Calouste Sarkis Gulbenkian
(1869 – 1955)
São revelados os aspetos mais marcantes da vida pessoal de Calouste Gulbenkian: a sua família, a sua educação, os locais onde viveu e as viagens que realizou, os seus negócios e as funções diplomáticas que deteve.
É apresentado o seu lado mais pessoal, tanto quanto o deixava perceber a sua escrupulosa discrição: são referidos alguns dos seus aliados e amigos, apresentadas as distinções que recebeu e as que recusou e desvendada a expressiva, mas discreta, atividade filantrópica que desenvolveu.
É ainda focada a sua relação com o Belo, que cultivou durante toda a vida: o seu amor pela Natureza e a extraordinária coleção de Arte que reuniu, aqui exposta numa seleção feita pelos curadores do Museu Gulbenkian e que representa cada uma das secções da sua coleção.
Resultado da investigação realizada em arquivos, donde provêm as mais de duas centenas de documentos que aqui figuram, esta cronologia inclui também elementos retirados das publicações: L’Hotel Gulbenkian, 51, Avenue d’Iéna: memória do sítio, coordenada por João Carvalho Dias, 2011; Calouste Gulbenkian Fundação 1869-1956-2016, coordenada por Ana Maria Eiró e Teresa Nunes da Ponte, 2016; Mr. Five Per Cent: The many lives of Calouste Gulbenkian: The world’s richest man, de Jonathan Conlin, 2019.
Este trabalho tem o duplo objetivo de dar a conhecer a vida de Calouste Gulbenkian e de desvendar alguns documentos dos seus arquivos, guardados, estudados e preservados pela Fundação Gulbenkian. Pensada como um registo aberto, incorporará novos dados e documentos inéditos sobre Gulbenkian, à medida que estes forem sendo identificados.
1869 – 1891
Origens e educaçãoNascimento
Oriundo de uma abastada família arménia, nasce em Scutari, hoje Üsküdar, na periferia de Constantinopla, hoje Istambul, filho de Sarkis Gulbenkian (1836-1893) e de Dirouhi Gulbenkian, nascida Essayan (1846-1908).
Karnig Gulbenkian
Nasce o seu irmão Karnig (1873-1953), em Constantinopla.
Setrak Devgantz
É acompanhado desde criança por um tutor. Dev-Dev, como era carinhosamente tratado, acompanhou Calouste quando este foi estudar para Marselha, tendo sido depois igualmente tutor da jovem Nevarte Essayan, futura mulher de Calouste, a quem deu lições de arménio. Mais tarde, veio ainda a ser tutor do filho de ambos, Nubar. Devgantz permaneceu junto da família até à sua morte, em 1940.
Educação primária
Frequenta a escola arménia Aramyan-Uncuyan, em Kadiköy, Constantinopla, havendo referências à frequência posterior da Escola Francesa Saint Joseph, naquela cidade.
Peregrinação a Jerusalém
Efetua a primeira peregrinação a Jerusalém, na companhia dos pais.
Vahan Gulbenkian
Nasce o seu irmão Vahan (1878-1938), em Constantinopla.
Primeiro gesto colecionador
Com 14 anos, utiliza as primeiras poupanças para adquirir moedas antigas num bazar em Constantinopla.
Estudos secundários em Marselha
Viaja para Marselha para prosseguir os estudos e aprofundar os conhecimentos de francês, ingressando na École de Commerce, onde permaneceu até 1884.
Estudos no King’s College School e no King’s College, London
Admitido em Estudos Clássicos, frequenta primeiro o King’s College School, situado na cave da Universidade, King’s College, London. Em 1885, frequenta o departamento de Engenharia e Ciências Aplicadas na universidade King’s College London, onde obteve “Distinção” a algumas disciplinas. Em 1887 é-lhe atribuído o estatuto de “Associado” daquele departamento.
A beleza do Bósforo
Na viagem de barco de regresso a casa, vindo de Inglaterra, o jovem Calouste, então com 16 anos, na sua primeira carta em inglês, descreve o espetáculo oferecido pela beleza do Bósforo, um dos primeiros registos do gosto pela natureza que o acompanharia toda a vida.
Viagem a Baku
Por sugestão de seu pai, viaja de Constantinopla para Baku, nas margens do Mar Cáspio, então no Império Russo, através da Transcaucásia, para conhecer os campos de petróleo da região e familiarizar-se com a nova indústria petrolífera. Esta é, tanto quanto se sabe, a sua única visita a um campo petrolífero.
Royal Geographical Society
Torna-se membro da Royal Geographical Society, em Londres, sob proposta de Alfred Clayton Cole e George Bendrick de 8 de abril de 1889.
Manteve uma estreita colaboração com esta Sociedade nos anos seguintes, através da doação de um conjunto de fotografias do vale de Arax e outro das montanhas do distrito de Katar, no Cáucaso, em julho de 1890, e da oferta da publicação da sua autoria La Peninsule d’Apcheron et le Pétrole Russe, de 1891.
Em 1902 contribui ainda para a expedição Antartic Relief Ship Fund com £ 550. Ao longo de toda a sua vida mantém as suas contribuições para a Royal Geographical Society.
Exposição Universal de Paris
Visita a Exposição Universal de Paris, tendo-lhe sido concedido um diploma de participação na sua qualidade de engenheiro e de membro do Congrès international des électriciens.
“Voyages dans les pays des Tapis d’Orient”
Publica o artigo “Voyages dans les pays des Tapis d’Orient” no Levant Herald and Eastern Express (May 25, 1889) de Constantinopla, onde descreve o tipo de teares de tapetes e os padrões tradicionais de tecelagem usados no Cáucaso.
“La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron”
Publica em Paris, pela Librairie Hachette, o diário da sua viagem à Transcaucásia, com o título La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron, que versava sobre tapetes e petróleo. O capítulo sobre tapetes orientais,”La Fabrication des Tapis en Orient”, foi nesse ano também publicado na Revue Archéologique (mars-avril 1891). Na Révue des Deux Mondes (15 mai 1891) publica o capítulo dedicado ao petróleo com o título “La Péninsule d’Apchéron et le Pétrole Russe”.
1892 – 1921
Os anos de LondresC&G Gulbenkian – Filial Londrina
Abre a filial londrina do negócio comercial dos Gulbenkian, a C&G Gulbenkian (1892-1907), fundada com o tio Garabed.
Casamento
Casa-se com Nevarte Essayan, em Londres, no Metropole Hotel, onde residira desde 1891.
Viagem à Ásia Menor
Viaja a bordo do navio Guadalquivir pela costa da Ásia Menor. Visita a costa da Turquia, a Síria, o Líbano e a Grécia. No seu diário de viagem, o primeiro conhecido, regista as impressões sobre a paisagem, as construções, o contraste entre a costa europeia e a costa asiática. Na ilha de Cós, senta-se sob a árvore de Hipócrates.
“Études sur les Sources de Naphte de Mendèli Vilaye de Bagdad”
No seguimento da publicação da obra sobre o Cáucaso do Sul, elabora um relatório sobre as jazidas petrolíferas da Mesopotâmia (território do então Império Otomano, atual Iraque), endereçado ao ministro otomano das Minas e Florestas Selim Effendi Melhamé, que teria sido pedido pelo ministro da Casa Civil do Governo otomano, Hagop Kazazian Pasha.
Morte do pai de Calouste, Sarkis Gulbenkian
À data da sua morte, o património consistia em participações na empresa familiar e em outros bens, num valor de 75.000 Liras turcas (aproximadamente £ 7,7 milhões em dinheiro de hoje). A herança foi igualitariamente distribuída pelos três filhos.
Nascimento do filho Nubar
Nasce em Kadiköy, Constantinopla, o primeiro filho de Calouste e Nevarte, Nubar Sarkis Gulbenkian.
Fuga de Constantinopla
Os Gulbenkian e os Essayan são obrigados a abandonar Constantinopla para fugir aos massacres do povo arménio perpetrados no Império Otomano entre 1894 e 1896. Viaja para o Egito num barco a vapor ao serviço da empresa da família Essayan, de onde partirá depois para Inglaterra.
Negócios na bolsa de valores de Londres
Durante este período, Calouste intermedeia negócios, angariando investidores, providenciando empréstimos e comprando ações de empresas mineiras sul africanas e australianas. Esta experiência permitiu-lhe desenvolver valiosos conhecimentos financeiros que se revelaram fundamentais nos seus negócios futuros.
Primeiras sociedades independentes de Calouste – Frederick Lane
Com Frederick Lane, um homem de negócios baseado em Londres e ativo no comércio de petróleo russo, dedica-se à reestruturação financeira de companhias de petróleo russas e funda a Sociedade Industrial e Mineira Russa, atividade que desenvolve de forma independente dos negócios familiares.
Lane veio a intermediar importantes negócios na área do petróleo. Em fevereiro deste ano, os dois registam em Londres uma nova empresa, a Schibaieff Oil Company, que obtinha produções de querosene, lubrificantes e outros produtos, o que, até então, só acontecia nas refinarias Nobel.
Calouste Gulbenkian veio a tornar-se amigo de Lane, sobre quem afirmou: “deve ser considerado, sem qualquer dúvida, o pai da indústria britânica do petróleo”.
“Prato fundo”
Adquire, na casa Christie Manson and Woods, um prato de cerâmica Iznik, otomano, de finais do século XVI.
Primeira residência, em Londres
Compra casa no n.º 38 de Hyde Park Gardens, em Londres, onde passa a residir.
Alexander Mantashev
Através de contactos de família, conhece Alexander Mantashev, um arménio súbdito do Império Russo que se dedicava à indústria têxtil em Manchester e que regressara depois ao Cáucaso, negociando em algodão, atividade a que também se dedicavam os familiares de Calouste. Mantashev tornara-se, entretanto, o principal acionista e presidente do Banco Central Comercial de Tiflis e, atento às potencialidades do petróleo, comprara poços de petróleo no Império Russo em sociedade com o também arménio Mikael Aramyants.
Posteriormente, Gulbenkian acabaria por desempenhar um papel importante na intermediação de negócios petrolíferos deste magnata.
Placa de gargantilha “Arvoredo”
Compra ao mestre joalheiro e vidreiro francês René Jules Lalique uma placa de gargantilha. Foi a primeira de várias dezenas de peças que viria a comprar a Lalique, com o qual veio a manter uma estreita relação de amizade.
Hospital Surp Pirgiç
Faz um donativo ao Hospital Surp Pirgiç, de fundação arménia, cuja “ala Gulbenkian” fora financiada pelo seu pai, Sarkis Gulbenkian, na década de 80 do século XIX.
Nascimento da filha Rita
Nasce a sua filha, Rita Sirvarte Essayan Gulbenkian, que virá a ser mãe do único neto de Calouste, Mikaël.
“The cornfield”
Adquire, na casa Agnew, a gravura The cornfield (1834), da autoria de David Lucas.
Afastamento dos negócios da família
Afasta-se dos negócios familiares C&G Gulbenkian and Co, Gulbenkian Fils e Gulbenk [sic] and Selian, fazendo publicar um anúncio no jornal The London Gazette e divulgando circulares em Constantinopla e Londres.
Cidadania britânica
Torna-se súbdito britânico.
Royal Dutch e Henry Deterding
Por esta altura, terá tido os primeiros contactos com Henry Deterding, então diretor da Royal Dutch, empresa que explorava jazidas petrolíferas nas Índias Orientais Holandesas. Deterding participou em vários consórcios de Lane e Calouste. Este, por sua vez, tornar-se-á um importante parceiro de negócios de Deterding, agindo como intermediário entre a Royal Dutch e as grandes sociedades russas com controlo arménio. Posteriormente, Calouste colaborou também com a Royal Dutch, entretanto fundida com Shell (Royal Dutch Shell), no México e Venezuela.
Aulas de História da Arte no Louvre
Frequenta, no Museu do Louvre, aulas particulares de Arte com o curador e colecionador François Camille Benoît.
Primeiro automóvel
Compra um Delaunay-Belleville, automóvel de luxo de fabrico francês, com motor de 40 cavalos.
Residência em Paris, no n.º 53 da Avenue Montaigne
Em Paris, durante um breve período, Calouste Gulbenkian residiu no n.º 53 da Avenue Montaigne.
Residência em Paris, no n.º 27 do Quai d’Orsay
Arrenda apartamento no 4.º andar do n.º 27, Quai d’Orsay, em Paris, onde residirá até adquirir o palacete da Avenue d’Iéna em 1922.
Revolução dos Jovens Turcos
Na sequência da Revolução dos Jovens Turcos, que prometia a reforma e modernização do Império Otomano, Calouste Sarkis Gulbenkian encontra a oportunidade para concretizar investimentos no sector do petróleo naquele território, vindo a obter pela primeira vez concessões petrolíferas.
Banco Nacional da Turquia
É cofundador do Banco Nacional da Turquia, do qual se torna acionista e administrador. O Banco Nacional da Turquia será essencial para o Deutsche Bank conseguir financiar a Anatolian Railway Company, empresa que detinha a concessão para a construção do caminho-de-ferro Berlim-Bósforo-Bagdad, em redor da qual se localizavam os terrenos petrolíferos de Mosul.
Conselheiro Financeiro e Comercial da Embaixada Imperial Otomana em Londres
É nomeado pelo grão-vizir Tevfik Pasha “Financial Counsellor to the Imperial Embassy in London”.
Conselheiro Financeiro junto da Embaixada Imperial Otomana em Paris
É nomeado pelo grão-vizir Tevfik Pasha “Conseiller Financier près l’Ambassade Impériale à Paris” ao mesmo tempo que desempenha as mesmas funções junto da Embaixada Imperial Otomana em Londres.
Turkish Petroleum Company
É criada a Turkish Petroleum Company (1911-1928) com o objetivo de explorar terrenos petrolíferos na antiga Mesopotâmia, nomeadamente Mosul. Calouste Sarkis Gulbenkian escreve a minuta dos seus estatutos. Com um capital de £ 80,000, as ações repartem-se pelo Deutsche Bank (20%), Sir Ernest Cassel (15%), Banco Nacional da Turquia (25%), Anglo-Saxon Petroleum Company, uma subsidiária da Royal Dutch Shell (25%) e Calouste Sarkis Gulbenkian (15%).
Retrato
Calouste Sarkis Gulbenkian é retratado em Paris por Charles Joseph Watelet.
Venezuelan Oil Company
Desempenha um papel fundamental no processo de criação da Venezuelan Oil Company, empresa que explora uma importante concessão petrolífera venezuelana que necessitava de capital para a sua exploração. A Royal Dutch Shell entra como principal acionista pela mão de Calouste Sarkis Gulbenkian, que aí detinha uma participação.
“Foreign Office Agreement”
Acordo entre os governos inglês e alemão, que consagra 50% das ações da Turkish Petroleum Company para a britânica Anglo-Persian, sendo os restantes 50% divididos entre a Anglo-Saxon e o Deutsche Bank. A Calouste Sarkis Gulbenkian é atribuída uma beneficiary 5%, sem poder de voto, que lhe foi cedida pela Anglo-Persian e pela Anglo-Saxon em partes iguais. Após a assinatura deste acordo, os embaixadores dos dois países obtêm uma Lettre Vizirielle do Governo otomano que concede a exploração de petróleo nas províncias de Mosul e Bagdade à Turkish Petroleum Company.
I Guerra Mundial
Calouste vive entre Londres, Paris e Biarritz durante a I Guerra Mundial, tendo, para o efeito, conseguido salvos-condutos.
Touring Club de France
Torna-se membro do Touring Club de France, um clube social dedicado às viagens, que lhe concedeu a facilidade de passar a fronteira entre França e Inglaterra no período da I Guerra Mundial.
Genocídio arménio
O genocídio arménio terá dizimado aproximadamente metade da população arménia. Apesar de não ter sido afetado diretamente, Calouste viu as suas propriedades no território do império confiscadas e os seus conterrâneos erradicados dos seus territórios ancestrais.
“Paisagem ao entardecer”
Adquire, na casa Colnaghi, o desenho Paisagem ao entardecer (c. 1814-1875), da autoria de Jean-François Millet.
Testamento, 1916
Prepara um testamento, o primeiro que se conhece, de acordo com o qual seriam principais contemplados o Hospital Surp Pirgiç de Constantinopla e órfãos arménios. Há ainda montantes destinados à Sociedade de Prevenção da Crueldade para com Animais e à Sociedade Real de Horticultura. O capital remanescente seria destinado a Nubar – de acordo com determinadas condições – e o restante doado ao Palácio de Versalhes.
Detenção no Canal da Mancha
É detido pelas autoridades britânicas por um curto período, durante a travessia do canal da Mancha, sob o pretexto de continuar a ser consultor financeiro do Império Otomano.
Revolução Russa
Royal Dutch Shell Group
É nomeado agente da Royal Dutch Shell junto do Governo francês de modo a agilizar o acesso deste ao mercado do petróleo. Estabelece nesta época relação com o fundador da política francesa para os petróleos, o senador Henri Bérenger.
“Vaso grego”
Adquire, através do intermediário Christie’s Manson and Woods, um vaso do século V a.C., proveniente da Coleção T. Hope.
Deslocação de obras de Arte da coleção para Biarritz
Na sequência de bombardeamentos em Paris, são transferidos 40 caixotes das suas obras de Arte para Biarritz.
Compañia Mexicana de Petroleo El Aguila SA
Intermedeia o processo de aquisição, pela Royal Dutch Shell Group, da Compañia Mexicana de Petroleo El Aguila SA. Calouste recebeu 20% pela intermediação no negócio.
Gulbenkian Limited
Cria, em Londres, a sua primeira private company, a Gulbenkian Limited (1919-1964), de onde dirige todos os seus negócios e investimentos, que se vinham tornando cada vez mais complexos. A partir de então, sempre que os seus interesses e necessidades operacionais e fiscais assim o exigiram, foi criando, em diferentes partes do mundo, as suas “private companies”, controladas a partir do seu escritório de Londres.
Médaille d’Honneur des Épidémies
Na sequência dos apoios prestados ao Serviço de Saúde francês, o Ministério da Guerra outorgou a Calouste a “Medalha de Honra das Epidemias”, que recompensava aqueles que se tinham particularmente distinguido em períodos de doenças epidémicas. Calouste Sarkis Gulbenkian era o responsável financeiro do Hôpital Néerlandais du Pré-Catelan, financiado integralmente pelo grupo Royal Dutch Shell (do qual Calouste era agente em França).
Casamento de Rita e Kevork Loris Essayan
Rita, de 20 anos, filha de Calouste e Nevarte, casa com Kevork Essayan, de 23 anos, filho de Vahan e Anna Essayan. Vahan Essayan era primo de Nevarte Gulbenkian. Anna Essayan era sobrinha de Nubar Pasha, um conhecido político e funcionário público de origem arménia no Egito, onde havia assumido o cargo de primeiro-ministro quatro vezes.
“Apocalipse”
Adquire, na casa de leilões Sotheby’s, através de Devgantz, a obra Apocalipse (1265-1270) pertencente a Henry Yates Thompson.
Conselheiro Comercial da Legação Imperial do Irão em Paris, 1920
É nomeado Conselheiro Comercial da Legação Imperial do Irão em Paris.
“Baixo-relevo assírio”
Adquire, através do intermediário Paul Mallon, um baixo-relevo em alabastro, proveniente do Palácio Noroeste de Assurnazirpal II [século IX a.C.].
Refugiados arménios
Começa a apoiar regularmente refugiados arménios que sobreviveram ao Genocídio e se dispersaram pelo Médio Oriente e Europa.
1922 – 1939
Os anos de ParisIgreja Arménia de Saint Sarkis
Financia a construção da igreja arménia de Saint Sarkis, em Londres. Calouste escolheu o arquiteto, sugeriu fontes de inspiração para o desenho do edifício e criou um órgão de gestão independente dos poderes político e religioso.
Casamento de Nubar e Herminia Feijóo
Nubar e Herminia, cubana, casam no registo civil de Westminster. Calouste e Nevarte opõem-se à união. O casamento durou três anos, findos os quais se separaram, divorciando-se em janeiro de 1928.
Residência em Paris, no n.º 51 da Avenue d’Iéna, 1922
Adquire o palacete no n.º 51 da Avenue d’Iéna, que irá reconstruir quase integramente e será a sua residência em Paris. Calouste confiou o projeto à equipa de arquitetos Mewès & Davies – os mesmos que construíram a igreja de Saint Sarkis em Londres -, com a colaboração do arquiteto francês, Emmanuel Pontremoli. Outros projetos foram entregues a A. d’Estailleur e à equipa de Renée Sergent, Léon Fagnen e René Bétourné. Achille Duchêne foi o arquiteto paisagista responsável pelo projeto do terraço. Foram também contratados os artistas e designers René Lalique e Edgar Brand, responsáveis pela criação de elementos de qualidade excecional.
Howard Carter
Inicia uma relação de consultoria e amizade com o arqueólogo Howard Carter que, contratado por Lord Canarvon, supervisionava escavações no Egito. Com a intermediação de Carter, Calouste Gulbenkian compra 23 das 56 peças egípcias existentes na sua coleção.
Testamento, 1923
Redige um testamento que revoga o de 1916, onde contempla em partes iguais a sua mulher, Nevarte, e os seus dois filhos, Rita e Nubar. Inclui ainda familiares, o seu antigo tutor, Setrak Devgantz, amigos, funcionários e instituições.
Chester Beatty
Parceiro de negócios e amigo de Calouste, este engenheiro americano torna-se seu aliado no conflito que o opõe a Henry Deterding e à Royal Dutch Shell, designadamente na gestão da Venezuelan Oil Company – empresa que explorava o petróleo da Venezuela. À afinidade nos negócios acresce o facto de também Beatty (1875-1968) ser um colecionador de livros antigos e Arte Oriental.
Viagem em França
Desloca-se a Aix-les-Bains para tratamentos e toma notas sobre a viagem, arquitetura e paisagens, que mantém num diário de viagem.
Viagem em Itália, 1923
Viaja para Itália e aloja-se no Hotel de Villa d’Este. Regista, em apontamento, as suas apreciações sobre a paisagem do norte de itália e Villa Carlotta, em Tremezzo.
“Barca solar de Djedhor”
Adquire, num leilão da casa Sotheby’s, Wilkinson & Hodges, através de Howard Carter, a insígnia egípcia em bronze, Barca solar de Djedhor da Época Baixa, XXVI-XXX dinastias, c. 664-343 a.C.
“Bíblia iluminada”
Adquire, em venda da Sotheby’s, através do intermediário Bernard Quaritch, uma Bíblia Arménia de 1623, do copista Hakob, da escola arménia de Constantinopla, proveniente da Coleção Sir Malcom MacGregor of MacGregor.
“Jarro de jade”
Adquire, em venda da Christie’s, através do intermediário Duveen, um jarro de jade (1447-1449), originário de Samarcanda, da época Timúrida.
Residência em Paris, no n.º 51 da Avenue d’Iéna, 1927
Muda-se para o n.º 51 da Avenue d’Iéna e começa a instalar a sua coleção de Arte.
Marcelle Monteil Chanet
Contrata Marcelle Monteil para classificar os seus objetos de Arte, tendo-se tornado, posteriormente, a sua curadora. Monteil, mais tarde conhecida por Madame Chanet, manter-se-á ao serviço de Calouste até à morte deste.
“Les Enclos”, 1927
Adquire a primeira parcela de uma vasta propriedade na Normandia, na região de Deauville, que se viria a chamar Les Enclos. As parcelas seguintes viriam a ser adquiridas em 1937 e 1939.
Mikaël Essayan
Nasce, em Londres, Mikaël, o único neto de Calouste Gulbenkian, filho de Rita e Kevork Essayan.
Participations & Investments Limited
Empresa criada em Toronto, no Canadá, por Calouste Gulbenkian em 1928 para representar os seus 5% na Turkish Petroleum Company, na sequência das negociações que envolveram as potências vencedoras da I Guerra e que deram origem ao “Acordo da Linha Vermelha”. Extingue-se em 1968.
Légion d’Honneur
Calouste Gulbenkian recusa a Grande Cruz da Legião de Honra que lhe havia sido proposta por Philippe Berthelot, Secretário do Ministério das Relações Exteriores de França, que se tornou amigo de Calouste. A partir de 1920, os dois estabelecem uma relação de interesse recíproco quando Calouste acionou todos os seus contactos de modo a garantir à França a entrada na exploração do petróleo da Mesopotâmia. A condecoração proposta foi, por sugestão de Calouste, atribuída a Nubar, que recebeu o grau de comendador a 7 de outubro de 1928.
Casamento de Nubar e Doré Plowden
Nubar e Doré, divorciada e artista de musicais, casam em 1928. Separaram-se sete anos depois e divorciaram-se em janeiro de 1939, depois de um conturbado processo em tribunal.
Viagem a Espanha
Calouste efetua uma viagem de 16 dias a Espanha, que descreve num diário de viagem. Impressionam-no sobretudo a obra de Velázquez, que visitou no museu do Prado, em Madrid, e L’Alhambra e os seus jardins, em Granada.
“Red Line Agreement”
Assinatura do “Acordo da Linha Vermelha” que regula as alterações das posições dos acionistas da Turkish Petroleum Company, resultado das alterações geopolíticas decorrentes da I Grande Guerra. São Introduzidos novos protagonistas na estrutura da Turkish Petroleum Company. Calouste Gulbenkian desempenha um papel fundamental nas negociações entre os seus parceiros, mostrando-se favorável à participação de um consórcio americano e favorecendo a entrada da França no negócio do petróleo através da Compagnie Française des Pétroles, reajustes facilitados pela saída forçada da Alemanha da Turkish Petroleum Company. A D’Arcy Petroleum Company (atual BP), a Anglo-Saxon Petroleum Company (atual Shell), a Compagnie Française des Pétroles (atual Total) e a Near East Development Corporation (NEDC – consórcio de petrolíferas americanas) passam a deter, cada um, 23,75% das ações. Calouste Gulbenkian, através da Participations & Investments, fica com 5%.
O nome do acordo resulta de uma linha vermelha que foi desenhada sobre um mapa do Médio Oriente estabelecendo a área de exploração da Turkish Petroleum Company dentro da qual os acionistas não poderiam competir entre si. Calouste Gulbenkian empenha-se na definição do traçado dessa linha.
Acordo entre a Compagnie Française des Pétroles e a Participations & Investments Limited
Acordo suplementar ao Red Line Agreement, celebrado entre a Compagnie Française des Pétroles e a Participations & Investments Limited, segundo o qual os franceses compravam o crude de Calouste Sarkis Gulbenkian proveniente da sua participação de 5% na Turkish Petroleum Company.
Iraq Petroleum Company
O nome da empresa Turkish Petroleum Company é alterado para Iraq Petroleum Company, mantendo-se a sede em Londres, refletindo o facto de, na sequência do desmembramento do Império Otomano e da criação do reino do Iraque, em 1921, os seus principais interesses se encontravam já no Iraque.
Hermitage
Na sequência da revolução bolchevique, o Museu do Hermitage viu aumentada a dimensão das suas coleções quando o Estado soviético nacionalizou um conjunto significativo de obras de Arte que estavam, até aí, à guarda dos inúmeros palácios propriedade da Família Imperial, ou eram propriedade da elite russa.
O Kremlin, necessitado de financiamento, solicita ao “Comissariado do Povo do Comércio Externo” um conjunto de medidas que possibilitasse o reforço dos cofres estatais em vários milhões de Rublos/Ouro, com o objetivo da “revitalização e implementação da industrialização socialista”.
A alienação de obras de Arte e antiguidades pertencentes às coleções museológicas à guarda do Estado ficaria conhecida na historiografia russa como “Operação Hermitage”.
Gulbenkian, pela via dos negócios, desenvolvera junto das autoridades soviéticas uma rede de ligações que cruzava contactos profissionais e pessoais, decorrentes dos seus conhecimentos na área petrolífera, na mineração e na banca. O seu estatuto e autoridade eram reconhecidos por diversas figuras chave da “nomenklatura” soviética.
Calouste, interessado na aquisição de obras de Arte, concretiza a primeira de várias aquisições de peças de Arte do Hermitage, que decorreram em quatro etapas. Neste 1ère achat adquire peças de ourivesaria, de mobiliário, um tapete e uma pintura.
Entre fevereiro e março de 1930, conclui a segunda aquisição, que acrescenta à sua coleção novas obras, entre as quais obras de ourivesaria e pintura.
A terceira aquisição é fechada em junho desse ano. Nela se incluem pinturas e uma escultura.
A última aquisição, em outubro de 1930, é de uma pintura.
Viagem em Itália, 1929
No outono, efetua uma viagem a Itália durante 21 dias, que regista num diário de viagem. Descreve visitas a museus, galerias e as cidades percorridas: Bolonha, Florença, Milão, Modena, Pavia, Parma, Piacenza, Prato e Vila d’Este.
União Geral Beneficente Arménia (AGBU)
Desempenha o cargo de Presidente da União Geral Beneficente Arménia – Union Générale Arménienne de Bienfaisance –, uma associação filantrópica arménia que havia sido fundada no Cairo, em 1906, por Nubar Boghos Pasha, parente de Gulbenkian por via do seu casamento.
Primeira biografia de Calouste Gulbenkian
É publicada, em impressão privada, em Marselha, a biografia da autoria de Aram Turabian: Calouste Gulbenkian: le milliardaire arménien et sa vie.
Isabelle Theis
Contrata Isabelle Theis, uma contabilista de 25 anos que trabalhou na Avenue d’Iéna. Entretanto viúva, Theis acompanhará Calouste e Nevarte quando estes se deslocam para Vichy e posteriormente seguirá para Lisboa, tendo permanecido ao serviço de Calouste Gulbenkian até à sua morte.
Cruzeiro no Mediterrâneo, 1930
Durante a primavera, acompanhado pela filha Rita, viaja, durante 33 dias, pelo Mediterrâneo, a bordo do iate Narcissus. Visita Elba, Ischia, Prócida, Nápoles, Capri, Sicília, Ítaca, Cefalónia, golfo de Patras, Delfos, Corinto, Atenas, Creta, Corfu, Cnossos, Rodes, Cos. Regista no seu diário de viagem o itinerário, as visitas a locais arqueológicos e a um teatro antigo grego, e as suas impressões sobre paisagens, obras de escultura e coleção de moedas.
“Secretária de cilindro”
Adquire da Coleção Rodolfo de Goldschmidt-Rotheschild, através da intermediária Petrocochino, uma secretária de cilindro da 2.ª metade do século XVIII, da autoria de Jean-Henry Riesener.
Cruzeiro no Mediterrâneo, 1932
Realiza nova viagem pelo Mediterrâneo, a bordo do iate Ausonia, durante 45 dias, acompanhado pela filha, Rita, e pelo cunhado, Yervant. No seu diário de viagem, refere as visitas à ilha de Maiorca, norte de África, Málaga, Sicília e ao mar adriático. No regresso, em Marselha, evoca os seus primeiros tempos de escola na Europa.
Biblioteca Calouste Gulbenkian, em Jerusalém
Inauguração da Biblioteca, construída no complexo do Patriarcado Arménio de Jerusalém, com o financiamento maioritário de Calouste Gulbenkian. Apoiará regularmente esta Biblioteca ao longo da sua vida, tendo assegurado, em testamento, a manutenção dessa contribuição.
Viagem a Munique
Viaja de comboio, no Expresso-Oriente, até Munique, onde permanece cinco dias. Num diário que mantém, regista as visitas a bibliotecas, museus e pinacotecas, cujas salas e obras descreve em pormenor.
Viagem a Viena
Viaja de comboio, no Expresso-Oriente, até Viena, que visita durante sete dias. No seu diário de viagem, refere pretender aprofundar os seus estudos de Arte. Regista as visitas a diversas galerias e museus, descrevendo vitrinas e obras em pormenor no seu diário de viagem.
Viagem a Roma e Nápoles
Em janeiro, efetua uma viagem de dez dias a Roma, onde visita galerias, igrejas, jardins e vestígios arqueológicos. No seu diário de viagem, refere ter assistido a uma ópera e passado um dia em Nápoles, onde visitou o museu, tendo depois embarcado para Alexandria, a bordo do iate Ausonia.
Viagem ao Egito, Síria e à Palestina
Durante 35 dias, viaja pelo Egito, Síria e Palestina. No Cairo percorre o Museu Egípcio e contempla os tesouros de Tutancamon. Visita mesquitas, museus e lugares arqueológicos e, em Jerusalém, os lugares Santos e a Biblioteca que financiou. Em Damasco, na Síria, visita um orfanato de crianças arménias. Visita ainda Baalbek, que o impressiona vivamente, Beirute e Haifa, onde conhece os escritórios do Iraq Petroleum Company. Em Beirute, visitou também um campo de refugiados arménios. Termina a viagem em Alexandria. No seu diário de viagem conserva diversas fotografias.
Musée des Etoffes de Lyon
Durante a sua estadia em Aix-les-Bains, Calouste Gulbenkian visita o Musée des Etoffes de Lyon, a fim de estudar a sua coleção de têxteis. Para além de um breve relato de viagem que manteve, recolheu fotografias de têxteis do museu.
Oleoduto Iraque-Mediterrâneo
Inauguração do oleoduto Iraque-Mediterrâneo, construído pela Iraq Petroleum Company. Foi o primeiro oleoduto transnacional do mundo, percorria 1.000 quilómetros entre Kirkuk e o Mediterrâneo, e podia transportar 3 milhões de toneladas de crude por ano. Calouste não assistiu à sua inauguração, enviando em sua representação o seu filho Nubar.
Perda da nacionalidade Turca
É publicada no Journal Officiel da Turquia a decisão da perda de nacionalidade Turca de Calouste Gulbenkian. A partir de então, e no prazo de um ano, teria de dispor das suas propriedades e resolver todos os assuntos pendentes relativos ao seu património naquele país. De todas as suas propriedades e das de sua mulher Nevarte, apenas o edifício de Selamet Han, em Istambul, se manteve na sua posse.
Viagem à Bélgica e Holanda
Realiza uma viagem a museus e igrejas na Bélgica e Holanda. O diário de viagem, que se encontra incompleto, regista, ainda em França, as visitas às catedrais de Meaux e Rheims.
“Histoire de la Princesse Boudour. Conte des mille nuits et une nuit”
Adquire, na venda Émile Chounard, através do intermediário Giraud-Badin, uma edição francesa de um dos contos de As Mil e uma Noites (1926).
Empréstimo de obras de Arte ao British Museum
Calouste Gulbenkian cede, por empréstimo, ao British Museum, a sua coleção de Arte Egípcia.
Tapete tipo “combate de animais”
Adquire, através do intermediário Hans Stiebel, um tapete de origem persa, de meados do século XVI, proveniente do Museu de Artes Decorativas de Berlim.
Empréstimo de obras de Arte à National Gallery, Londres
Calouste Gulbenkian cede, por empréstimo, à National Gallery de Londres, vinte e duas pinturas da sua coleção e, progressivamente, até 1939, mais doze obras de Arte.
Antecedentes da ideia de uma Fundação
Inicia com Sir Kenneth Clark, diretor da National Gallery de Londres, uma série de conversas sobre o projeto de um Instituto Gulbenkian na National Gallery. Clark apresenta projeto do arquiteto Delano para construção de uma ala para as peças de Calouste Gulbenkian, que não se veio a concretizar.
Participations & Explorations
Criação, no Panamá, da Participations & Explorations (PARTEX), empresa que, a partir de 1952, vem a deter os 5% da Iraq Petroleum Company.
II Guerra Mundial
Deslocação de obras de Arte da coleção para o País de Gales
Com a perspetiva da guerra e a ameaça de bombardeamentos aéreos, as obras de Calouste emprestadas à National Gallery são evacuadas para vários pontos do País de Gales, juntamente com as obras daquele museu e da Coleção Real Britânica. Mais tarde, com o alargamento do alcance dos bombardeamentos, as obras são novamente deslocadas, desta vez para uma mina de ardósia abandonada, onde se criaram abrigos à prova de bomba.
Kenneth Clark assegura a Calouste o perfeito estado das obras da sua coleção.
“Les Enclos”, 1939
Adquire a última parcela da vasta propriedade na Normandia que começara a constituir em 1927, Les Enclos. Contrata os arquitetos paisagistas Achille Duchêne e M. Duprat para projetar o seu jardim e construir um “lugar de sonhos e de sentimentos de paz”.
1940 – 1942
Os anos de VichyVichy
A 10 de maio, o exército alemão ocupa Paris e, dois dias depois, o Governo francês instala-se em Vichy. A 15 de julho, acompanhando o corpo diplomático do Irão, Calouste e Nevarte dirigem-se também para Vichy, instalando-se no Hôtel du Parc et Majestic, aí permanecendo até 1942.
Inimigo Técnico
É declarado “inimigo técnico” de Inglaterra, na sequência da sua ida para Vichy. Os seus interesses são arrestados pelo British Custodian of Enemy Property, em 1940. A participação francesa da Iraq Petroleum Company também foi arrestada e o pagamento dos 5% de Calouste é interrompido.
A revogação do “Estatuto de Inimigo” obrigou os seus advogados a atuar junto das autoridades britânicas, a que se somaram pressões e contactos pessoais com Governo. Vê os seus esforços recompensados quando, em julho de 1943, o “British Custodian” lhe devolve o controlo sobre a Participations & Investments Limited, mantendo, no entanto, inalterada a condição de “inimigo técnico” até 15 de março 1945, data da revogação.
“Vaso”
Adquire, em venda da Sotheby’s, através do intermediário L. Giraud Badin, um vaso em vidro esmaltado e dourado, originário do Egito ou da Síria, da época Mameluca, primeira metade do século XIV, pertencente à Coleção de Georges Eumorfopoulos.
Garbis Dikram Selian
Garbis Selian, primo de Calouste e, desde 1938, regente agrícola na propriedade de Les Enclos, é feito prisioneiro pelas tropas Nazis e levado para um campo de concentração em França. Numa troca de prisioneiros entre o Governo americano e os alemães, embarcou para os Estados Unidos da América. Calouste Sarkis Gulbenkian empenhar-se-á, junto dos seus contactos diplomáticos, em conseguir o seu regresso a França e a Deauville, o que sucede em 1945.
1942 – 1955
Lisboa: os últimos anosLisboa – Hotel Aviz
Com a rutura diplomática entre o Irão e o Governo de Vichy, Calouste Gulbenkian decide deixar esta cidade e considera viajar para a Suíça, o que não se concretizou por lhe ter sido negado o visto. O destino dos Estados Unidos da América surgiu, então, como alternativa. Ruma a Portugal, via Madrid, no seu Rolls Royce. Nevarte só o acompanharia 15 dias depois, devido a um problema de saúde que a reteve em Vichy. Calouste chega a Lisboa em abril e instala-se no Hotel Aviz.
Entre 1942 e 1943, tentará obter autorização de entrada nos Estados Unidos. Depois de uma primeira recusa, Gulbenkian obtém vistos para si, Nevarte, a sua secretária Isabelle Theis e dois empregados franceses. Porém, não chega a partir, talvez por se ter apercebido do plano para o entregar à autoridade tributária daquele país, e das conversações em curso entre as autoridades britânicas e americanas com o propósito de controlar conjuntamente os seus movimentos financeiros internacionais.
Permanece em Lisboa até à sua morte, em 1955.
José de Azeredo Perdigão
Em finais de 1942, Calouste Gulbenkian, na procura em Portugal de apoio jurídico, trava conhecimento, através de contactos do meio diplomático, e contrata José de Azeredo Perdigão, reputado advogado português, com quem desenvolveu uma relação de colaboração e confiança. Perdigão interveio na redação de títulos de compra de vários objetos da coleção de Arte de Calouste. Foi por este convidado a dar forma jurídica aos dois testamentos redigidos em Portugal, em 1950 e 1953, tendo sido neste último estipulada a criação da Fundação Calouste Gulbenkian. Calouste nomeou-o administrador de algumas das suas “private companies”.
Educação de Mikaël Essayan
Assume a direção global da educação do seu neto. Mikaël encontrava-se então no colégio de Harrow, nos arredores de Londres, os seus pais em Paris, e Calouste e Nevarte em Lisboa. Entre 1941 e até ao final da Guerra, Calouste escreveu várias cartas a Mikaël, onde expressa os seus valores e princípios morais e éticos.
Detenção em Lisboa
É detido, durante quatro horas, pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), após se ter recusado a ceder alguns dos quartos por si reservados no Hotel Aviz mas, entretanto, requisitados pelo Governo português para uma missão diplomática espanhola.
Regresso de Nevarte a Paris
Com o final da guerra, Nevarte regressa a Paris, à sua casa na Avenue d’Iéna, reunindo-se à sua filha Rita e ao seu genro Kevork. O seu filho Nubar permanecia em Londres.
Alexis Leger
Corresponde-se com Alexis Leger, seu amigo e confidente, poeta (tendo por pseudónimo Saint-John Perse) e diplomata francês, que terá conhecido por volta de 1925 e com quem criou uma forte amizade. Após a Segunda Guerra Mundial, a distância geográfica entre ambos, um em Lisboa e o outro em Washington, levou a uma regular troca de correspondência. Calouste sugere que adotassem um pseudónimo comum, “Douglas”, quando pretendessem manter a confidencialidade da sua correspondência.
Victoria and Albert Museum
Corresponde-se com Lord Crawford que sugere a possibilidade de reunir a coleção de Arte de Calouste Gulbenkian no Victoria and Albert Museum.
Empréstimo de obras de Arte à National Gallery of Art, Washington, D.C., 1948
Transferência do núcleo de Arte Egípcia, anteriormente cedido ao Museu Britânico (1936), para a National Gallery of Art de Washington.
Doação de obras de Arte ao Museu Nacional de Arte Antiga
Visita regularmente o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, mantendo conversas sobre Arte com o seu diretor, João Couto, de quem se torna amigo. A partir de 1948 e até 1952, doa 18 obras de Arte a este museu.
Casamento de Nubar e Marie
Nubar casa com Marie Berthe Edmée de Ayala, com quem já mantinha uma relação e que veio a ser a sua terceira e última mulher.
“Medalhões” romanos de Abuquir
Adquire à Morgan Library, através de E. S. G. Robinson, oito medalhões de Abuquir, provenientes de um tesouro encontrado em Abuquir, no Egito, em 1902.
Testamento, 1950
Num novo testamento, Calouste Gulbenkian estabelece diversas dotações financeiras para a sua família e colaboradores mais próximos. Manifesta a vontade de que a sua fortuna se mantenha indivisa durante um período mínimo de cinco anos sob a administração da sua mulher, filho, filha, genro e neto e de uma instituição financeira americana ou qualquer outra de primeira categoria num país mais adequado à gestão dessa fortuna, tanto do ponto de vista da solidez, segurança e tributação, como de outros aspetos práticos. Estabelece ainda que o destino a dar às suas obras de Arte pelos executores testamentários passasse ou por uma distribuição da coleção por diferentes museus, que trabalhariam em articulação, ou pela sua concentração numa instituição central a criar, conhecida por Fundação Calouste Gulbenkian, que deveria ter fins educativos, artísticos e de beneficência.
Empréstimo de obras de Arte à National Gallery of Art, Washington, D.C., 1950
Empréstimo de um conjunto de pinturas, anteriormente cedido à National Gallery de Londres (1936), à National Gallery of Art de Washington.
Grã-Cruz da Ordem de Cristo
É agraciado pelo Estado português com a grã-cruz da Ordem de Cristo. Sobre esta condecoração portuguesa refere mais tarde, para justificar ao Governo britânico a recusa em receber a Knight Commander of the Order of the British Empire, não ter sido previamente consultado sobre a sua atribuição.
Knight Commander of the Order of the British Empire
Recusa proposta do primeiro-ministro inglês para ser incluído nas recomendações de atribuição da Knight Commander of the Order of the British Empire a submeter ao Rei Jorge VI.
Conselheiro Comercial da Legação Imperial do Irão em Paris, 1951
Recebe do Governo iraniano a comunicação de que o Irão pusera fim à sua colaboração como diplomata.
Autorização de residência em Portugal
Tendo cessado o seu estatuto diplomático, obtém autorização de residência em Portugal.
Honorary Fellow, King’s College, London
Recebe o título de Honorary Fellow atribuído pelo King’s College, London.
Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga
Eleito sócio de Honra pelos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga.
União Zoófila – Associação de Proteção aos Animais
Recebe medalha de prata atribuída pela União Zoófila – Associação de Proteção aos Animais, na sequência de donativos entregues ao Jardim Zoológico de Lisboa.
Bodas de Diamante
Calouste Gulbenkian e sua mulher, Nevarte, celebram 60 anos de casados.
Morte de Nevarte
Nevarte Gulbenkian morre em Paris, na casa da Avenue d’Iéna, aos 80 anos. Calouste recebe a notícia quando está em Les Enclos. Destroçado, manda cortar todas as rosas vermelhas do seu jardim da Normandia para cobrir o corpo da sua mulher. Nevarte ficou sepultada em Nice, junto do seu irmão Yervant.
Colónia Balnear Infantil “O Século”
Atribui subsídios à Colónia Balnear Infantil “O Século”, em São Pedro do Estoril até 1954.
Instituto Português de Oncologia
Faz doação para compra de equipamento ao Instituto Português de Oncologia.
Último testamento
Depois de vários documentos preparatórios e alterações a cláusulas que foram sendo realizadas por Calouste Gulbenkian entre 1950 e 1952, é redigido o seu último testamento. Nele estabelece a sua vontade relativamente ao futuro de todos os bens da sua herança e à preservação da sua fortuna, que pretendia consagrar ao futuro da humanidade. Sobre este tema conferenciou longamente com pessoas da sua confiança como o seu amigo, conselheiro e advogado inglês Lord Radcliffe, Alexis Leger, John Walker, Kenneth Clark, entre outros.
Neste testamento encontram-se as disposições que darão origem à constituição da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo como bases essenciais os seguintes princípios: ser portuguesa, perpétua e com sede em Lisboa, podendo ter as dependências julgadas necessárias em qualquer lugar do mundo; os seus fins serem caritativos, artísticos, educativos e científicos; a sua ação poder exercer-se não só em Portugal, mas em qualquer parte do mundo que os trustees considerassem conveniente.
Nesse testamento nomeia como Trustees da Fundação Lord Radcliffe, José de Azeredo Perdigão e o seu genro Kevork Loris Essayan. Perante a impossibilidade temporária de Radcliffe aceitar o exercício do cargo em virtude das suas funções oficiais no Reino Unido, o testamento determina que, logo que esse impedimento cessasse, ele deveria assumir o exercício das funções de Trustee e a direção superior da administração da herança e da Fundação.
Última viagem. Paris-Lisboa
Calouste viaja entre Paris e Lisboa a bordo da avioneta Comet, especialmente fretada para si e que é preferida à aeronave DC4 por proporcionar um voo mais rápido e confortável. Entre os nove passageiros, contam-se os seus dois médicos, Racine e o Professor Fernando da Fonseca, e uma enfermeira.
Saint Sarkis Charity Trust
Fundo criado por Calouste Sarkis Gulbenkian para providenciar suporte financeiro à igreja de Saint Sarkis (Londres) e à Gulbenkian Library (Jerusalém), bem como a outras instituições arménias. Os primeiros trustees deste órgão são o próprio Calouste, Sir John Morrison, A. P. Hacobian, Charles P. L. Whishaw, N. M. Ekserdjian e L. G. Denton.
Morte
Morre no Hotel Aviz, em Lisboa, aos 86 anos. O seu corpo é incinerado em Zurique e as cinzas depositadas na Igreja de Saint Sarkis, em Londres.