Inflamação

Miguel Soares

A imunidade evoluiu em organismos multicelulares como forma de limitar os efeitos patogénicos resultantes da contínua interação com micróbios. De modo a preservar a homeostase e fitness do organismo, os componentes inatos e adquiridos do sistema imunitário dos mamíferos, incluindo os humanos, estão dotados da capacidade de detetar e redirecionar microrganismos patogénicos para contenção, destruição ou expulsão.

A resistência à infeção, traduz-se nestas propriedades do sistema imunitário.

Adicionalmente, os organismos multicelulares desenvolveram outra estratégia de preservação da homeostase e fitness do organismo sem necessidade de exercer um impacto direto negativo sobre os microrganismos patogénicos.

Esta estratégia de defesa, denominada Tolerância à Doença, assenta em mecanismos de resposta ao stress e danos conservados ao longo da evolução, que limitam a extensão da disfunção metabólica e dos danos impostos aos tecidos hospedeiros pelos microrganismos patogénicos.

O objetivo global do Laboratório de Inflamação é identificar e caraterizar estas respostas ao stress e danos que conferem controlo dos danos nos tecidos do hospedeiro (tissue damage control) e estabelecem tolerância à doença infeciosa.

A hipótese científica a ser testada é de que existe uma interação funcional entre os mecanismos de resistência de natureza imune e as respostas ao stress e danos que atuam nos tecidos parenquimatosos do hospedeiro de forma a limitar os efeitos patogénicos da infeção.

Compreender os mecanismos que regem esta interação funcional será transformador no entendimento que temos das interações micróbio-hospedeiro, com impacto direto sobre o tratamento das doenças infeciosas.

Contribuições científicas do laboratório:

  1. Identificou uma rede cruzada de regulação entre o metabolismo do ferro e da glucose, essencial para estabelecer a tolerância à sépsis (Cell 2017).
  2. Revelou uma interação simbiótica na qual os componentes bacterianos da microbiota intestinal, estimulam uma resposta humoral que contraria a transmissão da malária. (Cell, 2014).
  3. Revelou uma resposta metabólica adaptativa que controla o metabolismo do ferro e estabelece tolerância a infeções sistémicas (Cell Host & Microbe, 2012).
  4. Descobriu o mecanismo molecular pelo qual a hemoglobina falciforme estabelece tolerância à infeção por Plasmodium, o agente causador da malária (Cell, 2011).
  5. Descobriu que a enzima de resposta ao stress heme oxigenase-1, garante a sobrevivência de um hospedeiro infetado, independentemente da carga patogénica, sendo esta a primeira aproximação mecanística para o estabelecimento da tolerância à malária (Nature Medicine, 2007 e Proc. Natl. Acad. Sci. USA. 2009) e à sépsis (Science TM, 2010; Science, 2012).
  6. Descobriu que o monóxido de carbono (CO) tem um efeito terapêutico sob diversas condições inflamatórias mediadas pelo sistema imunitário, incluindo a rejeição de órgãos transplantados (J. Immunology, 2001, Nature Medicine, 2003), arteriosclerose (Nature Medicine, 2003), lesão por isquemia e reperfusão (FASEB Journal. 2004), neuroinflamação autoimune (J. Clinical Investigation 2007) e malária grave (Nature Medicine, 2007).
  7. Revelou que a formação de monóxido de carbono durante a reação catabólica do heme pela heme-oxigenase 1 é citoprotetora (J. Exp. Med., 2001) e imunorreguladora (Nature Medicine, 2000), fornecendo uma base mecanística para a compreensão de como órgãos transplantados impedem a sua própria rejeição (Nature Medicine, 1998).

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