Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas
2007
Exposição organizada no âmbito de um intercâmbio entre o Museu Calouste Gulbenkian (MCG) e o Museu Benaki, de Atenas. A mostra compreendeu um conjunto de 157 objetos (de escultura, cerâmica, ourivesaria, metais, têxteis, arte do livro e pintura), representando cerca de 7000 anos da história da Hélade, desde o tempo mais remoto do Neolítico até ao século XIX, «período […] agitado pela guerra que se concluiu pela recuperação da independência do país, após séculos de domínio otomano» (Relatório Balanço e Contas. FCG. 2006, 2007, p. 44).
A história do Museu Benaki partilha traços com a da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), na medida que o museu ateniense foi também constituído a partir da doação da coleção de um ilustre colecionador. À semelhança de Calouste Gulbenkian, Antonis Benakis legou a sua coleção ao Estado, com o que pretendeu contribuir «para o desenvolvimento cultural do seu país, ideal solidamente incorporado no seu ambiente familiar e social» (Faro, L+arte, out. 2007, p. 30).
A organização da mostra partiu do diretor do MCG, João Castel-Branco Pereira, que, ao visitar o Museu Benaki, terá manifestado ao seu diretor, Angelos Delivorrias, o seu interesse em aprofundar a colaboração entre os dois museus. Na sequência desta visita, Castel-Branco Pereira proporia a Delivorrias a cedência da exposição itinerante «Greek Treasures from the Benaki Museum in Athens», organizada pelo museu ateniense, e, em troca, o MCG ofereceria ao museu grego uma exposição com peças provenientes da sua coleção de arte islâmica, de que constariam, nomeadamente, cerâmicas, têxteis e vidros. Porém, a segunda parte do intercâmbio estabelecido entre os dois diretores não se cumpriria, por motivos sobretudo relacionados com os condicionalismos da crise financeira mundial.
Delivorrias não só compartilhou o entusiasmo, como manifestou grande abertura às sugestões do seu homólogo português, ao afirmar: «We are open to discuss any exclusions or additions you might consider necessary to make this show more attractive to your public.» (Carta de Angelos Delivorrias para João Castel-Branco Pereira, 21 jul. 2006, Arquivos Gulbenkian, MCG 03379) Esta abertura estaria patente no título da exposição portuguesa, alterado a pedido de João Castel-Branco (Carta de João Castel-Branco Pereira a Angelos Delivorrias, 9 ago. 2006, Arquivos Gulbenkian, MCG 03379).
A seleção das peças apresentadas em «Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas», efetuada pelo Museu Gulbenkian em estreita colaboração com o museu grego, destinou-se a cumprir um objetivo mais educativo, proporcionando ao público português, nas palavras de Pedro Faro, «uma amostra da memória colectiva de um povo estabelecido entre o Ocidente e o Oriente, entre períodos de expansão e contenção, influenciado e influente, e a partir da qual podemos retirar alguns dados gerais sobre a história artística, e não só» (Faro, L+arte, out. 2007, p. 28).
Comissariada por Electra Georgoula, responsável pelo Departamento de Exposições e Publicações do Museu Benaki, e por Maria Rosa Figueiredo, conservadora principal do MCG, a mostra foi organizada cronologicamente e propôs uma viagem «pelos grandes períodos históricos, nas suas variantes plástica, política e social, reconhecendo nos objectos funções e dados que vão além da simples "emoção estética", proporcionada pela "forma significante" ou mera combinação de linhas e cores» (Ibid., p. 29).
O circuito expositivo começava com um lekythos (vaso) funerário, datado de 350-325 a.C., decorado com motivos vegetalistas, e prosseguia com o núcleo greco-romano, no qual se destacava um conjunto «de cinco vasos que perpetua os heróis míticos», passando pelo núcleo romano, que assinalaria o período conhecido pelo saque da estatuária grega, «vantajoso», nas palavras do jornalista Mário Robalo, pois apenas desta maneira «as criações gregas dos séculos V e IV a.C. […] são conhecidas na atualidade» (Robalo, Expresso, 22 set. 2007). Avançando na cronologia, a mostra integrava um núcleo relativo à fundação de Constantinopla e ao reconhecimento do cristianismo por Constantino, em 313. Esta secção constituiu uma das mais ricas da exposição, compreendendo esculturas, manuscritos dos Evangelhos, alfaias, entre outras peças.
A par do núcleo anterior, a arte representativa da religiosidade oriental reunia-se numa criteriosa seleção de objetos do período bizantino e pós-bizantino, emblemáticos da prática eclesiástica da Igreja Ortodoxa, que incluía peças de joalharia, têxteis e exemplares da arte do livro. O percurso terminava no núcleo otomano, identificável nos seus ricos motivos florais e na variedade técnica e cromática, encerrando com peças que refletiam o culminar da guerra pela independência grega (1821-1830).
A montagem e o projeto museográfico ficaram a cargo de Mariano Piçarra, destacando-se a colaboração de Maria Rosa Figueiredo, Rui Xavier (do Departamento de Conservação e Restauro do MCG) e Electra Georgoula.
O catálogo acompanha a linha cronológica da exposição, contando com textos institucionais de Emílio Rui Vilar, João Castel-Branco e Angelo Delivorrias, a que se seguem os vários capítulos, introduzidos por ensaios assinados pelos especialistas das diversas áreas – Dimitris Arvanitakis, Anna Ballian, Anastasia Drandaki, Irini Papageorgiou e Kate Synodinou.
A exposição foi complementada por um ciclo de conferências, denominado «Luzes da Grécia», coordenado por Maria Helena da Rocha Pereira, especialista em estudos clássicos, que participou igualmente como oradora, com a palestra «Em Volta do Milagre Grego», onde abordou a evolução do conhecimento sobre a Grécia Antiga. Além desta palestra, o ciclo contou com a presença de José Ribeiro Ferreira, professor da Universidade de Coimbra, José Pedro Serra, professor do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa, e Rui Morais, especialista em arqueologia romana.
Com o intuito de evidenciar o gosto que Calouste Sarkis Gulbenkian nutria pela cultura grega, o Museu Calouste Gulbenkian apresentou, concomitantemente à exposição em apreciação, um conjunto de peças de numismática com representações de antigas divindades ligadas à religião e à mitologia gregas. Esta pequena mostra, apresentada no âmbito da iniciativa «Uma Obra em Foco», intitulou-se «A Religião na Grécia Antiga. Deuses do Olimpo Representados na Coleção Gulbenkian», e viria a receber a visita da mulher do presidente de Malta, Mary Fenech Adami.
Na inauguração de «Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas», a comissária Electra Georgoula orientou a visita guiada aos convidados, entre os quais se contaram diversas personalidades associadas ao Museu Benaki e especialistas ligados ao estudo da Grécia Antiga, bem como o presidente da FCG, Emílio Rui Vilar, e o diretor do MCG, João Castel-Branco Pereira.
Ao longo do período em que esteve patente a exposição, desenvolveram-se as habituais visitas guiadas, levadas a cabo pelo Serviço Educativo do MCG, tendo sido organizado um programa dedicado ao público mais jovem e às famílias, com atividades relacionadas com a temática da exposição. O material fotográfico disponível na documentação dá igualmente testemunho de uma visita guiada a diversos secretários de Estado da União Europeia, orientada por Electra Georgoula.
A exposição «Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas» encontra-se abundantemente documentada, contando com um generoso número de fotografias relativas ao espaço expositivo, à montagem e a todo o processo que a antecedeu, bem como à inauguração, que ocorreu no dia 27 de setembro de 2007.
Joana Atalaia, 2019