Três encadernações venezianas «com reentrâncias» do Museu Calouste Gulbenkian

Miriam Rampazzo 04 ago 2026 8 min
Neste texto, Miriam Rampazzo descreve o seu processo de investigação em torno de três encadernações da Coleção Gulbenkian produzidas no contexto do Renascimento veneziano.

A coleção do Museu Calouste Gulbenkian conta com três exemplares notáveis de encadernações venezianas «com reentrâncias». Este estilo luxuoso de encadernação reflete o impacto da arte islâmica na produção artística veneziana do século XVI. O nome em inglês (sunk-panel bindings) deriva dos compartimentos ligeiramente rebaixados nas pastas da encadernação, criados mediante a sobreposição de um cartão com motivos recortados  num cartão inferior sem recortes. Os planos em couro são estampados através de matrizes gravadas, e encontram-se ornamentados com apontamentos em ouro e delicados pormenores pintados à mão, evocando a laca persa. Apesar do tratamento e da decoração das pastas, a estrutura destas encadernações permanece tipicamente ocidental, bem como o seu conteúdo. De assinalar o facto de as três encadernações da coleção conterem ainda os textos originais para os quais foram produzidas: manuscritos  oficiais incluindo leis e regulamentos relacionados com alguns dos mais altos cargos da República de Veneza, os chamados dogali, geralmente enriquecidos por uma iluminura inicial.

A presente investigação foi realizada no âmbito do meu doutoramento (Venetian Sunk-panel Bindings: a Sixteenth Century Structure and Production, dissertação de doutoramento, University of the Arts London, 2025). A tese explora a estrutura e a decoração de cerca de 130 exemplos conhecidos de encadernações realizadas na Veneza renascentista, bem como o contexto histórico e cultural da sua produção. Procurei documentar e analisar de perto estas encadernações, não apenas com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o modo como foram executadas e sobre as suas características decorativas, mas também  com a intenção de sustentar o desenvolvimento de práticas de conservação respeitosas e bem informadas que preservem a integridade destas obras. Como conservadora-restauradora especializada em livros e manuscritos encadernados, apliquei metodologias de conservação provenientes dos campos da preservação do património artístico e da investigação em história do livro. Entre estas, incluem-se os modelos analíticos desenvolvidos pelo Ligatus Research Centre (University of the Arts London), particularmente os que foram utilizados para estudar bibliotecas e arquivos históricos. Comecei por criar documentação fotográfica pormenorizada de cada encadernação. Depois, examinei as superfícies sob luz rasante e ultravioleta, e usei um microscópio digital para estudar as técnicas de produção e identificar vestígios de restauros anteriores.

A encadernação mais antiga da coleção foi realizada em 1571 e contém o juramento de Francesco Priuli, quando este se tornou procurador da igreja de São Marcos de supra (inv.  LA140). As folhas em pergaminho, elegantemente caligrafadas e decoradas, foram cosidas em quatro nervos. Para enriquecer a lombada, foram acrescentados cinco nervos falsos, puramente decorativos, criando a ilusão de que a encadernação foi cosida em nove nervos. Os cortes do miolo encontram-se dourados e cinzelados, enquanto o requife foi costurado em fios de seda azuis e amarelos alternados. A influência da arte islâmica é claramente visível na utilização de uma composição na qual estas reentrâncias se localizam no centro e nos cantos dos planos: cada pasta inclui um medalhão central polilobado com  dois pendentes, um  na extremidade superior e ou outro na inferior, bem como quatro cantos. Surpreende o facto de, ao contrário das outras duas encadernações venezianas «com reentrâncias» presentes na coleção, as pastas desta encadernação, bastante pesadas, parecerem ser constituídas por madeira, além de as suas extremidades serem chanfradas.

As pastas e a lombada são cobertas por couro, mas não é claro se este revestimento se estende para as bordas das pastas. Uma característica que se destaca, claramente inspirada nos objetos islâmicos lacados, é a aplicação de uma camada de azul intenso sobre uma base branca, tanto na superfície da lombada como na das pastas. Sobre este revestimento azul foi pintado, a ouro e a cores, um delicado padrão de elegantes ramos, florões e arabescos, inspirado nas tradições artísticas do mundo islâmico, com pormenores adicionais de gofragem, e uma cercadura com motivos grotescos extraídos do repertório decorativo ocidental, fundindo-se assim as duas culturas visuais.

As reentrâncias foram estampadas através de matrizes gravadas com motivos como ramos florais, arabescos, o leão de São Marcos e o brasão dos Priuli, igualmente dourados e pintados com cores vivas. Finalmente, a aplicação de verniz dá à encadernação uma aparência de acabamento em laca. Conferindo uma riqueza ainda maior ao conjunto, as contracapas dos planos foram forradas a couro, numa imitação da doublure de estilo islâmico. Este revestimento das contracapas foi também estampado através de matrizes gravadas, dourado e totalmente envernizado, completando o efeito luxuoso do livro.

Outra encadernação da coleção inclui a comissão a Zuanne Lippomano para servir como capitão de Cândia (atual Creta), em 1598 (inv. LA151). Trata-se de um exemplar impressionante, notável pela utilização de incrustações de madrepérola. As folhas em pergaminho e as guardas em papel foram cosidas em quatro nervos de couro que atravessam as pastas. Os requifes foram trabalhados alternando fios de seda vermelhos e creme sobre uma base de couro, e os cortes foram dourados e cinzelados. Vestígios do fio de seda original, entrançado com fio de metal, outrora usado para fixar o selo ao documento, podem ainda ser vistos ao longo da lombada, bem como resquícios de fitas de seda usadas para fechar o livro.

Cada pasta é constituída por três camadas de cartão, a fim de acomodar reentrâncias mais profundas e criar a espessura necessária para as incrustações de madrepérola. A disposição destes compartimentos rebaixados é particularmente elaborada: um motivo em forma de cartela apontando em sentido ascendente e em sentido descendente, um retângulo com cantos lobados e um medalhão central circular. Na superfície do cartão recortado, são ainda visíveis marcas de tinta preta ou grafite, provavelmente resultantes de uma técnica de transferência dos motivos.

Os relevos e as extremidades dos planos, assim como a lombada, encontram-se revestidos a couro e foram completamente dourados a folha de ouro. Sobre toda a superfície da lombada e das pastas, incluindo nas incrustações de madrepérola, foi pintado um delicado padrão de flores e arabescos, a preto, vermelho, azul, verde e dourado.  O leão de São Marcos e  o brasão de Lippomano foram pintados nos medalhões centrais. Por fim, toda a superfície da encadernação foi envernizada, conferindo-lhe um acabamento polido.

A última encadernação do grupo contém o juramento de Andrea Sanudo aquando da sua nomeação como conselheiro ducal, em 1598 (inv. LA200). Embora este exemplar tenha aparentemente seguido o modelo mais típico encontrado nas encadernações  venezianas «com reentrâncias», a cercadura retangular ao longo das extremidades de cada pasta parece ser uma característica única entre os exemplos conhecidos.

Em vez de incorporar compartimentos rebaixados ao longo das margens dos planos, esta encadernação foi ornamentada com quatro aplicações de couro que formam uma cercadura contínua. Estas aplicações parecem ter sido cortadas a partir de uma única peça de couro previamente estampada através de uma ampla matriz gravada com elementos florais. É possível reconstruir digitalmente o desenho exato gravado na superfície da matriz, o que levanta questões sobre se outras obras venezianas terão sido decoradas com o mesmo motivo, ou se este foi especificamente concebido para ser utilizado em encadernações.

Outro pormenor notável é a preservação das iluminuras iniciais, pintadas em duas folhas que se ladeiam e originalmente protegidas por um pedaço de tecido vermelho liso inserido entre ambas para evitar abrasão. Não se trata, todavia, de um bifólio, sendo a primeira uma folha única parcialmente colada à guarda de papel anterior e com a fixação reforçada por uma costura. Encontrar esta estrutura ainda intacta é um fenómeno raro que nos proporciona uma perspetiva valiosa sobre a fascinante riqueza material que caracteriza a arte da encadernação.

Estas encadernações são exemplos estilísticos extraordinários e refletem claramente o gosto refinado de Gulbenkian como colecionador. Os Arquivos Gulbenkian incluem uma correspondência fascinante entre Calouste Gulbenkian e o seu agente, Henri Leclerc, discutindo o seu interesse em adquirir duas destas encadernações durante a venda de Beaux Manuscrits, Incunables et Riches Reliures da Coleção Engel-Gros, realizada a 2 de junho de 1921. Durante a minha investigação, interessei-me particularmente pela documentação relacionada com esta venda, uma vez que outra encadernação veneziana “com reentrâncias” foi descrita como estando disponível. Infelizmente, a comissão de Gabriele Canal para servir como proveditore, de 1562, não foi adquirida por Calouste Gulbenkian, não tendo sido possível identificar a sua localização exata, o que será merecedor de pesquisas suplementares.

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