Reabertura do Museu Calouste Gulbenkian
Renovado e modernizado, o Museu recupera a harmonia da sua criação e reforça a relação entre arte, arquitetura e natureza.
O Museu Calouste Gulbenkian volta a abrir as suas portas no dia 18 de julho, um ano e meio depois de encerrar para obras de renovação e requalificação. Os visitantes poderão encontrar mais informação acerca da coleção e áreas expositivas renovadas, com novas vitrinas, melhor iluminação, ventilação e segurança.
Esta renovação é realizada numa altura em que a Fundação Gulbenkian celebra 70 anos de existência e tem como objetivo invocar o espírito e a coerência do projeto original do Museu, restabelecendo a relação entre arquitetura, arte e natureza que, na década de 1960, o afirmava como um edifício único no panorama internacional.
O projeto resultou do notável trabalho do trio de arquitetos Ruy Jervis d’Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid, e de uma equipa de especialistas e consultores nacionais e internacionais, que incluíam o museólogo francês Georges-Henri Rivière e o arquiteto italiano Franco Albini.
Inspirada no conceito expositivo e no vocabulário arquitetónico originais, com os seus materiais próprios – a seda, a alcatifa, a madeira, o bronze, o vidro e o betão –, a renovação devolve aos espaços a atmosfera que caracterizavam a conceção inicial do Museu. A museografia foi revisitada através de um estudo minucioso das plantas de arquivo e fotografias da época.
Diálogo com a Natureza
Um das maiores ambições deste projeto de renovação consistiu na recuperação do diálogo entre as galerias e os jardins. Em colaboração com os arquitetos paisagistas, reafirmou-se a abertura das galerias para os pátios interiores e para a vegetação envolvente, determinante para o controlo da luz natural e para o sombreamento dos espaços expositivos. A equipa estudou cuidadosamente a implantação das árvores e o seu comportamento ao longo das diferentes estações do ano, de modo a assegurar uma filtragem subtil da luz solar e a restabelecer o delicado equilíbrio entre arquitetura e paisagem.
Na Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico promoveu-se uma maior abertura das janelas para o exterior, reforçando a ligação entre os motivos florais e vegetais dos azulejos e tapetes com a flora circundante.
Na secção das lâmpadas de mesquita foram removidas as persianas que anteriormente bloqueavam, em parte, a vista para o pátio. Em sua substituição, foram introduzidas películas filtrantes de proteção luminosa, que permitem restabelecer a ligação visual ao jardim interior, assegurando simultaneamente o cumprimento dos requisitos de conservação das obras expostas.
Outra intervenção importante deu-se na área de transição entre a Galeria da China e do Japão e as Galerias da Europa, onde foi recuperada a lógica da estrutura original em madeira ripada, que permitia vislumbres parciais de pinturas em exposição no espaço adjacente e que havia sido substituída por uma parede opaca. No seu lugar foi introduzido um biombo em metal e madeira, que devolve leveza ao ambiente e reativa o jogo de perceções visuais, permitindo aos visitantes entrever algumas das obras mais relevantes da coleção, nomeadamente as duas obras de Rembrandt – Figura de Ancião e Palas Atena – e Retrato de Helena Fourment, de Rubens.
A renovação implicou também a reinstalação da alcatifa esverdeada nas Galerias da Europa, estabelecendo uma continuidade visual entre os espaços interiores e a vegetação e reforçando a unidade e a harmonia espacial do Museu. Nesta secção, a seda voltou também a revestir as paredes, recuperando a elegância e o espírito original dos espaços.
De novo. Como novo.
São várias as novidades que os visitantes vão encontrar ao visitar o museu. É disso exemplo a nova sala de numismática criada a partir de um pequeno gabinete de trabalho anteriormente oculto, agora recuperado e devidamente adaptado. A escala desta sala permite uma experiência mais intimista de contemplação destes objetos, que são apresentados em maior número e com uma organização temática. Entre as peças, estará em destaque a moeda que inspirou o logótipo da Fundação Calouste Gulbenkian – a quadriga –, apresentada numa vitrina individual.
Outra mudança prende-se com a localização do baixo-relevo assírio, anteriormente situado entre a Galeria da Mesopotâmia, Grécia e Roma e a Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico. Esta obra passa a ocupar uma posição mais central na secção dedicada à Mesopotâmia, após ter sido alvo de um conjunto de intervenções de conservação que restituíram a leitura da superfície original em alabastro.
Um exemplo de recuperação que poderá passar despercebida aos olhos do público, diz respeito à icónica vitrina em forma de «Z» que acolhe a porcelana chinesa. Trata-se de uma réplica rigorosamente fiel ao desenho original, mas incorporando melhorias técnicas e funcionais, nomeadamente a utilização de vidro antirreflexo.
Depois de terem permanecido mais de duas décadas agrupadas num único e grande expositor, as lâmpadas de mesquita regressam também a vitrinas individuais, restauradas e equipadas com vidro antirreflexo. Esta reconfiguração permite que cada peça possa ser apreciada isoladamente, proporcionando uma leitura mais íntima e detalhada do conjunto.
A Sala Lalique, que acolhe a maior coleção de joias e peças do famoso joalheiro e vidreiro reunida fora de França, constitui a principal exceção à estratégia geral de restauro.
O espaço foi objeto de uma leitura contemporânea, integrando pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent, de modo a estabelecer um diálogo entre as peças de René Lalique e o contexto artístico mais amplo desse período. A sensualidade e o vocabulário curvilíneo historicamente associados a esta sala foram preservados, através do redesenho das vitrinas em vidro curvo e de formas suaves, inspiradas nas soluções expositivas originais. Também os tons de verde que voltam a preencher as paredes da sala remetem para a sua configuração inicial. Cada vitrina possui uma temática, relacionada com os materiais prediletos de Lalique: o chifre, o vidro, o esmalte e o marfim e em cada uma é possível vislumbrar criações do artista francês, nas quais um destes materiais é protagonista.
Das reservas para as galerias
É também de assinalar a seleção de obras que regressa das reservas às galerias do Museu, depois de vários anos longe do público.
As estampas japonesas, um dos mais impressionantes conjuntos de obras em papel da coleção, vão ter um lugar de destaque na Galeria da China e do Japão; as caixas de ouro vão estar em exposição numa vitrina exclusivamente desenhada para a sua apresentação; as medalhas, por sua vez, serão expostas numa vitrina que alude ao projeto original de Franco Albini, criado aquando da inauguração do Museu em 1969. Algumas esculturas em bronze voltam também a ter lugar na Galeria do Século XIX, bem como o célebre para-sol veneziano que volta a ser apresentado numa vitrina própria, na Galeria do Renascimento.