Na colina de Montmartre
As imagens de Montmartre na coleção de livros e pinturas de Calouste Gulbenkian
A coleção de livros modernos de Calouste Gulbenkian inclui 400 edições impressas francesas. Paris encontra-se assim omnipresente, tanto pelas editoras como pelos relatos e ilustrações que foram, juntamente com as encadernações, o principal motivo de aquisição por parte do colecionador. Embora grande parte desta coleção responda a uma exigência latente de «beleza clássica», plenamente assumida por Gulbenkian, podemos também detetar nela a presença discreta, mas numerosa, de temas mais licenciosos e modernos. A colina de Montmartre, um importante marco da vida cultural e festiva de Paris entre finais do século XIX e o início do século XX, encontra-se, obviamente, incluída: como explicar a difusão das suas imagens nesta coleção?
Os livros raros adquiridos por Gulbenkian incluíam numerosas obras onde figuras femininas e o amor surgiam em intrigas ligeiras e burlescas, de tom francamente misógino. Encontramos nestes a qualidade que, segundo o seu genro, Kevork Essayan, constituiu a motivação mais poderosa das suas aquisições: «O gosto pela plástica feminina e a sua representação multifacetada na arte»[1].
Deste modo, nas obras adquiridas no início da sua coleção de livros, como L’année féminine, les parisiennes d’à présent, Montmartre é acima de tudo um leitmotiv parisiense, entre outros, propício a representações de mulheres e dos costumes burgueses. No final do século XIX, aquele bairro, recentemente anexado a Paris, era muito apreciado, simbolizando a transição da cidade para o campo, do trabalho para o entretenimento, e favorecendo o repouso dominical entre os bailes e tabernas que ali surgiram por essa altura.
A Exposição Universal de 1900 difundiu internacionalmente o mito desta Babilónia moderna, capital dos prazeres e das «raparigas de Paris». Foi então a literatura, a música popular, as revistas e as artes plásticas que promoveram a circulação deste imaginário, que perdurou até meados do século XX, quando Gulbenkian enriqueceu a sua coleção. Nas décadas de 1920 e 1930, este interesse temático destacou-se particularmente nas suas aquisições: Paris dansant, Les dimanches parisiens, Paris au hasard, Paris qui consomme, Paysages parisiens… obras que incluíam, todas elas, imagens de Montmartre.
Foi a partir de 1917 que as escolhas do Colecionador se tornaram mais bibliófilas, deixando, então, de realizar as suas aquisições em livrarias e passando a privilegiar as vendas públicas e confiando os seus interesses ao livreiro Henri Leclerc até 1922 e, posteriormente, ao seu sucessor, Louis Giraud-Badin. Neste contexto, manifesta-se um gosto pronunciado por edições de luxo de produções com origens populares. Os seus dois exemplares de Cours de danse fin de siècle são disso perfeito exemplo.
O grande sucesso desta série de artigos sobre o cancã, publicada no jornal Gil Blas, em 1891, levou um conjunto de bibliófilos a fazerem dela uma edição de luxo, de muito poucos exemplares, destinada a um público burguês culto. O volume adquirido por Gulbenkian em 1920 apresenta uma encadernação em couro lavrado, realizada por George Canape, onde se encontram representados o Moulin Rouge e o moinho de Blute-Fin. Gulbenkian devia apreciar particularmente esta encadernação uma vez que, em 1935, contrariou o conselho do seu intermediário, Giraud-Badin, de livrar-se deste exemplar para comprar outro [2].
Entre as edições de luxo e livros raros colecionados por Gulbenkian, são numerosas as ilustrações de artistas que frequentavam Montmartre. É o caso, nomeadamente, de Louis Legrand, que durante muito tempo fez do Moulin Rouge o seu ateliê. Gulbenkian adquiriu vários exemplares das suas duas obras mais conhecidas, Cours de danse fin de siècle e Faune parisienne. Ambas as obras constituem estudos «naturalistas» sobre prostitutas, entre outras criaturas constituintes da «fauna» parisiense, um tema recorrente na coleção de Gulbenkian. Mencionemos ainda Adolphe Willette, fundador do Le Chat Noir, cuja obra Paris dansant é uma pérola da coleção.
A encadernação de Carayon, conhecido pelas suas capas decoradas com aguarelas originais assinadas por artistas, e de quem o colecionador possuía vários exemplares, apresenta uma aguarela de Willette, que terá certamente seduzido Gulbenkian. Em La Vie Artistique – obra que integra o acervo da Biblioteca de Arte Gulbenkian – Gustave Geffroy associa Willette aos pintores das festas galantes do século XVIII, encontrando nas suas obras «um pouco da alegria atrevida de Boucher e do prazer melancólico de Watteau, um pouco das roupagens e da libertinagem dos pequenos mestres que sabiam tão bem amarrotar os vestidos e aguçar os olhares das coquetes» [3]. Decerto, esta sensibilidade não deixaria indiferente aquele que colecionava apaixonadamente as obras de Boucher, Fragonard e Lancret.
A única exceção nesta coleção de livros modernos é La vie à Montmartre, escrito por Georges Montorgueil e ilustrado por Pierre Vidal. Na lista de lotes da venda de Henri Béraldi, em 1935, na qual Gulbenkian participou por intermédio de Giraud-Badin, esta obra acha-se riscada a lápis cinzento, como o Colecionador costumava fazer para os lotes que não lhe interessavam.
Uma nota manuscrita menciona, todavia, que «O n.º 149 da Venda Béraldi (Montorgueil, La Vie à Montmartre) foi também adquirido» [4]. Trata-se certamente de uma mudança de opinião tardia, devida talvez ao conselho sábio de Giraud-Badin. Gulbenkian acabou, então, por adquirir o único livro da sua coleção dedicado a Montmartre. O catálogo da venda menciona, entre as indicações mais banais e habituais, que se trata de um «livro documental muito curioso»; é também conhecido o gosto de Gulbenkian por este tipo de temas iconográficos e pelas ilustrações de Pierre Vidal, presentes em outras oito obras da sua coleção.
Duas pinturas completam este conjunto restrito de livros que representam especificamente a colina de Montmartre e as suas atividades. Trata-se de duas obras de Stanislas Lépine, paisagista francês da segunda metade do século XIX, aluno de Corot, que o Colecionador considerava um dos seus favoritos. Manhã de Primavera e A Rua Saint-Vincent em Montmartre representam o bairro parisiense onde o artista viveu desde a sua juventude. Gulbenkian escreveu ser sensível à representação da realidade urbana pelo artista, para quem as ruas de Paris se constituíam como crónica da vida quotidiana da capital nas últimas décadas do século XIX .
Na sua correspondência, o Colecionador qualifica-o, inclusive, de «mestre». É de referir que A Rua Saint-Vincent em Montmartre foi a última pintura adquirida pelo Colecionador, em junho de 1953, apesar de afirmar que «o meu interesse por obras de arte permanece muito vivo» [5] e que, oito dias depois de comprar esta pintura de Lépine, se recusou a comprar outra obra do mesmo artista, afirmando: «Não desejo esta pintura, a não ser que seja excecional e muito agradável» [6].
Esta última aquisição foi, como tal, realizada em plena consciência pelo Colecionador, com a exigência qualitativa que caracterizaria, para si, esta paisagem. A obra é mencionada da seguinte forma no contrato de compra e venda: «La rue saint-Vincent (o pintor, a sua mulher e a sua filha)». Gulbenkian terá, como tal, escolhido uma tela que representa o pintor que admirava, tornando assim esta última compra ainda mais especial.
Apesar da sua abordagem «clássica» à arte e da falta de interesse tácita por parte de Calouste Gulbenkian pelo bairro parisiense, Montmartre beneficiou de uma ampla divulgação entre bibliófilos e paisagistas do século XIX, prova da influência cultural da colina no resto da paisagem parisiense até meados do século XX.
[1] Azeredo Perdigão, Calouste Gulbenkian Collectionneur, Presses Universitaires de France, 1969, p. 19.
[2] Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, 18 de junho de 1935, PT FCG CSGPCG-S004-P0040151.
[3] Gustave Geffroy, La Vie Artistique, 1893, Paris, Dentu, segunda série, p. 142.
[4] Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, 11 de junho de 1935, PT FCG CSGPCG-S004-P0040151.
[5] Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, 18 de janeiro de 1953, PT FCG FCGMCG-S002-P0004.
[6] Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, 18 de junho de 1953, PT FCG FCGMCG-S002-P0004.