O museu fora do armário: a possibilidade de outras vidas no museu

O dramaturgo André Murraças explora os imaginários da Antiguidade e da mitologia em busca de histórias «queer» escondidas nas obras da Coleção Gulbenkian, no segundo texto desta série.
André Murraças 20 mar 2025 5 min
O museu fora do armário

De forma a percebermos como podemos olhar as obras da Coleção Gulbenkian partindo da teoria queer, vamos aplicá-la em duas diferentes perspetivas. Num primeiro momento, presente neste texto, serão selecionadas obras que representam pessoas com identidades queer (fora da heteronormatividade). Num segundo momento veremos obras que não foram criadas intencionalmente com este conceito, mas que podem ser lidas, atualmente, à luz desta teoria.

Na exposição To be seen. Queer lives 1900-1950, no NS-Dokumentationszentrum, em Munique, um extenso arquivo de fotografias e documentos revelava as vidas de inúmeros cidadãos alemães que não puderam existir por completo nas suas identidades, muito afetadas pelas guerras do século passado e penalizadas pelos extremismos políticos e religiosos. Que pessoas foram estas que apenas queriam ser vistas como quaisquer outras? Se a arte revela a diversidade da natureza humana, podemos também encontrar representações dessas pessoas queer num museu? E estarão elas presentes no Museu Calouste Gulbenkian?

Comecemos na Antiguidade. Neste conjunto de medalhões adquiridos por Calouste Gulbenkian, estão representados Alexandre Magno (188-217) e o imperador Caracala (356-323 a. C.), casos pragmáticos de como, à época, as terminologias que hoje usamos relativas às identidades sexuais não existiam.

Robin Lane Fox, um dos biógrafos de Alexandre Magno, relata uma longa relação do herói macedónio com Heféstio, um aristocrata. Num medalhão observamos, sob a cabeça de Alexandre, um capacete decorado com a imagem de Ganimedes, descrito por Homero como «o mais belo dos mortais», e que foi raptado por Zeus para ser seu criado/companheiro. Este paralelismo não terá sido aleatório: a imagética mitológica poderá ter utilizada como forma de revelar algo mais privado sobre Alexandre.

Já o imperador romano Caracala, com conhecidas relações com outros homens, surge de lança ao ombro e escudo. Porque é relevante que estas pessoas estejam representadas? Porque não tendemos a ver pessoas queer em posições tão destacadas social e historicamente. É uma validação que podemos constatar ao olhar para trás.

A Coleção Gulbenkian possui um vasto conjunto de gemas. Numa delas vê-se o busto de Antínoo (111-130), que terá vivido uma história de amor com o imperador Adriano (76-138). Se muito sabemos sobre Adriano, pouco se conhece sobre Antínoo, exceto que o governante o acolheu como companhia para as suas viagens e conquistas. Antínoo viria a afogar-se no rio Nilo, em estranhas circunstâncias, especulando-se que teria sido um sacrifício em honra do soberano. As representações do jovem em gemas, medalhas e esculturas dão-nos uma imagem de ímpar perfeição. Assim acontece numa gema da Coleção Gulbenkian, com o perfil revelando um perfeito nariz, lábios carnudos, farto cair de caracóis e olhar imponente. Uma aparência que assombrou artistas, como Fernando Pessoa, que o homenageou no seu poema em inglês, Antinous:

Some will say all our love was but our crimes;
Others against our names the knives will whet
Of their glad hate of beauty’s beauty, and make
Our names a base of heap whereon to rake
The names of all our brothers with quick scorn.

Também Marguerite Yourcenar escreverá Memórias de Adriano inspirada na vida da dupla, e Oscar Wilde invocará Antínoo no seu O Retrato de Dorian Gray: «O que a invenção da pintura a óleo foi para os venezianos, e o rosto de Antínoo foi para a escultura grega tardia, o rosto de Dorian Gray sê-lo-á um dia para mim.»

Uma outra medalha do Museu apresenta o ateniense Aristogíton, protetor do jovem Harmódio, com quem vivia uma relação estável. Uma invídia política, por parte de outros cidadãos de Atenas, levou a dupla a planear o assassínio dos cobiçadores, mas o plano não correu como esperado. Harmódio foi morto por guardas, enquanto Aristogíton acabou torturado até à morte.  

Também as mitologias representadas em várias obras da Coleção Gulbenkian ajudam a espelhar estas outras realidades. Michael Langan tinha já chamado a atenção para a escultura Apolo, de Jean-Antoine Houdon, no hall de entrada do Museu, mas na coleção podemos ainda encontrar uma outra representação sua, numa gema. Apolo, deus do sol, amou mulheres e homens, nomeadamente Jacinto, um espartano invejado por Zéfiro, deus do vento do Oeste. Durante um treino de lançamento de discos entre Apolo e Jacinto, Zéfiro, consumido pela inveja, deslocou a rota do objeto, ferindo a cabeça de Jacinto, que acabou por morrer nos braços de Apolo.

É ainda interessante atentarmos a alguns dos livros que Calouste Gulbenkian adquiriu. Parte dessa literatura é divergente, opondo-se às ideias da época, descrevendo histórias com personagens à margem da sociedade, e assinada por figuras literárias transgressoras. É o caso da poeta Safo (610-570 a. C.), que encontramos também representada numa gema, junto com uma abelha e uma lira. Nascida na ilha de Lesbos, Safo deixou uma vasta mas fragmentada obra literária, descrevendo o amor entre mulheres. São poemas sobre a perda, o desejo e a desilusão, passados entre as paisagens do Mediterrâneo. Embora nos fale do amor entre mulheres, a maneira como Safo narra o turbilhão de sentimentos é universal. Esta gema corporaliza a sua existência enquanto pessoa queer e imortaliza a sua imagem. Ela e outros – tantos outros – são, como se vê, presenças mais do que ausências.

Série

O museu fora do armário

O que significa «queer»? E o que trata a teoria «queer»? Como é que esta pode ser aplicada no contexto dos museus? Nesta série, André Murraças, dramaturgo e responsável pelos projetos «O museu fora do armário» e «Queerquivo», responde a estas questões e explora as diferentes formas de leitura da Coleção Gulbenkian à luz desta teoria.
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