3 mar / Uma Planta Pode Ter Intenções? Introdução à Inteligência Vegetal
Sessão inaugural que lança as bases do ciclo, questiona se as plantas podem ter algo como intenções, ou “querer” algo do mundo que as rodeia e agir conforme o intendido. A filosofia ocidental construiu-se, em grande parte, negando às plantas qualquer forma de subjetividade: sem sistema nervoso nem comportamento visível, foram durante séculos reduzidas a simples mecanismos, quase indistintas da matéria inerte. Partindo da fenomenologia — a tradição filosófica que estuda a experiência tal como ela nos aparece, e que coloca no centro a noção de intencionalidade: a ideia de que toda a consciência é sempre consciência de alguma coisa —, Michael Marder pergunta se este conceito pode, e deve, ser alargado para lá do ser humano Fenómenos como o crescimento das raízes em direção à água, a orientação das folhas para a luz ou a comunicação química entre plantas vizinhas serão revisitados como possíveis indícios de uma direcionalidade própria, de um “visar” vegetal.
14 abr / Atenção das Plantas / Atenção às Plantas: Sentir e Responder ao Mundo
Serão as plantas capazes de prestar atenção? Esta sessão explora a bioatenção vegetal — a forma como as plantas selecionam estímulos, modulam as suas respostas e mantêm essa disponibilidade ao longo do tempo. A proposta é de pensar esta atenção vegetal como uma inteligência situada, um modo próprio das plantas de estarem ligadas aos lugares onde crescem. em condições normais, é uma atenção dispersa por múltiplos focos em simultâneo, com cada raiz, cada folha, cada rebento a monitorizar o que lhe é próximo. Perante o perigo, porém, essa dispersão concentra-se: a planta isola a ameaça, investindo nela uma energia desproporcionada para lhe poder responder. A sessão inclui ainda um convite à experiência direta no Jardim Gulbenkian: respirar, sentir e escutar em sintonia com as plantas, numa tentativa de retribuir, ainda que de forma limitada, a atenção que elas dedicam ao mundo.
12 mai / Ouvir a Natureza de Outra Forma: Hildegarda de Bingen e a Ecologia
Esta sessão desloca-se da filosofia contemporânea para a cosmologia medieval de Hildegarda de Bingen (1098–1179), abadessa beneditina, mística, compositora e uma importante naturalista europeia. No centro do seu pensamento está a noção de viriditas — a força verdejante, o “verdor” que anima toda a criação, das plantas ao corpo humano, e que Hildegarda entendia como sinal visível da presença divina no mundo vivo. Ao contrário da ecologia moderna, que nasce como disciplina científica especializada, a visão de Hildegarda integra, sem separação, o botânico, o medicinal, o espiritual e o cósmico. Escutar esta voz antiga (que a sua vez escuta as plantas e ao todo o mundo da vida) pode ajudar-nos a ouvir a própria palavra “ecologia” de uma forma diferente da habitual: como um conjunto de vozes vivas, uma sinfonia da vida.
9 jun / A Arte como Metabolismo Planetário
A sessão de encerramento do ciclo alarga o olhar da planta para a criação artística. Aventuraremos pensar a arte como parte dos processos de troca, transformação e circulação de matéria e energia que atravessam todo o planeta naquilo a que se pode chamar um metabolismo planetário. Tal como uma planta transforma luz, água e minerais em folha, fruto e semente, também o gesto artístico transforma materiais, tempo e atenção em obra, participando, à sua maneira, no mesmo tecido de trocas que sustenta a vida na Terra. Esta ideia convida a repensar noções como originalidade, autoria e criação, habitualmente centradas no indivíduo humano, à luz de uma ecologia mais vasta, na qual também a arte respira, se alimenta e devolve algo ao mundo que a rodeia. Encerrando o ciclo “Plantas e Filosofia,” Michael Marder aponta assim a um horizonte que liga a intencionalidade vegetal, a atenção das plantas e as ressonâncias medievais das sessões anteriores a uma reflexão, em aberto, sobre o lugar da criatividade humana dentro do panorama da vida.