Obra Visitante. Jean Dunand, O Biombo «Les Cagnas»

Iniciativa «Obra Visitante»

No quarto momento da programação «Obra Visitante», que promove o diálogo entre a Coleção Gulbenkian e obras de museus internacionais, foi apresentado na galeria do Extremo Oriente um biombo lacado da autoria de Jean Dunand, cedido pelo Musée des Arts Décoratifs de Paris. Colocado frente a outra obra do artista pertencente à Coleção Gulbenkian, o biombo revela tanto o domínio de uma técnica oriental ancestral, como a modernidade da sua estilística.

Iniciada em 2022, «Obra Visitante» é uma iniciativa programática do Museu Calouste Gulbenkian (MCG) que promove o acolhimento temporário de obras de arte provenientes de coleções museológicas internacionais. Sustentada por uma seleção criteriosa, favorece o estabelecimento de diálogos pertinentes e privilegiados com peças da Coleção em exibição permanente. Realizada nas galerias do MCG, a iniciativa estimula leituras inovadoras e complementares em torno do espólio reunido pelo seu Fundador, Calouste Sarkis Gulbenkian. 

O quarto momento da programação da «Obra Visitante», intitulado «Jean Dunand. O Biombo Les Cagnas», teve curadoria de Rui Xavier (conservador do MCG) e correspondeu à exibição de um biombo, executado em 1922 por Jean Dunand (1877-1942) com recurso à técnica oriental da lacagem. O exemplar, emprestado pelo Musée des Arts Décoratifs de Paris, foi submetido a um restauro parcial e esteve em exposição na sala do MCG dedicada ao Extremo Oriente (China e Japão), entre 19 de maio e 18 de setembro de 2023. A seleção desta peça teve como objetivo instaurar um diálogo entre ela e uma outra, da mesma tipologia e do mesmo autor, igualmente lacada e pertencente à Coleção Gulbenkian: As Corças (c. 1925-1935) – adquirida diretamente ao artista pelo Fundador, em 1935. Duas encadernações lacadas por Dunand e duas estampas japonesas, integrantes do espólio do MCG, complementaram a mostra. No espaço expositivo, a colocação dos biombos sobre um estrado concebido especificamente para o efeito favoreceu ainda o confronto com um outro, também ele revestido a laca: o majestoso biombo «Coromandel», executado na China dois séculos e meio antes. 

O biombo Les Cagnas, constituído por seis painéis de mogno, gravados, lacados e com incrustações de metal, foi apresentado no mesmo ano em que foi executado (1922), na Galerie Georges Petit, em Paris. Resultou de um estudo anterior realizado pelo artista e corresponde a uma das primeiras peças que Dunand concebeu com recurso à laca japonesa, num total de 180 – divididas entre mobiliário e objetos decorativos, materializados em distintos suportes como a madeira, o metal e o barro. 

O exemplar exibe uma paisagem assumidamente rural, que remete para uma vila localizada na região montanhosa das Ardenas francesas. Na composição destaca-se o edificado, constituído por pequenos casebres distribuídos irregularmente pela encosta, aos quais se acede através de um número expressivo de escadas. A reduzida paleta de cores, de tons predominantemente escuros e sombrios, e a presença pontual de árvores despidas deixam adivinhar um cenário invernoso.

Assemelhando-se a uma pintura, a obra mostra-se alinhada com o seu tempo ao incorporar alguns dos princípios estilísticos modernistas: a rejeição da representação realista, o enfoque na liberdade criativa e uma iconografia minimal, marcadamente gráfica e geométrica. Por outro lado, são também percetíveis claras influências do depuramento e da elegância característicos da tradicional decoração japonesa. 

No biombo As Corças, produzido posteriormente (c. 1932-1935) e de dimensões semelhantes (distribuídas por quatro pranchas de madeira), podemos entrever a presença de um conjunto de cinco animais esculpidos em cobre e embutidos, dispersos sobre um cenário natural tendencialmente monocromático, que exibe alguns apontamentos vegetalistas (nomeadamente, a presença do que parecem ser fetos). Esta obra, estilisticamente menos vanguardista, apresenta reminiscências que se podem enquadrar no movimento Art Nouveau e nítidas influências da Art Déco. A tendência dos biombos, que surgiram na China, de serem assumidos como objetos decorativos por excelência e de reconhecida autoria artística aconteceu a partir do século XX em contexto ocidental, passando a negligenciar-se as suas funções originais, relacionadas com o estabelecimento de divisórias dentro de espaços e com a proteção contra correntes de ar. 

Artista multidisciplinar e decorador, Jean Dunan, nascido na Suíça e naturalizado francês (1922), notabilizou-se, sobretudo, como um dos mais conceituados precursores da aplicação ao design dos pressupostos criativos associados ao movimento Art Déco (1910-1937), em paralelo com René Lalique (1860-1945) (amplamente representado na coleção do MCG) e Émile-Jacques Ruhlmann (1879-1933). O reconhecimento internacional adveio, essencialmente, enquanto escultor e ebanista, do mobiliário em madeira que concebeu a partir do início da segunda década do século XX, no qual soube combinar magistralmente o recurso a metais (em particular o cobre e o latão) e à laca japonesa (proveniente da Indochina) – aliando uma técnica ancestral, proveniente da cultura oriental, com a estética modernista, de génese europeia. 

Foi em 1921, pouco antes de ter executado As Corças, que Dunand apresentou pela primeira vez um painel integralmente lacado e de grandes dimensões. Aconteceu no âmbito do Salon des Artistes Décorateurs, em Paris. Esse ano coincidiu também com a inauguração, na capital francesa, da Galerie Georges Petit, que se revelou fundamental no seu percurso. A longo da sua carreira respondeu a várias encomendas, algumas estatais, igualmente relacionadas com projetos de grande escala – entre as quais merecem destaque os dois monumentais painéis em laca que criou, em 1934, para o paquete de passageiros Normandie. Calouste Sarkis Gulbenkian foi convidado pelo próprio artista para os conhecer. Os Arquivos Gulbenkian possuem vários exemplares da correspondência trocada entre Gulbenkian, Jean Dunand e o seu filho mais velho, Bernard, nomeadamente sob a forma de convites para as suas exposições e ateliê. Mais tarde, em 1939, na Exposição Internacional de Nova Iorque, Jean Dunand foi responsável pela decoração do pavilhão de França. Antes disso, em 1900, na Exposição Universal de Paris, representou a Suíça. Entre as encomendas privadas que executou, salientamos o par de biombos concebidos em 1925/1926 para o salão de música do casal Solomon R. Guggenheim, que atualmente integram a coleção do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. 

Dunand foi um dos poucos ocidentais a alcançar a proeza de dominar plenamente a técnica da lacagem, que se traduz num processo profundamente meticuloso, moroso e irreversível – a par com Eileen Gray (1878-1976), arquiteta e designer que fazia parte do seu círculo. Em Paris, ambos foram discípulos de Seizô Sugawara (1884-1937), mestre lacador japonês. Este encontro determinou a viragem fundamental que a carreira do artista de ascendência suíça sofreu, rumo a uma maior especialização e reconhecimento internacional. Como contrapartida, Dunand ensinou o artesão nipónico a incrustar metais preciosos. O aprofundamento da técnica foi sendo consolidado, ao longo dos anos, através da presença regular de colaboradores asiáticos no seu ateliê. 

A ancestral e conceituada técnica de lacagem consiste no revestimento de diferentes tipologias de objetos (sobretudo de madeira), com o intuito de os proteger e decorar, conferindo-lhes uma beleza ímpar e elevados níveis de durabilidade e conservação. O envernizamento da sua cobertura é feito através do recurso a uma resina natural, proveniente de três espécies de árvores que crescem na China e no Japão. Após a extração, a seiva, ou laca, é filtrada, para lhe serem retiradas quer as impurezas quer uma percentagem de água. Posteriormente, é mantida em recipientes hermeticamente fechados (protegendo-a do contacto com a luz e com o ar). Na fase seguinte, a laca é habitualmente misturada com pigmentos que lhe vão conferir cor. A sua aplicação nas peças acontece em estado líquido e deve decorrer em ambientes húmidos e quentes. Recorrendo a pincéis muito leves, a superfície dos objetos é então coberta com várias camadas finas, que podem variar entre as três e as centenas, respeitando sempre um método de secagem particularmente longo. Entre as técnicas de decoração que se podem desenvolver ao longo do processo, destacam-se a pintura, a gravura, a escultura (após solidificação parcial), bem como a incrustação de materiais, como a madrepérola e o marfim. O recurso ao polvilhamento de ouro e prata é igualmente comum, bem como o polimento (com carvão e pedras de grão) das peças, para garantir a sua homogeneidade e brilho. 

A programação de atividades paralelas traduziu-se na realização de duas visitas-conversas que, concebidas e orientadas por Rui Xavier e pela convidada Run Jiang, decorreram a 18 e 20 de maio e surgiram integradas no âmbito das celebrações do Dia Internacional dos Museus. Mais tarde, a 17 de junho, 15 de julho e 5 de agosto, eventos da mesma tipologia foram projetados e assegurados pela mediadora Mariana Abreu. A maioria destas iniciativas contou com interpretação em língua gestual portuguesa. A exposição foi ainda objeto de algumas inscrições mediáticas, nomeadamente nos websites da Agenda Cultural de Lisboa e da revista Arteinformado, e ainda num breve destaque relativo ao Dia e Noite dos Museus na Gulbenkian publicado na revista Estrelas & Ouriços (1 mai. 2023).

Cristina Campos, 2024


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Les climats

Comtesse de Noailles

Les climats, Séc. XX / Inv. LM365

Histoire de la Princesse Boudour. Conte des mille nuits et une nuit.

Dr. J.-C. Mardrus

Histoire de la Princesse Boudour. Conte des mille nuits et une nuit., Inv. LM411

Neve nocturna na casa Shimomura - "Shimomura no bosetsu"

EIZAN, Kikugawa

Neve nocturna na casa Shimomura - "Shimomura no bosetsu", Inv. 2017B

Jean Dunand (1877-1942)

Inv. 2257

As Estações do Tokaido

KUNIYOSHI, Igusa

As Estações do Tokaido, Inv. 2437


Eventos Paralelos


Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos relacionados com a produção da exposição. Contém documentação textual, gráfica, fotográfica e audiovisual. 2022 – 2024


Exposições Relacionadas

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