consigo rasgos dramáticos violentos, fazendo antever a agonia e a morte. As volutas tortuosas do instrumento solista combinam-se com as sonoridades rasgadas dos naipes, adensando uma atmosfera que culmina numa espécie de prolongada cadência. É o prenúncio para uma marcha fatídica, inexorável, a percorrer toda a orquestra, fundada na repetição obsessiva do mesmo motivo rítmico, também partilhado pelo solista. No despertar do Adagio final, pontua nova citação de material musical preexistente, designadamente da melodia de coral Es ist genung, provinda da Cantata de J. S. Bach intitulada O Ewigkeit, du Donnerwort («Ó eternidade, palavra retumbante»), BWV 60. A exposição do coral, composto por Johann Rudolph Ahle (1625-1673) e mais tarde harmonizado por J. S. Bach, é deixada aos clarinetes, enquanto que o violino e a restante orquestra entoam breves contracantos, como que a desfazer equívocos quanto à vocação modernista da partitura. Sucedem-se duas grandes secções de variação sobre o coral, a primeira, Misterioso, com intervenções contrapontísticas do violino; a segunda, Adagio, baseada na inversão da melodia de coral, culminando numa secção imitativa entoada pelos metais e pelas cordas. Berg volta a fazer escutar fragmentos da melodia tradicional caríntia nos violinos, em pianissimo. Por fim, a coda apropria-se das quatro últimas notas da melodia de coral, repetidas por três vezes pelo violino solo, pelos trompetes e pelas trompas. Nos derradeiros compassos regressam à textura os ecos do harpejo ascendente da série inicial, transmutado, in extremis, num acorde perfeito de Si bemol maior, com a sexta (Sol) acrescentada pelo violino no registo sobreagudo.


Intérpretes

  • Maestro
  • Violino

Programa

Alban Berg

Concerto para Violino, “À memória de um anjo”
1. Andante – Allegretto
2. Allegro – Adagio

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