O Colecionador em Viena: Uma Viagem de Estudo

Entre o encantamento e a desilusão de Calouste Gulbenkian perante as coleções públicas e privadas de Viena, a conservadora Vera Mariz analisa, neste artigo, os principais aspetos desta viagem do Colecionador.
Vera Mariz 13 mai 2025 6 min
As Viagens de Calouste Gulbenkian

Visitante assíduo dos museus de Londres e Paris, cidades onde viveu grande parte da sua vida, Calouste Gulbenkian decidiu, em 1933, que, para consolidar a sua formação artística, era indispensável regressar às galerias de arte de uma capital europeia amplamente conhecida pela sua riqueza cultural: Viena.

A viagem para a capital austríaca ocorreu em outubro de 1933, a bordo do Expresso do Oriente, o emblemático comboio de longa distância inaugurado cinquenta anos antes. Do percurso, com início em Paris, Gulbenkian recordou com especial entusiasmo o trajeto entre Munique e Salzburgo, destacando a singularidade da beleza natural da região do Arlberg. A sua marcada admiração por paisagens explica que, nesta mesma ocasião, tenha manifestado o desejo de percorrer novamente este trajeto, numa outra oportunidade, de carro, partindo de Zurique.

Cartaz «Orient Express», 1888. Gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France,
Cartaz «Orient Express». Gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France.

Chegado a Viena, o Colecionador instalou-se no Hotel Bristol, idealmente situado no cruzamento entre a Ringstraße e a Kärtnerstraße, no coração da cidade, ocupando um quarto muito luminoso e com vista para o edifício da Ópera. Apesar da agitação e do ruído típicos de uma localização central, o histórico hotel de luxo oferecia todas as comodidades de um hotel moderno, correspondendo plenamente aos elevados critérios do viajante. O mesmo não aconteceu com o popular restaurante Schöner, onde jantou antes de assistir a um espetáculo no Cabaret Femina, apontando, como exigente gourmet, que as melhores refeições eram servidas pelos estabelecimentos burgueses e tipicamente vienenses.

Ao longo da sua estadia de cinco dias, Gulbenkian visitou os principais museus e monumentos da cidade, uma prática que, desde cedo, encarou como uma importante forma de instrução, juntamente com a constituição de uma fabulosa biblioteca e de lições e conversas com especialistas. Nesta ocasião, o Colecionador teve a companhia do historiador de arte Leo Planiscig, especialista em Renascimento italiano, com quem visitou o Museu Kunst und Industrie e o Kunsthistorisches Museum.

«English Guide to the Prince Liechtenstein’s Gallery Vienna». Vienna, [192-]. Biblioteca de Arte Gulbenkian
«English Guide to the Prince Liechtenstein’s Gallery Vienna». © Biblioteca de Arte Gulbenkian.

Nesta viagem, Gulbenkian teve oportunidade de observar diretamente obras de arte que conhecia apenas através de publicações e fotografias. As observações registadas no seu diário de viagem, bem como nos catálogos anotados, revelam um olhar crítico apurado e independente, marcado pelo seu gosto pessoal e pela notável capacidade de identificar a qualidade intrínseca das peças, independentemente das tendências ou convenções artísticas dominantes.

Tapete «Clam Gallas». Herat (?), final do século XVI. MAK – Museum of Applied Arts, Vienna, T 9026. © Gerald Zugmann/MAK
Tapete «Clam Gallas». Herat (?). © Gerald Zugmann/MAK

Assim aconteceu com um célebre tapete safávida da coleção da família Clam-Gallas, mencionado em várias publicações de referência que faziam parte da sua biblioteca, como o Vorderasiatische Knüpfteppiche aus älterer Zeit, um estudo sobre tapetes orientais de nó da autoria de Wilhelm von Bode e de Ernst Kühnel. Efetivamente, embora sem deixar de considerar que se tratava de uma obra magnífica, o Colecionador viria a classificar a repetição dos elementos decorativos – que, aliás, tornam este tapete único, com o campo central decorado com escudos estilizados e quadrifólios – como demasiado monótona. Concluiu, assim, que «O tapete é notável, mas não corresponde ao meu gosto atual, e a aquisição não me interessaria.»

A maior desilusão ocorreu, porém, na visita ao Palácio Liechtenstein, perante duas pinturas que ansiava ver pessoalmente: o Retrato de Willem van Heythuysen, de Frans Hals, que classificou como «um pouco triste», e o Retrato de Albert e Nicholas Rubens de Peter Paul Rubens. Sobre o retrato dos filhos do mestre flamengo, tendo invariavelmente a sua coleção como referência, assegurou que não o trocaria pelo seu Rubens, ou seja, o Retrato de Helena Fourment, uma das suas principais conquistas. Na mesma linha, revelou interesse por uma cópia de outra obra da sua coleção: a Figura de Ancião, de Rembrandt, reproduzida, como outras obras do mestre, por Salomon Koninck.

No Kaiserliche Schatzkammer, deparou-se com o que pensou ser o original de um guéridon da sua coleção: uma mesa de três pés, com a parte superior em forma de bacia sustentada por esfinges aladas, que teria sido utilizada como pia batismal do Rei de Roma, Napoleão II. A descoberta foi surpreendente, pois desconhecia completamente que, na realidade, possuía apenas uma cópia de qualidade inferior. Por esse motivo, ao regressar a Paris, contactou imediatamente Sir Robert Abdy, que lhe havia vendido, em 1929, a mesa em bronze dourado e lápis-lazúli como sendo uma obra de Bernard Molitor, e não uma cópia moderna. Indignado com a situação – e ignorando que a mesa do Tesouro Imperial de Viena também era uma cópia – chegou a negociar a sua devolução, mas acabaria por mantê-la na coleção.

Página do diário de viagem de Calouste Gulbenkian com encadernação de um Evangeliário da coleção do Kaiserliche Schatzkammer. Diário de viagem de Calouste Gulbenkian, 1933. Arquivos Gulbenkian.
Página do diário de viagem de Calouste Gulbenkian com encadernação de um Evangeliário da coleção do Kaiserliche Schatzkammer. © Arquivos Gulbenkian

Ao longo das visitas que realizou, o Colecionador demonstrou diferentes níveis de conhƒecimento e firmeza nas apreciações e juízos formulados. Para além da pintura, é notória uma particular confiança na análise de objetos de arte islâmica, em especial tapetes, mas não exclusivamente.  Esta segurança também se manifestou na observação de manuscritos persas e árabes da Österreichischen Nationalbibliothek, em particular de um álbum (Muraqqa) destinado a um sultão otomano e de um manuscrito árabe no qual identificou uma influência chinesa. Por outro lado, perante os exemplares de ourivesaria religiosa do Kaiserliche Schatzkammer, assumiu, com plena franqueza, a sua falta de domínio do tema, concluindo que «Não sou suficientemente bom juiz para expressar uma opinião.»

Reprodução de desenho de Albrecht Dürer, «Das Allerheiligenbild». Diário de viagem de Calouste Gulbenkian, 1933. Arquivos Gulbenkian
Reprodução de desenho de Albrecht Dürer, «Das Allerheiligenbild». © Arquivos Gulbenkian

Investido em dar continuidade aos seus estudos e reflexões no regresso a casa, o Colecionador adquiriu uma série de postais e fotografias das obras que mais o cativaram, tendo igualmente procurado obter fac-símiles da extraordinária coleção de desenhos do Museu Albertina. Afinal, as «duas horas extremamente interessantes» que ali passou, revelar-se-iam insuficientes face ao nível do seu fascínio pelas obras de Boucher, Fragonard, Rafael, mas, sobretudo, de Albrecht Dürer.

Embora algumas coleções, públicas ou privadas, não tenham impressionado o exigente colecionador, como aconteceu com o Museu Belvedere – «nada de extraordinário» –, Gulbenkian aproveitou também esta viagem para identificar potenciais novas aquisições para a sua coleção, tema do próximo artigo sobre esta memorável viagem a Viena.

Imagem no topo: A Ópera de Viena na Ringstraße entre 1890 e 1900. Library of Congress Prints and Photographs Division, LC-DIG-ppmsc-09236

Série

As Viagens de Calouste Gulbenkian

De visitas a museus, monumentos e sítios históricos, da Europa ao Próximo Oriente, para consolidar a sua educação artística; a revigorantes estadias nas mais sofisticadas estâncias balneares e termas europeias, esta série acompanha Calouste Gulbenkian nas principais viagens da sua vida.
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