O museu fora do armário: «queer» sem querer
Continuando esta leitura queer de obras da Coleção Gulbenkian, foquemo-nos agora naquelas que nos dão imagens fora da heteronormatividade mas sem que tenha havido essa intenção prévia. Ou seja, obras que são queer sem querer. Não vamos encontrar personagens históricas que se julga terem tido ligações amorosas ou sexuais com pessoas do mesmo sexo, nem a sua representação mitológica… Vamos, sim, encontrar alguns desvios, muitos deles criados, até, por artistas heterossexuais.
Voltemos às mitologias ilustradas em várias obras da Coleção Gulbenkian, que ajudam a espelhar outras realidades, e olhemos de novo para a tapeçaria Vertumno e Pomona. Realizada segundo desenhos atribuídos a Pieter Coecke van Aelst e em exposição na galeria do Renascimento, a obra conta uma história de amor entre duas divindades. Vertumno, deus dos jardins e pomares, na tentativa de conquistar o coração de Pomona, deusa da abundância frutícola, assume diversas formas físicas além da sua, transformando-se, por exemplo, numa idosa ou numa jovem. Esta história, narrada por Ovídio nas suas Metamorfoses, pode ser objeto de uma releitura queer se a interpretarmos como falando de identidades que não cabem num só corpo, que fazem da mutação a sua essência. Que são homem e mulher, jovem e adulto, humano e animal.
A figura mitológica do sátiro, um semideus, metade homem, metade bode, de aspeto rude e um provocador nato, está também representado em diversos objetos da coleção. Divindade híbrida que habita entre deuses e humanos, conhecido pela sua desinibição e voraz apetite carnal, é símbolo de liberdade sexual e materialização do desejo. Esta figura desestabilizadora da ordem pode ser vista como personagem queer porque não se encaixa numa sexualidade normativa, vive da transgressão e é uma junção de várias identidades.
No já mencionado conjunto de livros de Gulbenkian existem alguns exemplos a salientar. É o caso da edição de Les Fleurs du Mal de Charles Baudelaire (1821-1867), ilustrada por Carlos Schwabe. Em 1845, Baudelaire anunciava um novo livro com o provocador título de Les Lesbiennes. As reações cedo chegaram e o título foi alterado para Les Fleurs du Mal. Ainda assim, o autor foi multado e o editor recebeu ordens para retirar o livro de circulação. Mas de que falam estes poemas? São textos dentro da estética Decadentista (movimento do final do século XIX que acreditava que a arte era a evasão da realidade) e altamente eróticos, onde se encontram versos sobre o amor entre mulheres.
Duplamente valiosa então esta edição que nos revela um trabalho artístico único de Baudelaire e dos seus ilustradores, que contra tudo e todos propõem um universo alternativo que se opõem à sociedade de então, fortemente assente no Patriarcado e onde a mulher artista e fora do lar convencional não era uma possibilidade. É nessa transgressão que esta obra pode ser vista como queer.
Uma outra personagem desviante que encontramos, embora com uma biografia ficcionada, é a poetisa Bilitis. Le Chansons de Bilitis é um livro de poemas, da autoria de Pierre Louÿs (1870-1925), onde se conta a história desta mulher. Esta edição da Coleção Gulbenkian, testemunho da estética Déco, tem ilustrações de George Barbier que levantam várias questões pertinentes. Apesar de serem ilustrativas de um mundo lésbico, são a perspetiva de um homem heterossexual sobre o corpo (e a sexualidade) das mulheres. Aliás, os poemas, que o autor revelou serem uma descoberta sua, foram expostos como fraude após a morte de Louÿs. Ou seja, é uma obra mimética de uma vivência que não foi experienciada pelo artista.
Há ainda que mencionar a iluminura retratando as cenas do Julgamento no Paraíso e da Anunciação, do Livro de Horas de René II da Lorena. No topo da imagem, um casal de mulheres beija-se nos lábios. Esta demonstração de afeto estará certamente ligada ao lado prazenteiro entre crentes, rodeados de anjos em êxtase religioso. Sobretudo, é um exemplo de como uma obra pode ser objeto de uma leitura queer, apesar de não ter sido esse o seu desígnio inicial. A obra torna-se permeável a interpretações várias no presente, ao mesmo tempo que permite vislumbrar o passado.
Finalmente, numa passagem pela galeria do Oriente Islâmico, encontramos diversas obras que nos rementem para a religiosidade como celebração, nomeadamente através dos cantos, danças e poemas associados ao sufismo. Se procurarmos mais a fundo, por exemplo, dentro da poesia árabe de Abu Nuwas (756-814), encontramos poemas eróticos que exaltam a beleza dos jovens rapazes, onde a sedução entre amigos é acompanhada por vinho, e a ação se passa em locais de socialização masculina como o hamman (espécie de termas destinadas só a um público masculino). Tal como os poetas Rumi e Hafiz, os prazeres da embriaguez e da mocidade são descritos como um júbilo, mas Nuwas traça um lado carnal e assumidamente homoerótico, incutindo um símbolo da união homem-divino:
I die of love for him, perfect in every way,
Lost in the strains of wafting music.
My eyes are fixed upon his delightful body
And I do not wonder at his beauty. (…)
Uma última sugestão queer vai para O Espelho de Vénus. A pintura do pré-rafaelita Sir Edward Burne-Jones (1833-1898) revela um conjunto de mulheres elegantemente vestidas, junto a um lago, introspetivas e contemplativas. Sem aparente história e com um cenário esvaziado, esta é uma obra abertamente queer, ao retratar de forma melancólica a amizade feminina, sem a presença de homens.
Como se observa, a teoria queer pode ser uma forma de mediar a interpretação das obras de arte. Estes temas não estão ausentes das obras do Museu Calouste Gulbenkian. Estão presentes, mas sujeitos a códigos para serem entendidos aos nossos dias, mesmo que algumas obras tenham sido decifradas na sua altura de criação.
Na Coleção Gulbenkian encontram-se diversos artistas e obras que ilustram a complexidade e diversidade humanas que nos compõem, e que ocupam um lugar pertinente no espaço museológico enquanto agentes de diálogo entre a Arte e a sociedade.