O Colecionador em Viena: Uma Viagem de Estudo
Visitante assíduo dos museus de Londres e Paris, cidades onde viveu grande parte da sua vida, Calouste Gulbenkian decidiu, em 1933, que, para consolidar a sua formação artística, era indispensável regressar às galerias de arte de uma capital europeia amplamente conhecida pela sua riqueza cultural: Viena.
A viagem para a capital austríaca ocorreu em outubro de 1933, a bordo do Expresso do Oriente, o emblemático comboio de longa distância inaugurado cinquenta anos antes. Do percurso, com início em Paris, Gulbenkian recordou com especial entusiasmo o trajeto entre Munique e Salzburgo, destacando a singularidade da beleza natural da região do Arlberg. A sua marcada admiração por paisagens explica que, nesta mesma ocasião, tenha manifestado o desejo de percorrer novamente este trajeto, numa outra oportunidade, de carro, partindo de Zurique.
Chegado a Viena, o Colecionador instalou-se no Hotel Bristol, idealmente situado no cruzamento entre a Ringstraße e a Kärtnerstraße, no coração da cidade, ocupando um quarto muito luminoso e com vista para o edifício da Ópera. Apesar da agitação e do ruído típicos de uma localização central, o histórico hotel de luxo oferecia todas as comodidades de um hotel moderno, correspondendo plenamente aos elevados critérios do viajante. O mesmo não aconteceu com o popular restaurante Schöner, onde jantou antes de assistir a um espetáculo no Cabaret Femina, apontando, como exigente gourmet, que as melhores refeições eram servidas pelos estabelecimentos burgueses e tipicamente vienenses.
Ao longo da sua estadia de cinco dias, Gulbenkian visitou os principais museus e monumentos da cidade, uma prática que, desde cedo, encarou como uma importante forma de instrução, juntamente com a constituição de uma fabulosa biblioteca e de lições e conversas com especialistas. Nesta ocasião, o Colecionador teve a companhia do historiador de arte Leo Planiscig, especialista em Renascimento italiano, com quem visitou o Museu Kunst und Industrie e o Kunsthistorisches Museum.
Nesta viagem, Gulbenkian teve oportunidade de observar diretamente obras de arte que conhecia apenas através de publicações e fotografias. As observações registadas no seu diário de viagem, bem como nos catálogos anotados, revelam um olhar crítico apurado e independente, marcado pelo seu gosto pessoal e pela notável capacidade de identificar a qualidade intrínseca das peças, independentemente das tendências ou convenções artísticas dominantes.
Assim aconteceu com um célebre tapete safávida da coleção da família Clam-Gallas, mencionado em várias publicações de referência que faziam parte da sua biblioteca, como o Vorderasiatische Knüpfteppiche aus älterer Zeit, um estudo sobre tapetes orientais de nó da autoria de Wilhelm von Bode e de Ernst Kühnel. Efetivamente, embora sem deixar de considerar que se tratava de uma obra magnífica, o Colecionador viria a classificar a repetição dos elementos decorativos – que, aliás, tornam este tapete único, com o campo central decorado com escudos estilizados e quadrifólios – como demasiado monótona. Concluiu, assim, que «O tapete é notável, mas não corresponde ao meu gosto atual, e a aquisição não me interessaria.»
A maior desilusão ocorreu, porém, na visita ao Palácio Liechtenstein, perante duas pinturas que ansiava ver pessoalmente: o Retrato de Willem van Heythuysen, de Frans Hals, que classificou como «um pouco triste», e o Retrato de Albert e Nicholas Rubens de Peter Paul Rubens. Sobre o retrato dos filhos do mestre flamengo, tendo invariavelmente a sua coleção como referência, assegurou que não o trocaria pelo seu Rubens, ou seja, o Retrato de Helena Fourment, uma das suas principais conquistas. Na mesma linha, revelou interesse por uma cópia de outra obra da sua coleção: a Figura de Ancião, de Rembrandt, reproduzida, como outras obras do mestre, por Salomon Koninck.
No Kaiserliche Schatzkammer, deparou-se com o que pensou ser o original de um guéridon da sua coleção: uma mesa de três pés, com a parte superior em forma de bacia sustentada por esfinges aladas, que teria sido utilizada como pia batismal do Rei de Roma, Napoleão II. A descoberta foi surpreendente, pois desconhecia completamente que, na realidade, possuía apenas uma cópia de qualidade inferior. Por esse motivo, ao regressar a Paris, contactou imediatamente Sir Robert Abdy, que lhe havia vendido, em 1929, a mesa em bronze dourado e lápis-lazúli como sendo uma obra de Bernard Molitor, e não uma cópia moderna. Indignado com a situação – e ignorando que a mesa do Tesouro Imperial de Viena também era uma cópia – chegou a negociar a sua devolução, mas acabaria por mantê-la na coleção.
Ao longo das visitas que realizou, o Colecionador demonstrou diferentes níveis de conhƒecimento e firmeza nas apreciações e juízos formulados. Para além da pintura, é notória uma particular confiança na análise de objetos de arte islâmica, em especial tapetes, mas não exclusivamente. Esta segurança também se manifestou na observação de manuscritos persas e árabes da Österreichischen Nationalbibliothek, em particular de um álbum (Muraqqa) destinado a um sultão otomano e de um manuscrito árabe no qual identificou uma influência chinesa. Por outro lado, perante os exemplares de ourivesaria religiosa do Kaiserliche Schatzkammer, assumiu, com plena franqueza, a sua falta de domínio do tema, concluindo que «Não sou suficientemente bom juiz para expressar uma opinião.»
Investido em dar continuidade aos seus estudos e reflexões no regresso a casa, o Colecionador adquiriu uma série de postais e fotografias das obras que mais o cativaram, tendo igualmente procurado obter fac-símiles da extraordinária coleção de desenhos do Museu Albertina. Afinal, as «duas horas extremamente interessantes» que ali passou, revelar-se-iam insuficientes face ao nível do seu fascínio pelas obras de Boucher, Fragonard, Rafael, mas, sobretudo, de Albrecht Dürer.
Embora algumas coleções, públicas ou privadas, não tenham impressionado o exigente colecionador, como aconteceu com o Museu Belvedere – «nada de extraordinário» –, Gulbenkian aproveitou também esta viagem para identificar potenciais novas aquisições para a sua coleção, tema do próximo artigo sobre esta memorável viagem a Viena.
Imagem no topo: A Ópera de Viena na Ringstraße entre 1890 e 1900. Library of Congress Prints and Photographs Division, LC-DIG-ppmsc-09236