O lago egípcio: um diálogo entre o Jardim e o Museu
Imaginado pelos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles, o Jardim Gulbenkian é o primeiro ponto de contacto de quem visita a Fundação. Além de ser um elo de ligação entre o Edifício Sede, o Centro de Arte Moderna e o Museu Calouste Gulbenkian, o Jardim é também casa para vários bandos de aves que pousam à sombra dos carvalhos e eucaliptos.
Os visitantes que decidam caminhar em direção ao Museu poderão cruzar-se com o ganso-do-Egito. Facilmente reconhecível pela sua «mascarilha» castanha, plumagem cinzenta e castanha clara e patas cor-de-rosa, esta ave observa o visitante apressado a partir do lago artificial que se localiza entre a entrada do Museu e a lateral da galeria de exposições temporárias do Edifício Sede.
Concebido como um ambiente que remete para a vegetação das margens do Nilo, o lago alberga grupos desta espécie de gansos, lembrando a forte relação entre a natureza e a coleção do Museu Calouste Gulbenkian.
A ligação entre a flora, a fauna e a vida quotidiana do Egito foi objeto de numerosas representações ao longo da Antiguidade. Neste caso, a relação do lago com a flora egípcia remete para um objeto em particular. Trata-se de um fragmento de pintura mural do túmulo de Nebamun, datado da XVIII dinastia e hoje conservado no British Museum, em Londres. Esta pintura representa um jardim egípcio rodeado por várias espécies de árvores (entre as quais tamareiras, figueiras e plátanos), cujos frutos ou produtos eram utilizados para fabricar oferendas. A cena centra-se num lago onde nadam vários peixes e aves, entre os quais se podem reconhecer os gansos-do-Egito que também habitam o lago do jardim da Fundação.
Em Lisboa, tal como em Londres, a presença desta ave atravessa as portas do Museu. Com efeito, do mesmo modo que o jardim e o edifício se encontram conectados, esta ligação entre natureza e arquitetura também encontra eco na coleção que motivou a construção do museu. Na primeira galeria, consagrada às produções artísticas egípcias colecionadas por Calouste Sarkis Gulbenkian, os visitantes são de novo surpreendidos pela silhueta do Alopochen aegyptiaca, que aqui revela uma outra faceta milenar.
Ao aproximar-se deste par de painéis provenientes de um cofre de marfim, o visitante pode observar a presença de um ganso que a personagem masculina agarra firmemente pelo pescoço. Juntamente com o cesto de fruta transportado pela figura no ombro oposto, a ave faz parte de um conjunto de oferendas particularmente apreciadas na iconografia egípcia.
Reconhecidos pela sua representação meticulosa da fauna e da flora locais, os artesãos egípcios incutiam uma dimensão simbólica em cada elemento das suas criações. Neste caso, é a forma particular como a personagem segura o pássaro que nos dá a chave para a leitura da cena. Tanto adoradas como caçadas, as aves ocupavam um lugar muito especial no simbolismo egípcio. Embora estivessem associadas às divindades mais sábias e importantes do panteão divino (Ré, Hórus, Tot), eram também oferendas comuns no culto dos mortos.
Refletindo a necessidade de equilíbrio entre forças opostas mas complementares, central na conceção do mundo dos antigos egípcios, as aves selvagens que povoavam os seus territórios eram consideradas representantes de Isfet, que pode ser descrito, de forma sucinta, como o elemento do caos. Tratar-se-ia, portanto, de uma alusão ao carácter desordenado de certos elementos do mundo. De acordo com o pensamento egípcio, estas forças precisam de ser gradualmente dominadas pelo agente do conceito oposto – a Maet ou ordem –, nomeadamente pelo Faraó. Se a reputação caótica que se atribui às aves se deve ao facto de baterem repentinamente as asas para intimidar um potencial predador ou para fugirem a voar, é compreensível que a sua captura e «controlo» passassem pela sua estabilização, apertando-lhes o pescoço ou cortando-lhes as asas, como sugere esta placa de marfim.
Das margens do Nilo para as margens do Tejo, os gansos-do-Egito continuam a ser o coração pulsante da vida silvestre do jardim. Anunciam ao visitante o conteúdo que irá encontrar, ou prolongam a memória daqueles que já visitaram a galeria de arte egípcia.
E, se bem que a tentação de apanhá-los seja sempre forte para os visitantes mais jovens, a sua existência mais tranquila continua a servir de inspiração para obras contemporâneas.