Mahler: Sinfonia n.º 9
Orquestra Gulbenkian / Hannu Lintu
Corolário da produção sinfónica de Gustav Mahler, a Sinfonia n.º 9, em Ré Maior, foi concluída no verão de 1909, quando o músico repousava na localidade tirolesa de Toblach. A estreia póstuma sobreveio em Viena, a 26 de junho de 1912, sob a direção do maestro Bruno Walter, discípulo e amigo do compositor. No curso do processo criativo, foram diversas as vezes em que Mahler hesitou, chegando mesmo a interromper o seu trabalho. Pesava sobre si o estigma fatalista das nonas sinfonias, muito inculcado pelo imaginário romântico e confirmado, além de tudo, pelos exemplos lídimos de Ludwig van Beethoven, Franz Schubert, Anton Bruckner e Antonín Dvorák, cujas “nonas” haviam assinalado o termo das respetivas viagens criativas. Para contornar o problema, Mahler decidiu não atribuir numeração à obra que veio a suceder a sua Sinfonia n.º 8 (1906), optando antes por intitulá-la A Canção da Terra, não obstante se tratar, de facto, de uma verdadeira sinfonia para tenor e contralto (ou barítono) e orquestra. Deste modo, a Sinfonia n.º 9, afirmar-se-ia, em bom rigor, como a décima sinfonia, o que fez com que se desvanecessem todas as superstições, chegando o seu autor a concluir que o perigo maior já teria passado.
Do ponto de vista formal, a Sinfonia n.º 9 é um caso único na história do género, contando com dois andamentos centrais rápidos, de carácter sarcástico, os quais são enquadrados por extensos Adagios, com grande densidade emocional. O signo da despedida preside a qualquer um dos andamentos, ainda que, em cada um deles, assuma um enunciado distintivo.
A evocação expressiva e nostálgica do amor e da amizade, enquanto fulcros da experiência humana, assoma à superfície do primeiro andamento, Andante comodo. No segundo andamento, Im Tempo eines gemächlichen Ländlers, Mahler recria uma dança típica de camponeses, através da qual parece gravitar entre o adeus aos prazeres simples do campo e a predestinação trágica sugerida pela célebre Totentanz da tradição germânica. Por sua vez, o terceiro andamento, Burleske, remete o ouvinte para o bulício da vida citadina e para os meandros complexos dos círculos sociais vienenses, dominados pelos códigos subtis de comportamento, aos quais o compositor lança, enfim, um derradeiro olhar, porventura irónico, perante a solidão e o despojamento absolutos. A despedida da própria vida, que Mahler considerava ser a dádiva mais preciosa, porque divina e irrepetível, coroa o impressionante andamento final, Adagio, no qual Bruno Walter viu emergir “a conjugação única entre a tristeza do adeus e a visão da luz celestial”.
Intérpretes
- Maestro
-

Orquestra Gulbenkian
Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de sessenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas, que pode ser expandido de acordo com as exigências de cada programa. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório, do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas podem também ser interpretadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório, em Lisboa, em cujo âmbito colabora com os maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos nacionais, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas. No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian desde 2023.
-

Hannu Lintu
Maestro Titular
O finlandês Hannu Lintu é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian. Na temporada 2026/27 iniciou funções como Diretor Musical da Sinfónica de Singapura e dá continuidade aos seus mandatos como Parceiro Artístico da Sinfónica de Lahti e Diretor Artístico do Festival Internacional Sibelius. Para além destas orquestras, na presente temporada dirige a Sinfónica da Rádio Finlandesa, a Orquestra do Minnesota, a Filarmónica dos Países Baixos e a Filarmónica de Hong Kong e estreia-se à frente da Orquestra do Tonhalle de Zurique e da Orquestra Nacional do Capitólio de Toulouse.
Nos últimos anos, dirigiu a Sinfónica de Chicago, a Filarmónica de Nova Iorque, a Filarmónica de Berlim, a Orquestra de Cleveland, a Sinfónica da Rádio da Baviera, a Orquestra Nacional da Radio France, a Sinfónica de Boston, a Sinfónica da Rádio Sueca, a Sinfónica da BBC, a Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, a Radio Filharmonisch Orkest, a Filarmónica de Londres, a Orquestra do Konzerthaus de Berlim e as Sinfónicas de Atlanta, St. Louis, Baltimore e Montreal, entre outras grandes orquestras.
Para além das grandes obras sinfónicas, dirige regularmente repertório de ópera. Neste domínio, os destaques recentes incluem Oedipe de Enesco, com a Sinfónica de Viena, no Festival de Bregenz, O Navio Fantasma de Wagner, na Ópera de Paris, e Pelléas et Mélisande de Debussy, na Ópera Estadual da Baviera, bem como várias produções enquanto Maestro Titular da Ópera e Ballet Nacionais da Finlândia (2022-2026), incluindo o ciclo O Anel do Nibelungo de Wagner, Dialogues des Carmélites de Poulenc, Don Giovanni de Mozart, Turandot de Puccini, Salome de R. Strauss, Billy Budd de Britten, e uma versão encenada da Messa da Requiem de Verdi.
Hannu Lintu gravou para as editoras Ondine, Bis, Naxos, Avie e Hyperion. A sua discografia diversificada inclui gravações das obras orquestrais de Magnus Lindberg, dos Concertos para Piano de Beethoven, com Stephen Hough, e das Sinfonias de Lutosławski, todas com a Sinfónica da Rádio Finlandesa. Recebeu vários prémios, incluindo dois ICMA para os Concertos para Violino de Béla Bartók, com Christian Tetzlaff, e para a gravação de obras de Sibelius, com Anne Sofie von Otter. Estas duas gravações, bem como Kaivos, de E. Rautavaara, e os Concertos para Violino de Sibelius e de T. Adès, com Augustin Hadelich e a Royal Liverpool Orchestra, foram nomeados para os prémios Gramophone e Grammy.
Hannu Lintu estudou violoncelo e piano na Academia Sibelius, em Helsínquia, instituição onde mais tarde se formou em direção de orquestra com Jorma Panula. Estudou também com Myung-Whun Chung na Accademia Musicale Chigiana, em Siena. Em 1994 venceu o Concurso Nórdico de Direção de Orquestra, em Bergen.
Programa
Gustav Mahler
Sinfonia n.º 9, em Ré maior
1. Andante comodo
2. Im Tempo eines gemächlichen Ländlers (No ritmo de um tranquilo Ländler)
3. Rondo-Burleske: Allegro assai. Sehr trotzig (muito obstinado)
4. Adagio: Sehr langsam und noch zurückhaltend (muito lento e contido)