Pedro Cabrita Reis. Fundação

50.º Aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian

Integrada nas comemorações do 50.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian, esta exposição resultou de um convite ao artista Pedro Cabrita Reis (1956). A intervenção integrou não só objetos que já faziam parte do acervo do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, mas também objetos provenientes do ateliê do artista.
Included in the 50th anniversary commemorations for the Calouste Gulbenkian Foundation, the show was the result of an invitation extended to artist Pedro Cabrita Reis. The exhibition featured works from the Modern Art Centre José de Azeredo Perdigão collections as well as from the artist’s own studio.

Intervenção do artista português Pedro Cabrita Reis (1956), realizada na nave do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP), no âmbito das comemorações do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG). Inaugurada em outubro de 2006, a intervenção/exposição «Fundação» foi organizada por Jorge Molder, diretor do CAMJAP, que assegurou a coordenação geral da iniciativa. Para escrever sobre o artista e a obra em exposição foi convidado o curador de arte alemão Dieter Schwarz, cujo texto integraria o catálogo.

Constituiu a primeira vez que a Nave do Centro de Arte Moderna foi dedicada a um só artista. Pedro Cabrita Reis é um dos artistas portugueses com maior reconhecimento internacional, tendo participado em numerosas exposições em Portugal e no estrangeiro. A sua obra cobre um vasto território de meios de expressão, do desenho à escultura, da pintura à instalação.

A escolha de Cabrita Reis para assinalar a ocasião assentou, segundo Jorge Molder, na ligação «já antiga» com o artista, que desenvolveu «vários projetos com o Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, destacando-se a sua primeira exposição antológica, em 1994, “Contra a Claridade”», ou ainda, em 1997, o monumento escultórico de homenagem a Azeredo Perdigão, integrado no Jardim da FCG (Molder, Pedro Cabrita Reis. Fundação, 2006, p. 8).

O diretor do CAMJAP considera Cabrita Reis «exemplar no envolvimento do seu trabalho com tempos e experiências de outras realidades, criando, recriando e reflectindo […] esse complexo jogo de energias e circulações que percorre a visão com as suas memórias e as suas heterogéneas vidas e também vislumbres, ou melhor, o horizonte de interrogações a que chamamos futuro. O passado, como evocação e também como presença, e o sentido das coisas, como uma permanente vontade de colocar novas questões, cruzam a obra deste artista» (Ibid.). Assim, no entender de Jorge Molder, «numa altura em que a Fundação Calouste Gulbenkian celebra um importante momento da sua história, em que reflete sobre o caminho percorrido e perscruta novos horizontes», Cabrita Reis assume «um especial significado» para a exposição (Ibid.).

Desde julho de 2006, e durante cerca de três meses, Pedro Cabrita Reis trabalhou diariamente no local da instalação, uma vez que todo o processo de construção da obra, pela sua dimensão, obedecia a uma lógica de work in progress. A montagem da instalação foi realizada conjuntamente pela equipa de montagens do CAMJAP e pelo staff do ateliê do artista, tendo os trabalhos sido objeto de um detalhado registo fotográfico. Ao longo dos meses de produção, os visitantes do museu puderam acompanhar a construção da obra.

Quanto aos objetos e materiais utilizados, grande parte deles provinham de armazéns da Fundação Calouste Gulbenkian e, uma parcela menor, do ateliê de Cabrita Reis. A instalação incorporou, nomeadamente, portas, secretárias, estantes metálicas e plintos de mármore, projetores, alcatifas, perfis de aço, placas de vidro e de contraplacado, caixilharia de alumínio, tijolos, tintas, canos em PVC, lâmpadas fluorescentes e fio elétrico. A par desta rede de materiais, foram integradas duas obras do século XIX pertencentes à coleção do Museu Gulbenkian: a pintura a óleo Arredores de Douai (atribuída a Corot) (Inv. 321) e a escultura Herma da Vestal Tucia (de Antonio Canova) (Inv. 2214). Foi, aliás, no âmbito da sua inclusão em Fundação que a paisagem bucólica de Corot foi pela primeira vez exposta desde que Calouste Sarkis Gulbenkian a adquirira.

Nas declarações que presta ao jornal Diário de Notícias, Cabrita Reis explica que a inclusão de Arredores de Douai na instalação se deve ao facto de esta obra, adquirida por Calouste Gulbenkian como atribuída ao pintor francês Camille Corot (1796-1875), ser ainda considerada de autoria duvidosa. O artista pretendia desse modo «retomar o debate sobre a questão da individualidade e autenticidade», numa interrogação «política, ética e, porque não dizer, estética em torno do quadro» (Lobo, Diário de Notícias, 15 out. 2006, p. 28).

Ao acompanhar o processo criativo e experimental da obra, Jorge Molder testemunha: «[…] sucederam-se formas, disposições, paisagens e arquitecturas, numa espécie de voragem caleidoscópica.» Destacando o comportamento do artista numa permanente entrega à obra, «destruindo e recriando, quase como um ritual. Parecia, por vezes, ser possível adivinhar na sua postura, nos seus movimentos e no seu olhar o que pensava e encontrar o sentido das transformações que ia criando» (Molder, Pedro Cabrita Reis. Fundação, 2006, p. 8).

Pronta em agosto, a primeira versão de Fundação viria, no entanto, a ser reconfigurada no início de setembro, ocasião em foi submetida a várias deslocações de elementos e a novas integrações. Segundo Miguel Caissotti, «o carácter reutilizável desta matéria-prima (pedaços de pedra, de madeira, vidros e estruturas metálicas) estabelece uma curiosa ponte entre o que pode ser entendido como um conjunto de fragmentos da memória e da história da FCG e aquilo a que, no presente projecto, Cabrita Reis possibilita uma renovada existência, junto de um mesmo universo de potenciais destinatários (os públicos da FCG), sem que para tal precise o artista de abdicar da sua gramática inventiva» (Caissotti, «Pedro Cabrita Reis. Fundação», Arte Capital, 2007).

Em articulação com a instalação, foi criada para o Hall do CAMJAP, na zona que antecede a Nave, uma série de cinco pinturas intituladas White Paintings (Inv. 06P1417). Este políptico foi adquirido pela Fundação Calouste Gulbenkian, integrando atualmente a coleção do Centro de Arte Moderna.

«The White Room (about T. S. Elliot)» foi o nome atribuído ao espaço destinado às cinco pinturas, a que Leonor Nazaré se refere como «memória e citação de elementos tão diversos quanto o monocromo, o ready-made, o design de interiores ou a “janela” renascentista reconduzida a uma opacidade minimalista desconcertante: os vidros são superfícies reflectoras e transparentes mas os tecidos fecham o espaço, o branco é uniforme mas as texturas dos tecidos subtilmente variáveis, o tecido é uma superfície quente mas o metal e o vidro que o encerra ostentam um peso e uma frieza implacáveis» (Nazaré, «Pedro Cabrita Reis. White Room» [Folha de sala], 2007).

A 15 de outubro, Pedro Cabrita Reis deu por terminado o projeto Fundação, com o qual, nas suas palavras, pretende «criar um território que está à disposição do observador para que ele próprio elabore as suas perguntas e interpretações» (Lobo, Diário de Notícias, 15 out. 2006). Segundo Molder, referindo-se ao processo de trabalho do artista durante os meses de intervenção no espaço expositivo, «a sua conclusão foi precedida de rápidos movimentos, quase mágicos, que a depuraram e lhe imprimiram a aura de um todo, uno e completo» (Molder, Pedro Cabrita Reis. Fundação, 2006, p. 8). No mesmo dia foi inaugurada a instalação e o políptico White Paintings.

No texto que assinou para o catálogo, referindo-se à condição final da obra e ao seu processo de execução, Dieter Schwarz escreveu: «[…] ainda que no fim se chegue a uma versão definitiva, o processo de trabalho tornado visível permanece um elemento constitutivo e inalienável da obra, já que a montagem de elementos dispersos não obedece a nenhum princípio, atém-se apenas à observação de factos determinados pela improvisação.» A situação apresentada obedecia por isso a uma dimensão completamente imprevisível, mas não no sentido mais imediato da palavra. Como explicou Schwarz, «ela é imprevisível porque só no espaço real se torna visível quais as constelações que, a partir de diferentes pontos de vista, se afirmarão como definitivas» (Schwarz, Pedro Cabrita Reis. Fundação, 2006, pp. 12-13).

A exposição foi inaugurada a um domingo, num evento de acesso restrito a profissionais e especialistas do meio artístico nacional e internacional. A inauguração incluiu também um brunch no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.

Como atividades paralelas da exposição, foram organizadas diversas iniciativas em torno da obra de Cabrita Reis, que aconteceram ao longo de todo o período de exibição: visitas guiadas (orientadas por Carlos Carrilho e Carla Mendes); visitas temáticas; conversas inseridas no ciclo «Encontros Imediatos – Conversas à Hora do Almoço» (igualmente conduzidas por Carlos Carrilho); recitais em formato cénico a partir de Fundação e dirigidos por Margarida Bettencourt; «Concertos (Im)previstos: Cabrita Reis – O Museu como Cenário»; e oficinas para a infância.

O extenso catálogo da exposição dá conta do longo e rico itinerário de montagem e de alterações até ao momento de conclusão da obra. Editado pelo Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão em versão bilingue (português/inglês), a monografia inclui os textos de Jorge Molder e Dieter Schwarz, e «Uma Conversa por Acabar» entre Molder e Cabrita Reis. Nesta conversa, é discutida a instalação e o trabalho do artista em geral. A instalação e o seu processo de trabalho estão amplamente documentados em fotografia. O volume inclui o currículo do artista. Foi ainda editada pelo CAMJAP uma folha da sala, que inclui as datas da exposição e o texto de Leonor Nazaré com tradução em inglês.

A exposição teve uma boa cobertura por parte da imprensa escrita, tendo sido possível reunir vários artigos dedicados ao trabalho do artista na sequência da exposição. A título exemplificativo, destacamos as impressões de dois autores.

Segundo Paula Lobo, a instalação «recupera memórias da casa e do autor, fruto de um trabalho site specific desenvolvido à vista do público.  […] Apuramento e rigor” são palavras que [Cabrita Reis] usa a descrever um processo que, embora na linha do seu modus operandi, o levou a confrontar-se com o passado». E cita o artista: «Permitiu-me fazer um processo de síntese, interrogar-me sobre o meu modo de fazer e modo de pensar, e apurar a ligação a vários tempos da minha vida.» (Lobo, Diário de Notícias, 15 out. 2006, p. 28)

Ricardo Duarte, estabelecendo um paralelismo com um poema de Pedro Tamen, afirma: «No trabalho do mais internacional artista português ardem convenções e estabelecem-se novas fronteiras para uma arte especificamente contemporânea, mas que tem na memória o seu principal fundamento. Isso mesmo se pode comprovar pelo título escolhido para a obra que assinala os 50 anos da Gulbenkian. Fundação remete-nos para um começo de algo que não acaba, como a instituição que o convidou, e para a essência de cada acto, de cada cultura, de cada povo. No fundo, para a essência da Arte. / Estes pressupostos concretizam-se numa instalação de grandes dimensões – ocupa a totalidade do piso 0 do Centro de Arte Moderna – que foi evoluindo à vista do público. […] Num toque de Midas, esta massa foi ganhando corpo, alongando-se no espaço, sem ser absorvido por ele, num labirinto que por vezes é fácil de percorrer, por outras um enigma de múltiplas interpretações.» (Duarte, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideais, 11 out. 2006, p. 16)

Joana Brito, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Herma da Vestal Tucia

Antonio Canova (1757-1822)

Herma da Vestal Tucia, 1818 - 1819 / Inv. 2214

Arredores de Douai

Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875)

Arredores de Douai, Séc. XIX / Inv. 321

White Paintings

Pedro Cabrita Reis (1956-)

White Paintings, 2006 / Inv. 06P1417

White Paintings

Pedro Cabrita Reis (1956-)

White Paintings, 2006 / Inv. 06P1417


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Pedro Cabrita Reis. Fundação]

22 out 2006 – 28 abr 2007
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Nave
Lisboa, Portugal
Concerto

Concertos (Im)previstos. Cabrita Reis O Museu Como Cenário

17 abr 2006 – 21 abr 2006
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Nave
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Jorge Molder (à esq.), Teresa Gouveia, Pedro Cabrita Reis (ao centro) e Emílio Rui Vilar (à dir.)

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00554

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência interna, orçamentos e proposta/memorando da exposição do artista para a FCG. 2006 – 2007

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 111897

Coleção fotográfica, cor: montagem (FCG-CAMJAP, Lisboa) 2006

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 107667

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG-CAMJAP, Lisboa) 2006

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 116191

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG-CAMJAP, Lisboa) 2006


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