Mistério resolvido: o estudo erótico para «O Delírio» é de Antoine-Jean Duclos
A autoria desta sedutora ilustração – cuja sensualidade explícita terá certamente atraído Calouste Gulbenkian – permaneceu desconhecida durante anos. Inicialmente atribuída a Gabriel de Saint-Aubin (1724-1780), foi posteriormente creditada a Jean Michel Moreau le Jeune (1741-1814) aquando da sua mostra em European Master Drawings from Portuguese Collections/Desenhos de Mestres Europeus em Coleções Portuguesas (2000-2001), uma exposição itinerante organizada pelo meu marido, Nicholas Turner, e apresentada em Cambridge, no Fitzwilliam Museum; em Lisboa, no Centro Cultural de Belém; e no Porto, no Museu Nacional de Soares dos Reis. Quando a exposição chegou ao Museu do Prado, em Madrid, em 2002, a obra foi classificada como sendo de Clément Pierre Marillier (1740–1808), conforme sugerido por colegas do Fitzwilliam Museum, em Cambridge. Nenhuma destas hipóteses convenceu a conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, Manuela Fidalgo, que a catalogou como sendo de «autor desconhecido» quando, em 2014, foi apresentada na Fundação Gulbenkian, na exposição O Traço e a Cor: Desenhos e Aguarelas na Coleção Calouste Gulbenkian.
No contexto de uma nova exposição, intitulada Desenhos de Mestres Europeus em Coleções Portuguesas III: França, que inaugurou a 13 de dezembro de 2025 no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, de novo com curadoria do Nicholas, a minha tarefa como editora do catálogo foi atualizar um conjunto de entradas relativas a trabalhos já mostrados em 2000. Intrigada por este quebra-cabeças, recorri ao truque mais básico da História da Arte: converti um .jpeg do desenho para preto e branco, rodei-o na horizontal e pesquisei a imagem no Google. Eureka! Encontrei uma gravura que reproduzia o desenho em questão, que tinha sido apresentada recentemente num pequeno leilão em Paris (Magnin-Wedry, 6 de novembro de 2023, lote 4), identificada apenas como sendo de um gravador francês do século XVIII. Embora a imagem digital dessa gravura tivesse baixa resolução, consegui ler o seu título, Le Délire («O Delírio»), e a legenda que atribuía a criação do desenho a Antoine-Jean Duclos (1742-1795), conhecido gravador parisiense com uma limitada produção como desenhador.
Não consegui localizar nenhuma outra imagem online da gravura, porém, descobri que o Museu do Louvre possuía uma prova na sua coleção Rothschild (n.º inv. 17951 LR), apesar de esta não estar ilustrada no website do museu. O conservador responsável por esta coleção, Jean-Gerald Castex, teve a amabilidade de me enviar fotografias pessoais da legenda, referindo o criador como sendo A.J. Duclos; o editor como Chez Martinet, a livraria gerida por François Nicolas Martinet (1731-1800) na Rue du Coq Saint-Honoré, em Paris; e a gravadora como Jeanne Deny (1749-1836). No panejamento gravado abaixo da cena principal, registam-se os versos de uma canção de amor do poeta e dramaturgo Jean-Baptiste Rousseau (1670–1741):
Par un baiser ravi sur les lèvres d’Iris,
De ma fidèle ardeur j’ai dérobé le prix;
Mais ce plaisir charmant a passé comme un songe.
Ainsi je doute encore de ma félicité:
Mon bonheur fut trop grand, pour n’être qu’un mensonge
Mais il dura trop peu pour être une verité.
(«Com um beijo apaixonado nos lábios de Íris dado,
Da minha ardente devoção colhi o troféu;
Mas tal prazer gentil passou, como que sonhado.
Hesito assim em crer nesta felicidade:
Meu júbilo grande demais para ser inventado
Mas não tão longo para ser uma verdade.»)
A única outra gravura com o mesmo formato é Le Bouquet déchiré, na qual Duclos volta a ser referido como o criador e Martinet como o editor. Provas desta gravura são igualmente raras, encontrando-se uma no Art Institute of Chicago (n.º inv. 1926.959), e outra não publicada no acervo Rothschild do Louvre (n.º inv. 17950 LR) – graças à descoberta aqui divulgada, o Louvre entretanto fotografou e publicou imagens de ambas as gravuras de Duclos no seu website. No segundo caso, não é referido o nome do gravador. O texto de sete linhas de Ce jeune Dieu t’a comblé de richesses… é retirado do poema satírico Le Balai: Poème heroï-comique en xviii chants (1761) do abade excomungado Henri Joseph Dulaurens (1719-1793/97).
Isto, porém, foi apenas o início do trabalho colaborativo de investigação entre especialistas e conservadores que originou a resolução deste mistério. Ironicamente, conforme a conservadora do Museu Gulbenkian Ana Maria Campino viria a descobrir mais tarde, a verdadeira autoria e título do desenho eram perfeitamente conhecidos no momento em que Calouste Gulbenkian o adquiriu em 1932. Na sua pesquisa de proveniência, Ana Maria Campino concluiu que o desenho não fazia parte da venda do colecionador parisiense Alfred Beurdeley II (1847-1919) de 1905, conforme referido em bibliografia anterior, uma vez que tinha sido vendida por este ao Museu Stieglitz de Artes Decorativas e Aplicadas, em São Petersburgo, em 1888. A coleção daquele museu foi transferida para o Museu Hermitage em 1917, ou pouco depois, tendo o desenho sido incluído, corretamente catalogado, no lote 34 de uma venda de peças desincorporadas do Hermitage (Leipzig, C.G. Boerner, 4 de maio de 1932) – o qual foi adquirido por Gulbenkian por intermédio de Wildenstein. Não se sabe exatamente o motivo pelo qual as informações contidas no catálogo daquela venda foram quase imediatamente perdidas, pois o registo datilografado mais antigo nos Arquivos Gulbenkian já descreve o autor do desenho como inconnu(desconhecido). Seria Duclos tão pouco conhecido como desenhador que não se depositou confiança na descrição da venda? Efetivamente, apenas uma mão cheia de desenhos é atribuída com segurança a este artista (por exemplo, apenas dois no Louvre). Destes, o desenho pertencente à Coleção Gulbenkian é indiscutivelmente o melhor em termos de delicadeza do traço e de sofisticação na composição e no cenário.
Uma descoberta emocionante! E que gratificante saber que resolvemos tudo sozinhos. Mas a principal lição reside, certamente, na importância da colaboração, à imagem de Duclos e amigos, que trabalhavam juntos na Rue du Coq Saint-Honoré. Enquanto conservadores e historiadores de arte, contamos com todas as ferramentas ao nosso dispor, da Internet à nossa própria e dedicada comunidade de amantes e historiadores da arte. Brindemos, então, à cooperação.