Paula Rego e Adriana Varejão
Entre os vossos dentes
Slider de Eventos
Data
- qua, qui e sex,
- Encerra Terça
Local
Nave Centro de Arte Moderna GulbenkianInformamos que alguns conteúdos podem não ser adequados para todos os visitantes.
Preço
Gratuito – Menores de 18
25% – Menores de 30
10% – Maiores de 65
Cartão Gulbenkian:
Gratuito – Menores de 30, sábados, 18:00 – 21:00
50% – Menores de 30
20% – Maiores de 64
10% – 30 a 65
Entre os vossos dentes é o subtítulo da exposição que reúne cerca de 80 obras de duas artistas de grande reconhecimento internacional: Paula Rego (Lisboa, 1935 – Londres, 2022) e Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964). Citação de um poema de Hilda Hilst, Poemas aos homens do nosso tempo, neste verso podemos desde logo pressentir a natureza crua deste encontro.
O espaço amplo da nave do CAM reconfigurou-se no desenho de 13 salas, numa sucessão ritmada de espaços constritos e labirínticos, rasgados por fendas e pontos de fuga, e marcados pela tensão entre as paredes nuas do exterior e a densidade expressiva do seu interior, entre o dentro e o fora, espaço doméstico e espaço público. Ficou assim traçado um corpo arquitetónico onde a nudez da pele encobre os acidentes da carne.
Esta poderá ser a primeira metáfora desta exposição, onde em cada uma das salas descobrimos as «camadas» de que são feitos os universos temáticos das duas artistas. Incorpóreas, imateriais, subtis em Paula Rego; mais matéricas, físicas e viscerais nos trabalhos de Adriana Varejão. E encontramos o que está por detrás da pele de cada uma: se o gesto da espada em Paula Rego fica suspenso, Adriana, pelo contrário, faz o golpe e morde até fazer sangue.
A humanidade referida no poema, a sua História e as histórias de todas as violências e injustiças, civilizacionais ou íntimas, são a matéria bruta que ambas as artistas trabalham numa exasperação transformadora, desconstruindo e subvertendo narrativas oficiais, referências múltiplas, literárias, artísticas, historiográficas, desviando o sentido primordial de todas essas suas fontes.
Artistas de gerações diferentes, mas com três décadas de trabalho em simultâneo, separadas pelo Oceano Atlântico em dois continentes, Europa e América do Sul, Paula Rego e Adriana Varejão seguem caminhos autónomos que, por variadas vezes e de múltiplos modos, convergem. Esta exposição procurou trazer para cada um dos seus espaços, tematicamente nomeados, os pontos de interseção onde essas linhas se entrelaçam e fazem pontos de luz, numa dramaturgia onde as obras selecionadas são as protagonistas.
O título da exposição foi retirado de «Poemas aos homens do nosso tempo», da poetisa e romancista brasileira Hilda Hilst, escrito em 1974, numa clara alusão ao estado de ditadura em que o Brasil se encontrava mergulhado há já dez anos.
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra
além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.
— Hilda Hilst, excerto de «Poemas aos homens dos nossos tempos», in Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974
Explore as 13 salas da exposição com os comentários dos curadores Adriana Varejão, Helena Freitas e Victor Gorgulho, e da designer Daniela Thomas.
Descarregue a aplicação Bloomberg Connects.
Temas
Memórias de açúcar e sal
Comemos, dançamos, matamos e misturamos
Câmara de ecos
Rituais de limpeza
Extirpações
Faca amolada
Dentro do quarto, fora de mim
Corpo em transe
Reconfigurando o sagrado
Apesar de você
Criaturas extraordinárias
Mar, onde sou a mim mesma devolvida em sal, espuma e concha
-
Fui terra, fui ventre, fui vela rasgada
Esta sala reúne obras de Paula Rego e Adriana Varejão que questionam narrativas coloniais e patriarcais, apontando como imagens históricas moldaram percepções sobre poder, território e corpo. Em A primeira missa no Brasil, Rego faz alusão à icónica pintura realizada pelo artista brasileiro Victor Meirelles em 1860, que retrata o que teria sido a primeira missa católica dos portugueses assistida pelos povos indígenas do território que viria a constituir-se como Brasil. A artista desloca o olhar da cena religiosa tradicional para uma mulher grávida em primeiro plano, sugerindo que a colonização não foi apenas um projeto territorial e religioso, mas um processo que atravessou também corpos femininos, impondo controle e apagamento.
Varejão acentua essa crítica em Filho bastardo II (Cena de interior), deslocando personagens originalmente pertencentes às pinturas de Jean-Baptiste Debret, do início do século XIX, para encenar uma história que a pintura original do artista francês não revela, evidenciando as hierarquias raciais e de género que sustentaram a estrutura colonial. Em Mapa de Lopo Homem, um corte suturado atravessa um mapa colonial, indicando que a violência da conquista permanece latente e insuperável.
Através da paródia, ambas as artistas revisitam imagens consagradas, abrindo fissuras nas narrativas dominantes e propondo novas leituras sobre memória, identidade e resistência.
-
Memórias de açúcar e sal
Nesta sala, as obras de Adriana Varejão e Paula Rego exploram as marcas da violência colonial e os seus desdobramentos na construção de identidades. Em Testemunhas oculares X, Y e Z, Varejão dialoga com as pinturas de castas da colonização espanhola no México, explorando práticas classificatórias da época. Os seus três retratos – uma chinesa, uma indígena e uma moura – têm os olhos arrancados e dispostos como peça escultórica, remetendo à antiga crença da optografia, que supunha que a última imagem vista por alguém antes de morrer ficaria impressa na sua retina. O gesto investigativo da artista ressurge em Laparotomia exploratória III, onde a brutalidade do corte evoca a obsessão científica por dissecar e categorizar corpos.
A pintura Vasto mar de sargaços, de Rego – inspirada no romance homónimo de Jean Rhys –, ressoa com esta ideia de apagamento e violência, narrando o exílio e a anulação identitária de Antoinette, crioula descendente de europeus na Jamaica pós-colonial. Já em Comida e Passagem de Macau a Vila Rica, Varejão evoca os deslocamentos forçados pela colonização portuguesa, traçando conexões entre o Brasil e Macau. O título da sala sintetiza essa tensão entre prazer e dor, história e esquecimento, costurando as obras num testemunho sensível da permanência da história nos territórios e nas suas gentes.
-
Comemos, dançamos, matamos e misturamos
Nesta sala, uma pequena pintura de Paula Rego causa forte impacto, sobretudo pelo título: Quando tínhamos uma casa de campo dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar os pretos. Direta e perturbadora, a obra escancara a brutalidade do racismo, um tema raramente abordado com tal sinceridade na sua trajetória. Já em Mãe, a artista retrata uma jovem mulher mestiça ao lado de uma figura masculina que repousa a mão sobre o seu seio, insinuando as dinâmicas de poder e submissão dentro do espaço doméstico.
Com a série Polvo, Adriana Varejão investiga dinâmicas raciais no Brasil a partir de um censo governamental de 1976, que permitiu aos cidadãos autodeclararem a sua cor de pele. Os resultados dessa consulta, ao mesmo tempo absurdos e reveladores, deram nome às tintas criadas pela artista. A fechar a sala, o tríptico Carga humana, de Rego, convida-nos a refletir sobre a fragilidade e a instabilidade da condição humana. A obra mistura narrativas de género, opressão e desigualdade.
-
Câmara de ecos
Esta é a sala onde o conceito de tempo, passado e presente, revela camadas de significado e subversão em ambas as artistas. Somos convidados a parar e a entrar num lugar sem tempo definido, um labirinto de grelhas e portas que criam a ilusão geométrica de perspetiva.
As obras de Adriana Varejão – O sedutor e O obsessivo – apresentam espaços à primeira vista vazios, mas que carregam uma densa energia psicológica, insinuando presenças. A flutuar num fundo azul, um retrato nu de Paula Rego realizado pelo seu marido, Victor Willing, aparece invertido. A artista apropria-se do verso desta tela para pintar Banho turco, uma reinterpretação crítica da obra homónima de Ingres, em que Rego utiliza colagens para manifestar e reivindicar precocemente questões feministas.
-
Rituais de limpeza
Nesta sala dedicada à exibição de obras gráficas – gravuras e litografias a preto e branco –, a violência emerge como tema predominante. Nas obras de Adriana Varejão somos confrontados com espaços aparentemente desabitados e assépticos, envoltos num silêncio gelado, mas impregnados de impurezas, fluídos corporais e detritos humanos, como cabelos e sangue.
Em Sem título, série inominável pelo tema abordado, Paula Rego retrata mulheres em situação de consumação de aborto, atos sacrificiais praticados em ambientes domésticos e escondidos. Este conjunto de gravuras, de forte teor político, foi concebido com o propósito de democratizar o acesso a estas imagens, num gesto de indignação pelo resultado do referendo sobre a legalização do aborto em Portugal em 1998.
-
Extirpações
As obras aqui reunidas abordam temas relacionados com o corpo, o sofrimento, a cura e a dualidade entre interior e exterior. Tríptico, de Paula Rego, da emblemática série sobre o aborto, leva o visitante à reflexão acerca dos direitos da mulher sobre o seu corpo. A artista realizou estas telas na década de 1990, também como forma de denunciar a dimensão clandestina que a proibição do aborto acaba por provocar. Essa temática é pertinente até aos dias de hoje em todo o mundo, em que o poder masculino continua a ditar, em grande medida, as decisões sobre questões sensíveis relativas aos direitos reprodutivos das mulheres.
Fazendo uso de instrumentos hospitalares, as duas obras de Adriana Varejão da série Extirpação do mal formam uma espécie de pintura-instalação, explorando procedimentos terapêuticos e de purificação. Estas obras estabelecem uma conversa empática e vigorosa com as pinturas de Rego, uma vez que ambas tensionam a relação entre violência e possibilidades de regeneração. Já em Azulejaria verde em carne viva, os ordenados azulejos são brutalmente rasgados e as camadas internas extravasam para o espaço, criando um forte impacto visual e revelando um interior orgânico vivo, revolto e caótico.
-
Faca amolada
As obras Anjo e Esfolada, de Paula Rego, e o tríptico Parede com incisões à la Fontana, de Adriana Varejão, compartilham entre si a temática do corte, explorando simbolismos de violência, revelação e transformação. Enquanto Anjo apresenta uma poderosa figura feminina, que empunha uma espada e segura uma esponja – símbolos ambíguos que remetem simultaneamente ao corte e à limpeza, à justiça e ao sacrifício –, Varejão faz referência aos cortes em obras realizadas pelo artista Lucio Fontana, carregando-os de uma dimensão visceral e histórica ausente na obra do artista argentino-italiano.
Assim como a esponja na mão do Anjo poderia limpar o sangue que a faca fez jorrar, os azulejos evocam a frieza de espaços de assepsia e domínio – hospitais, cozinhas, salas de tortura. Ambas as obras falam, portanto, da violência como elemento estruturante e da tensão entre destruição e regeneração. O Anjo de Rego pode ser visto como a mão que fere e, ao mesmo tempo, como aquela que se prepara para limpar ou curar – um duplo gesto que ressoa nos cortes cirúrgicos de Varejão.
-
Dentro do quarto, fora de mim
Uma mulher vestida de branco na tela Noiva, de Paula Rego, olha fixamente aqueles que entram nesta sala. O seu olhar, tão enigmático quanto indecifrável, não nos permite entender o seu estado psíquico nem tão pouco dá pistas sobre a dimensão temporal em que se encontra. Encontramo-la antes ou após uma cerimónia de casamento? A complexidade narrativa sugerida por Rego nesta pintura também está presente nas suas telas Esgravatando e Cinta. São mulheres retratadas em ambientes escuros, pouco revelados ao observador, lugares deveras claustrofóbicos.
A obra Renda Renascença, trabalho inédito de Adriana Varejão realizado para esta exposição, referencia o tecido usualmente utilizado em vestidos de casamento e remonta ao padrão de uma renda brasileira com raízes europeias. Associado à delicada pintura da renda, há uma silenciosa explosão no craquelé da pintura. Ruína modernista I, também de Varejão, intensifica, através do teatro da carne, a tentativa de dar voz aos gritos abafados de cada uma das mulheres aqui reunidas.
-
Corpo em transe
Em Possessão, Paula Rego apresenta uma mulher em diferentes posições sobre um divã, remetendo à iconografia da histeria na medicina do século XIX, quando mulheres eram diagnosticadas e tratadas por médicos que associavam as suas reações corporais a um suposto descontrole emocional. A obra questiona esse olhar patologizante e masculino sobre o corpo feminino, transformando a mulher retratada num sujeito ativo, que desafia a sua própria representação. O corpo deixa de ser mero objeto de estudo e torna-se um território de resistência e ambiguidade, tensionando as fronteiras entre opressão e autonomia, fragilidade e força, submissão e revolta.
Esse embate entre contenção e excesso reaparece nas Línguas de Varejão. O azulejo português, símbolo de ordem e civilização na arquitetura colonial, é violentamente rasgado, revelando camadas internas de tinta espessa que remetem à carne viva. A língua, órgão do corpo associado tanto à fala quanto ao desejo, irrompe do plano rígido e decorativo da superfície, atravessando a fronteira entre o contido e o expressivo
-
Reconfigurando o sagrado
O azulejo barroco português, elemento central na produção de Adriana Varejão, aparece nesta sala em três importantes obras de sua autoria. Em Proposta para uma catequese: morte e esquartejamento, a artista recria cenas do período colonial, mas subverte a história oficial ao misturar elementos da catequese cristã com referências à cultura indígena e à antropofagia. Nessas obras vemos imagens de um Cristo amarrado e cercado por indígenas, sugerindo uma inversão da narrativa da conversão forçada. Desse modo, Varejão realiza uma reviravolta simbólica radical da narrativa colonial: em vez de os indígenas absorverem passivamente a fé europeia, são eles que «devoram» – literal e culturalmente – os símbolos do colonizador.
As três telas de Paula Rego da série de estudos para O jardim de Crivelli aprofundam o diálogo sobre a azulejaria portuguesa e subvertem narrativas bíblicas recorrentes na obra de Carlo Crivelli – pintor renascentista que inspirou o grande painel criado por Rego para a National Gallery, Londres (1990–91). Nestas pinturas, figuras femininas inspiradas tanto em personagens bíblicos como em pessoas próximas à artista são inseridas num cenário que funde influências renascentistas e a cultura portuguesa. A obra destaca-se pela maneira como a artista humaniza estas cenas religiosas, trazendo-as para um contexto mais pessoal e contemporâneo.
-
Apesar de você
Esta sala reconduz-nos à cena inaugural desta exposição, um ambiente pequeno e forrado com o papel de parede criado por Adriana Varejão, onde se sinalizam as feridas dos regimes de opressão. Estes dois momentos operam como marcos cronológicos que conectam Portugal e Brasil em diferentes períodos históricos. Enquanto a primeira sala assinala a colonização portuguesa no Brasil, esta estabelece uma aproximação temporal, remetendo para os governos autoritários que marcaram a história recente de ambos os países.
As artistas intervêm de forma incisiva, revelando nas suas obras críticas políticas a esses regimes. Paula Rego retrata Salazar a vomitar a Pátria, uma imagem visceral que denuncia a opressão do regime. Adriana Varejão apresenta Ruína Brasilis, uma coluna robusta e estável nas cores da bandeira brasileira, que começa a ruir pelo topo, símbolo do colapso de uma estrutura política. As obras refletem sobre a desconstrução dos símbolos nacionais e a resistência artística frente à opressão política. O título da sala faz menção a uma canção do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque que se perpetuou até aos dias atuais como um hino contra a ditadura militar brasileira, ocorrida entre 1964 e 1985.
-
Criaturas extraordinárias
Nesta sala somos confrontados com a frágil fronteira entre o mundo humano e o animal, onde as hierarquias de espécie se dissolvem. As obras expõem figuras híbridas, como os Minotauros – corpos humanos com cabeça de animal – em diálogo com a série Azulejaria de cozinha de Adriana Varejão. Nessas telas, pedaços de corpos humanos e de animais pendem sobre a tradicional azulejaria portuguesa, baralhando os limites entre carne e identidade.
A fusão entre humano e animal também se manifesta em Espantalho e porco e na encenação que serviu de modelo à tela, realizada por Paula Rego no seu ateliê, na qual os adereços cénicos reforçam essa transformação simbólica. Encerrando a sala, um retrato de Varejão nua e grávida na floresta no Rio de Janeiro, com a cabeça de um animal, remete para um ritual enigmático. Com forte carga teatral, a imagem encena um limiar entre corpo, natureza e metamorfose, reafirmando a tensão entre o domesticado e o selvagem.
-
Mar, onde sou a mim mesma devolvida em sal, espuma e concha
O título desta sala presta tributo à poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, onde o mar aparece como um lugar de origem e dissolução, de encontro e perda. Separados por um oceano, é justamente na sua travessia que Portugal e Brasil se cruzam e as suas histórias se entrelaçam. A construção da identidade brasileira foi em parte moldada pelos vestígios e restos devolvidos por este mar que, aqui, assume o papel central da narrativa.
As duas artistas dialogam com o ceramista português Raphael Bordallo Pinheiro, tanto nos pratos ornamentados de Varejão como no figo aberto de Paula Rego. A representação de sereias e outras figuras femininas ligadas ao mar, bem como de animais marinhos, também surge como ponto de encontro entre as suas criações. Enquanto Rego desconstrói a imagem das mulheres-sereia, rompendo com a ideia de sedução e objetificação, Varejão apresenta as figuras femininas como símbolos de força, nascimento e vitalidade.
Entre sal, espuma e conchas, esta sala constrói-se como um espaço onde a água carrega histórias fragmentadas e corpos que flutuam entre o real e o imaginado.
Publicações
Biografias
-

Paula Rego
Paula Rego (1935, Lisboa, Portugal – 2022, Londres, Reino Unido) foi uma das artistas da arte figurativa contemporânea mais influentes do mundo. As suas pinturas foram alimentadas pelas mais diversas fontes, incluindo a literatura, a política, o feminismo, os contos populares, os mitos e os contos de fadas, expondo facetas ocultas das suas narrativas. Intolerante para com os regimes ditatoriais, na sua obra Paula Rego explorou as relações humanas, lançando um olhar crítico sobre a ordem estabelecida e os códigos, estruturas e dinâmicas de poder que consolidam ou reprimem as personagens que retratava. A artista foi pioneira na abordagem de temas relacionados com as questões de género e a perseverança feminina. Entre as obras mais significativas sobre estes temas contam-se a série Mulheres-Cão, iniciada em 1994, e a série Sem título, dedicada ao aborto (1998–99), que terá influenciado o sucesso do segundo referendo sobre a legalização do aborto em Portugal, em 2007.
-

Adriana Varejão
Adriana Varejão (1964, Rio de Janeiro, Brasil) é uma das mais importantes artistas brasileiras da atualidade, sendo reconhecida internacionalmente pela sua linguagem visual inconfundível, marcada por elementos barrocos que se caracterizam pela paródia, paradoxo, tensão e excesso. Frequentemente, as suas obras dissolvem fronteiras entre registos artísticos: pinturas com elaborados relevos escultóricos que irrompem da tela ou esculturas pintadas de forma teatral, ao mesmo tempo que abordam temas que desafiam premissas amplamente aceites sobre arte e cultura. Desde a década de 1990 que o seu trabalho tem suscitado debates críticos sobre narrativas decoloniais, explorando a violência, o erotismo e o pluralismo da historia do Brasil e as suas interligações com o resto do mundo.
-

Victor Gorgulho
Victor Gorgulho (1991, Rio de Janeiro) é curador e pesquisador. É licenciado em Jornalismo pela ECO-UFRJ e mestrando em Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Foi curador de exposições coletivas e individuais como Vivemos na melhor cidade da América do Sul, com Bernardo José de Souza (2016), Eu sempre sonhei com um incêndio no museu – Laura Lima & Luiz Roque (2018) e Os Monstros de Babaloo (2021). Foi também curador convidado da primeira edição do projeto Pivô Satélite (2020-21), com Diane Lima e Raphael Fonseca. Atuou como curador-chefe do Instituto Inclusartiz (2022-24) e atualmente é um dos convidados do programa ORGANISMO, organizado pelo TBA-21 – Thyssen-Bornemisza Academy, Madrid.
Ficha técnica
Curadoria
Adriana Varejão
Helena de Freitas
Victor Gorgulho
Cenografia
T+T PROJETOS
Daniela Thomas
Felipe Tassara
Maristella Pinheiro
Imagem principal
Vista da exposição © Pedro Pina
Mecenas da Nave e da Exposição
Mecenas da Exposição
A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através do formulário Pedido de Informação.