Calouste Sarkis Gulbenkian

O Colecionador

Nascido em pleno Império Otomano, Calouste Sarkis Gulbenkian reuniu ao longo da vida uma das coleções de arte mais ecléticas do mundo – mais de 6000 obras, da Antiguidade ao início do século XX –, guiado pela beleza das peças que amava como «filhas».

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Breve História do Colecionador

As origens de uma paixão

De origem arménia, Calouste Sarkis Gulbenkian nasce em Üsküdar, na Turquia, em pleno Império Otomano. Em 1896, a perseguição à comunidade arménia leva-o a deixar o país com a família.

Passa pelo Cairo, fixa-se em Londres – onde adquire a nacionalidade britânica – e mais tarde compra um palacete em Paris, na Avenue d’Iéna. Com a Segunda Guerra Mundial, muda-se para Lisboa, onde vive até à morte, em 1955.

A paixão de Calouste Gulbenkian pela arte revela-se cedo. A sua família era oriunda da Capadócia, região cuja cidade de origem, Cesareia, está ligada ao nascimento das grandes religiões – e, com elas, ao florescer das artes.

O mesmo se pode dizer de Constantinopla, também presente na sua formação: uma cidade que era, por excelência, uma encruzilhada de civilizações, a capital sucessiva de romanos, gregos e turcos otomanos.

Uma coleção bela e eclética

É acima de tudo a beleza dos objetos que lhe interessa. Ao longo da vida, entre viagens e negociações longas com os melhores peritos e comerciantes, e conduzido pelo seu gosto pessoal, Gulbenkian reúne uma coleção eclética, única no mundo. São hoje mais de 6000 peças, da Antiguidade ao início do século XX.

«Only the best is good enough for me», esta frase atribuída a Gulbenkian resume bem o critério de excelência que seguia.

As peças chegavam-lhe por intermediários, diretamente dos proprietários ou em leilão, mas era sempre ele quem decidia, apoiado num pequeno círculo de conselheiros de confiança.

Foi Kenneth Clark, diretor da National Gallery, quem lhe recomendou a compra, em 1943, de As Bolas de Sabão, de Manet. Já nas negociações com a União Soviética para adquirir peças do Hermitage, entre 1928 e 1930, contou com a discrição de André Aucoc, joalheiro parisiense.

Regateava com cuidado, pagava o preço justo, mas raramente acima dele.

A salvo da guerra

Ao longo dos anos, a coleção foi aumentando. Como medida de segurança, a coleção que estava na sua residência em Paris é dividida, e parte é enviada para Londres.

Em 1936, o núcleo do antigo Egipto é confiado ao British Museum e os melhores quadros à National Gallery. Com a ameaça de bombardeamentos, em 1939, as pinturas são evacuadas para o País de Gales, primeiro para vários locais junto a Bangor, depois para uma antiga mina de ardósia em Manod, adaptada para as receber em segurança. Só regressam a Londres em 1945, já com o fim da guerra.

Mais tarde, em 1948 e 1950, essas mesmas peças são transferidas para a National Gallery of Art, em Washington.

As deslocações são complexas e arriscadas. Gulbenkian preocupa-se sobretudo com a preservação do seu património e com os impostos sobre o seu legado.

Em busca de um lugar

Em 1937, propõe a Kenneth Clark, diretor da National Gallery, um «Instituto Gulbenkian» na sua galeria, em Londres. A ideia nunca se concretiza e, em 1942, um incidente diplomático afasta-o ainda mais dessa hipótese: o governo britânico declara-o “technical enemy”, uma classificação revogada logo no ano seguinte, mas que Gulbenkian não esquece.

Depois da guerra, surgem outras propostas: o Victoria & Albert Museum, em Londres, e a National Gallery of Art, em Washington, para onde já fora transferida parte da coleção. Nenhuma se concretiza.

A partir de 1943, Lord Radcliffe, o seu advogado britânico, torna-se o principal conselheiro sobre os assuntos relacionados com o seu património.

Sabe-se que Gulbenkian tinha grande empenho em que a coleção ficasse sob um único teto, para que se pudesse testemunhar o que um só homem havia sido capaz de reunir ao longo de uma vida.

Um museu em Lisboa

Em 1953, no seu testamento definitivo, Gulbenkian decide: todas as suas obras devem ir para Lisboa, onde uma nova fundação erguerá um museu para as proteger.

As negociações mais complexas são com o Governo Francês. Este resiste à saída de peças provenientes dos Palácios de Versalhes e Fontainebleau.

A questão resolve-se com uma ação diplomática conjunta, que junta a Administração da Fundação, então presidida por José de Azeredo Perdigão, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português e André Malraux, Ministro da Cultura de França, que permite a vinda da coleção sem restrições.

A 26 de junho de 1960, cerca de 6440 obras chegam a Portugal e ficam finalmente reunidas sob um só teto, como Gulbenkian sempre quisera. Antes de ter casa própria, são expostas no Palácio dos Marqueses de Pombal, em Oeiras, entre 1965 e 1969.

Só 14 anos após a morte do Colecionador o seu último desejo se cumpre: o Museu Calouste Gulbenkian abre portas em Lisboa.

 

 

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