“Em Moçambique não temos Orquestra clássica”
Estêvão Chissano nasceu em 1994 em Malehice, na província de Gaza. Foi lá que cresceu, no seio de uma congregação religiosa criada por uma tia, até rumar a Maputo para terminar o ensino secundário e concorrer ao ensino superior. Entrou na Universidade Eduardo Mondlane e foi na capital moçambicana que frequentou a licenciatura em Geologia, motivado pelo florescimento da indústria extrativa dos recursos minerais em Moçambique. E é nessa altura, imerso num mundo de pedras e rochas, que começa a participar em festivais de canto coral. Não demora a fundar, com três amigos, um quarteto vocal inspirado no grupo brasileiro Quarteto Gileade, e a embrenhar-se no mundo da composição.
A música absorve-o. Em 2014 já fazia parte do Xiquitsi, um projeto criado pela oboísta Eldevina Materula e inspirado no projeto venezuelano El Sistema, que promove a inserção social e a capacitação profissional através do ensino coletivo de música.
O Xiquitsi despertou qualquer coisa em Estêvão, já que em 2015 iniciava os seus estudos em Composição e, um ano depois, estreava as suas primeiras peças para coro e orquestra de cordas na Temporada de Música Clássica, em Maputo.
Estêvão nunca mais parou. Autodidata (ainda não terminou os seus estudos em composição), as suas peças já foram apresentadas no Brasil, na Alemanha, no Reino Unido, Portugal, Noruega, África do Sul, Cabo Verde e Japão, num percurso que o levou a trabalhar com músicos como Mingas, Stewart Sukuma, Wazimbo, Deltino Guerreiro, Banda Kakana e, entre outros.
E um dia, descobriu a Gulbenkian
Em 2020, uma bolsa de mobilidade para a participação em residências artísticas PROCULTURA levou-o à Escola Superior de Música de Lisboa para frequentar disciplinas de Composição. Esta viagem (a primeira, fora de Moçambique) marcou-o. Não só pelo ambiente, pelo mergulho no universo da música erudita, pelo “acesso aos instrumentos para os quais devo escrever”, mas sobretudo, diz, pelo que encontrou no Grande Auditório: a Orquestra Gulbenkian. “Foi extraordinário assistir a um concerto com uma orquestra completa, uma orquestra profissional. Em Moçambique nem orquestra clássica temos – nunca tinha tido acesso a uma experiência de escuta ao vivo, a não ser via youtube. Imaginem uma criança quando chega à famosa Disneyland…”
Estêvão Chissano voltou a receber a bolsa de mobilidade de artistas PROCULTURA em 2022, desta vez para frequentar uma residência no NEOJIBA (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), no Brasil, um dos projetos que inspirou a fundação do seu Xiquitsi. Lá, “a intenção era poder absorver a experiência e partilhar o que aprendi em Moçambique, para melhor desenvolvermos as nossas atividades”.
Em 2024, regressa à Escola Superior de Música de Lisboa, desta vez com uma bolsa Gulbenkian. Passo a passo, espera que o futuro lhe permita fazer a licenciatura completa em Composição…