15 Outubro 2020

Novos truques para velhos antibióticos

Equipa de investigadores descobriu que um grupo de antibióticos confere proteção contra a sépsis, para além do controlo direto da infeção.

Tetraciclinas inibem a atividade das mitocôndrias das células, diminuindo os danos causados por infeções © Joana Carvalho, IGC 2020

O estudo, liderado por Luís Ferreira Moita, investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, publicado na revista Immunity, revela que as tetraciclinas (antibióticos de largo espetro), ao inibirem parcialmente a atividade das mitocôndrias das células, induzem uma resposta compensadora do organismo que diminui os danos causados nos tecidos durante uma infeção. Esta descoberta abre novas portas na área da tolerância às infeções e posiciona os antibióticos deste grupo como potenciais tratamentos adjuvantes na sépsis, devido aos seus efeitos que vão além da contenção da carga bacteriana.

Este é um trabalho que realça a importância da ciência básica e de como se revela fundamental na descoberta de novos dados determinantes para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A sépsis causa cerca de 11 milhões de mortes por ano em todo o mundo. O seu tratamento baseia-se no uso de antibióticos e medidas de suporte ao funcionamento dos órgãos, mas muitas vezes falha devido a tentativas sem sucesso de modular a resposta imune. A sépsis resulta de uma infeção generalizada e caracteriza-se por desencadear uma resposta imune desregulada com alto risco de morte. Sobreviver a uma infeção grave requer a ativação de mecanismos tanto de resistência, que reduzem os números de agentes infeciosos, como de tolerância à doença, que controlam os danos provocados pela resposta imune e pelos próprios agentes infeciosos que a iniciaram. Cerca de um quarto dos doentes com sépsis morre mesmo que o agente infecioso seja completamente erradicado.

Intrigados sobre qual o mecanismos de tolerância à infeção e o papel que as mitocôndrias têm nestes processos, os investigadores começaram por selecionar um grupo de medicamentos conhecidos pelas suas capacidades de interferir com funções básicas das células. Verificaram que a doxiciclina, um antibiótico da família das tetraciclinas, confere um aumento na capacidade de sobrevivência à sépsis em ratinhos, independentemente dos seus efeitos na carga bacteriana.  Já em estudos anteriores se tinha verificado que a doxiciclina bloqueia o funcionamento de uma parte das células – o ribossoma das mitocôndrias, que é responsável pela produção de proteínas nestas estruturas celulares. “Descobrimos que é esta inibição da síntese de proteínas nas mitocôndrias do organismo infetado que explica o aumento da sobrevivência de ratinhos com sépsis, e que é independente das propriedades antibacterianas deste antibiótico”, explica Luís Ferreira Moita.

Sabia-se, há várias décadas, que algumas classes de antibióticos têm benefícios que vão para além das suas importantes propriedades antibacterianas, mas que até agora nunca tinham sido explicados. “Os resultados que obtivemos realçam que, no caso da doxiciclina, estes benefícios estendem-se até aos pulmões, onde ocorre uma diminuição dos danos nas células e a ativação de mecanismos de reparação dos tecidos. Além disso, no fígado, ocorre a ativação da resposta ao stress e mudanças metabólicas que fomentam a proteção dos tecidos”, afirma Henrique Colaço, também autor do estudo.

 

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