Tratado da Natureza Humana

David Hume

De um modo geral, o esforço teórico de Hume concentra-se na formulação de conjeturas plausíveis acerca de princípios da natureza humana encarados como inatos. Mas isso não significa que “entendimento” e “paixões” sejam nomes de tais princípios inatos. O primeiro destes termos, “entendimento”, não é inteiramente unívoco nos textos humeanos – às vezes designa simplesmente a razão abstrata e dedutiva – mas o sentido predominante é o do trabalho da imaginação (esta sim, um poder inato do espírito humano) quando ela se rege pelos padrões derivados da experiência da regularidade da natureza. Quando a imaginação não se rege por esses princípios mais gerais e estabelecidos, ela recebe frequentemente o nome de “Fantasia”, juntando ideias de modo livre e às vezes caprichoso, ou no máximo seguindo os caminhos sugeridos pela associação de ideias – por semelhança, por contiguidade ou por causação. Desaparece portanto a simples oposição cartesiana entre a imaginação, do lado do corpo e do erro, e o entendimento visto como razão “pura” e fonte de verdades absolutas.

Não é muito diferente, sob o ponto de vista indicado, o caso das paixões, também chamadas “afetos” ou “afeções” (os “afeitos” da língua de Camões).

Nesta área, há um princípio da natureza humana inequivocamente inato, que é a tendência para procurar obter prazer e evitar a dor, cuja centralidade já fora apontada desde a antiguidade, e na época moderna por filósofos como Hobbes. Este “princípio de prazer” – assim chamado apenas por Freud, muito mais tarde e com outras aceções – gera as paixões de modo mediato, pois estas são, nos termos do filósofo, “impressões de reflexão”, ou seja, fenómenos mentais que, se são sentidos e não pensados, e por isso se chamam impressões, por outro lado não derivam diretamente do princípio de prazer, porque se geram a partir de um certo jogo de ideias, e por isso se chamam “de reflexão”. Para tomar um caso mais simples, o de uma paixão chamada “direta” como o desejo – há paixões indiretas, como por exemplo o orgulho, de génese mais complexa – temos na base a tendência para preferir o que produz prazer, mas essa paixão só se forma no espírito a partir de uma reflexão sobre um objeto dotado de determinadas qualidades e a sua relação com o sujeito da ação, que o constrói como digno… objeto de desejo. O mesmo ocorre com os outros afetos, que são para Hume os verdadeiros motores da ação. A razão apenas busca meios para atingir os fins ditados pelas paixões – por isso a famosa metáfora do Tratado a considera uma “escrava das paixões”.

 

(Do prefácio de João Paulo Monteiro)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Trad. de Serafim da Silva Fontes; pref. e rev. João Paulo Monteiro

Edição:
4ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian
Editado:
Lisboa, 2012
Páginas:
737 p.
Título Original:
A treatise of human nature
ISBN:
978-972-31-0936-8