Berg: Concerto para Violino
Orquestra Gulbenkian / Hannu Lintu / Leila Josefowicz
Membro da chamada “Segunda Escola de Viena”, Alban Berg destacou-se como um dos vultos mais originais e versáteis do seu tempo, tendo mesmo auferido de maior reconhecimento público do que o seu mestre Arnold Schönberg ou o seu condiscípulo Anton Webern. No Concerto para Violino, Berg levou ao máximo expoente esta capacidade de conciliar, na mesma obra, o método de composição dodecafónico com a herança musical romântica, do que resultou uma proposta inovadora e, ao mesmo tempo, acessível à maior parte das pessoas. A obra foi composta num breve período, entre abril e agosto de 1935, por solicitação do violinista americano Louis Krasner, o qual desejava ver refletidos no seu instrumento os frutos do mencionado método de composição com doze sons, consagrado por Schönberg a partir da década de 1920. Um acontecimento que sobreveio, já depois de Berg ter iniciado a composição, foi a morte, provocada por poliomielite, de Manon Gropius, a filha de Alma Mahler e do arquiteto alemão Walter Gropius. A especial afeição que Berg nutria pela jovem de dezoito anos de idade, cuja personalidade alternava entre o entusiasmo efusivo e a melancolia, levou-o a adicionar o subtítulo, em jeito de dedicatória. O Concerto foi objeto de estreia póstuma, a 19 de abril de 1936, no Palau de la Música Catalana de Barcelona, com o violinista Louis Krasner e a Orquestra Pau Casals, sob a direção do maestro Hermann Scherchen.
A estrutura formal do Concerto, descrita por Berg em carta que dirigiu a Schönberg, reveste-se de moldes pouco convencionais, dado que integra apenas dois andamentos, cada um deles assente em duas secções distintas. Vários estudiosos assinalaram a similaridade deste desenho formal com o da Sinfonia n.º 9, em Ré maior, de Gustav Mahler, obra que teremos também a oportunidade de escutar na segunda parte do presente concerto da Orquestra Gulbenkian. O musicólogo britânico Mosco Carner deu, aliás, como muito provável a influência desta última obra sinfónica no desenho global do Concerto para Violino de Berg. De modo esquemático, podemos constatar a seguinte sequência de andamentos e respetivas secções internas:
I.a. Andante
I.b. Allegretto
II.a. Allegro
II.b. Adagio
Na introdução do primeiro andamento, Berg expõe, no instrumento solista, a série dodecafónica que desempenha o papel de tema principal do Concerto. Em lugar de optar pela seleção aleatória de sons dentro da oitava justa, o engenho de Berg concebeu a série de doze notas encadeando terceiras menores e maiores, extraídas dos quatro tetracordes formados a partir das cordas soltas do violino, da mais grave para a mais aguda: Sol-Ré-Lá-Mi. As reminiscências familiares das tríades convivem, pois, com uma conceção melódica e harmónica afastada das tradicionais funções tonais, rumo a um patamar sonoro ilusoriamente liberto de constrangimentos, porque sujeito ao jugo da série dodecafónica subliminar, nas suas múltiplas cambiantes. É o retrato de Manon que emana numa primeira fase, pleno de beleza e ingenuidade. O andamento prossegue com o Allegretto, palco de diferentes gradações emocionais até ao aparecimento de uma citação melódica pitoresca, proveniente da região austríaca da Caríntia, facto assinalado originariamente pelo compositor e analista Ernst Krenek. Uma breve coda encerra o andamento.
O segundo andamento, Allegro, traz consigo rasgos dramáticos violentos, fazendo antever a agonia e a morte. As volutas tortuosas do instrumento solista combinam-se com as sonoridades rasgadas dos naipes, adensando uma atmosfera que culmina numa espécie de prolongada cadência. É o prenúncio para uma marcha fatídica, inexorável, a percorrer toda a orquestra, fundada na repetição obsessiva do mesmo motivo rítmico, também partilhado pelo solista. No despertar do Adagio final, pontua nova citação de material musical preexistente, designadamente da melodia de coral Es ist genung, provinda da Cantata de J. S. Bach intitulada O Ewigkeit, du Donnerwort («Ó eternidade, palavra retumbante»), BWV 60. A exposição do coral, composto por Johann Rudolph Ahle (1625-1673) e mais tarde harmonizado por J. S. Bach, é deixada aos clarinetes, enquanto que o violino e a restante orquestra entoam breves contracantos, como que a desfazer equívocos quanto à vocação modernista da partitura. Sucedem-se duas grandes secções de variação sobre o coral, a primeira, Misterioso, com intervenções contrapontísticas do violino; a segunda, Adagio, baseada na inversão da melodia de coral, culminando numa secção imitativa entoada pelos metais e pelas cordas. Berg volta a fazer escutar fragmentos da melodia tradicional caríntia nos violinos, em pianissimo. Por fim, a coda apropria-se das quatro últimas notas da melodia de coral, repetidas por três vezes pelo violino solo, pelos trompetes e pelas trompas. Nos derradeiros compassos regressam à textura os ecos do harpejo ascendente da série inicial, transmutado, in extremis, num acorde perfeito de Si bemol maior, com a sexta (Sol) acrescentada pelo violino no registo sobreagudo.
Intérpretes
- Maestro
- Violino
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Orquestra Gulbenkian
Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de sessenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas, que pode ser expandido de acordo com as exigências de cada programa. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório, do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas podem também ser interpretadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório, em Lisboa, em cujo âmbito colabora com os maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos nacionais, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas. No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian, sucedendo a Lorenzo Viotti.
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Hannu Lintu
Maestro Titular
O finlandês Hannu Lintu é o atual Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian. Em paralelo, prossegue o seu trajeto como Maestro Principal da Ópera e Ballet Nacionais da Finlândia e inicia os seus mandatos como Parceiro Artístico da Sinfónica de Lahti e Diretor Artístico do Festival Internacional Sibelius.
Na temporada passada, Lintu foi nomeado Diretor Musical da Orquestra Sinfónica de Singapura, com início em 2026/27. À frente desta orquestra, dirige na presente temporada a Missa de Nelson, de Haydn, e a 7.ª Sinfonia de Chostakovitch. Outros destaques incluem novas colaborações com as Sinfónicas da BBC, de St. Louis, de Toronto, de Baltimore e de Detroit, bem como produções de Elektra, de R. Strauss, e uma estreia mundial de A Estrela da Manhã, de Sebastian Fagerlund, na Ópera Nacional Finlandesa.
Nos últimos anos, dirigiu a Sinfónica de Chicago, a Filarmónica de Nova Iorque, a Filarmónica de Berlim, a Orquestra de Cleveland, a Sinfónica da Rádio da Baviera, a Orquestra Nacional da Radio France, a Sinfónica de Boston, a Sinfónica da Rádio Sueca, a Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, a Radio Filharmonisch Orkest, a Filarmónica de Londres, a Sinfónica de Atlanta, a Orquestra do Konzerthaus de Berlim e a Sinfónica de Montreal, entre outras orquestras.
Para além das grandes obras sinfónicas, dirige regularmente repertório de ópera. Neste domínio, os destaques recentes incluem Oedipe de Enesco, com a Sinfónica de Viena, no Festival de Bregenz, O Navio Fantasma de Wagner, na Ópera de Paris, e Pelléas et Mélisande de Debussy, na Ópera Estadual da Baviera, bem como várias produções para a Ópera e Ballet Nacionais da Finlândia, incluindo o ciclo O Anel do Nibelungo de Wagner, Dialogues des Carmélites de Poulenc, Don Giovanni de Mozart, Turandot de Puccini, Salome de R. Strauss, Billy Budd de Britten, e uma versão coreografada da Messa da Requiem de Verdi.
Hannu Lintu gravou para as editoras Ondine, Bis, Naxos, Avie e Hyperion. Recebeu vários prémios, incluindo dois ICMA para os Concertos para Violino de Béla Bartók, com Christian Tetzlaff, e para a gravação de obras de Sibelius, com Anne Sofie von Otter. Estas duas gravações, bem como Kaivos, de E. Rautavaara e os Concertos para Violino de Sibelius e de T. Adès, com Augustin Hadelich e a Royal Liverpool Orchestra, foram nomeados para os prémios Gramophone e Grammy.
Hannu Lintu estudou violoncelo e piano na Academia Sibelius, em Helsínquia, instituição onde mais tarde se formou em direção de orquestra com Jorma Panula. Estudou também com Myung-Whun Chung na Accademia Musicale Chigiana, em Siena. Em 1994 venceu o Concurso Nórdico de Direção de Orquestra, em Bergen.
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Leila Josefowicz
Violino
Leila Josefowicz nasceu em Mississauga, Ontario, no Canadá. Estudou no Curtis Institute of Music de Filadélfia com Jaime Laredo, Jascha Brodsky, Felix Galimir e Joseph Gingold. O seu interesse pela música contemporânea reflete-se nos seus programas e no entusiasmo com a interpretação de novas obras, tendo estreado vários concertos para violino, nomeadamente de Colin Matthews, Luca Francesconi, John Adams e Esa-Pekka Salonen. A temporada 2024/25 inclui interpretações de Duende – The Dark Notes, de Francesconi, com a Filarmónica de Nova Iorque e Susanna Mälkki, e a estreia britânica do Concerto para Violino de Helen Grime, com a Sinfónica da BBC e Sakari Oramo, no Festival de Aldeburgh. Outros compromissos incluem a Orquestra do Minnesota, a Sinfónica de Londres e as Sinfónicas de Houston, San Diego, Singapura, Birmingham e Praga, entre outras. Leila Josefowicz desenvolveu uma relação especial com o compositor Oliver Knussen, tendo interpretado várias obras. Estreou Assonanza de Matthias Pintscher, com a Sinfónica de Cincinnati, Scheherazade.2 de John Adams, com Filarmónica de Nova Iorque, e Beautiful Passing de Steven Mackey, com a Filarmónica da BBC. Desde 1985, apresenta-se regularmente em recitais com o pianista John Novacek. Na presente temporada, regressaram ao Wigmore Hall de Londres para interpretar, em estreia mundial, a obra Mriya de Charlotte Bray. Colabora também com o pianista Alexei Tartakovsky e o violoncelista Paul Watkins, com o qual apresentará uma nova obra para violino e violoncelo de Sean Shepherd, nos Festivais de Música de Câmara dos Grandes Lagos e de Santa Fé e no Chamber Music Northwest. Leila Josefowicz gravou vários discos para a Deutsche Grammophon, a Philips/Universal e a Warner Classics. Recebeu nomeações para os prémios Grammy pelas gravações de Scheherazade.2, com a Sinfónica de St. Louis e o maestro David Robertson, e o Concerto para Violino de Esa-Pekka Salonen, com a Sinfónica da Rádio Finlandesa dirigida pelo compositor. Em reconhecimento do seu notável desempenho e excelência musical, recebeu o Prémio Avery Fisher 2018. Foi também galardoada com a prestigiada MacArthur Fellowship em 2008, juntando-se a cientistas, escritores e músicos proeminentes que fizeram contribuições únicas para a vida contemporânea.
Programa
Alban Berg
Concerto para Violino, “À memória de um anjo”
1. Andante – Allegretto
2. Allegro – Adagio