Obra Visitante. Vaso Canópico de Iunefer, «Em Busca da Eternidade»

Iniciativa «Obra Visitante»

O terceiro momento expositivo da programação «Obra Visitante», que visa pôr em diálogo a coleção do Museu Gulbenkian com obras de instituições museológicas internacionais, trouxe à galeria do Antigo Egito um vaso canópico emprestado pela Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhaga. Destinado a acolher o estômago do defunto, o exemplar destaca-se pelo seu excecional estado de conservação e pela sua decoração particularmente expressiva. 

Iniciada em 2022, «Obra Visitante» é uma iniciativa programática do Museu Calouste Gulbenkian (MCG) que promove o acolhimento temporário de obras de arte provenientes de coleções museológicas internacionais. Sustentada por uma seleção criteriosa, favorece o estabelecimento de diálogos pertinentes e privilegiados com peças da Coleção em exibição permanente. Realizada nas galerias do MCG, a iniciativa estimula leituras inovadoras e complementares em torno do espólio reunido pelo seu Fundador, Calouste Sarkis Gulbenkian.

O terceiro momento da programação associada à «Obra Visitante», intitulado Vaso Canópico de Iunefer, «Em Busca da Eternidade», teve curadoria de Jorge Rodrigues (conservador do MCG) e correspondeu à exibição de um vaso canópico de calcário encontrado no sítio arqueológico de Hauara (Egito), em 1912. Datado de cerca de 1985-1795 a.C. (Império Médio, XII Dinastia, reinado de Amenemhat III), foi emprestado pela Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhaga, de cuja coleção de arte egípcia faz parte integrante. O exemplar, relacionado com a religião no Antigo Egito e, mais especificamente, com o culto funerário e com a preservação dos órgãos, esteve em exposição na primeira sala do MCG entre 12 de janeiro e 17 de abril de 2023. 

A primeira galeria do MCG foi projetada para acolher algumas das mais antigas obras, colecionadas por Calouste Gulbenkian, cuja produção remete para o extenso arco cronológico, de quase três mil anos de história, que abrange o Antigo Egito (do Império Antigo ao Período Ptolomaico) –, incluindo alguns exemplares posteriores, enquadrados pela integração no Império Romano. O ambiente recriado neste núcleo, que exibe em permanência uma seleção de 54 antiguidades egípcias adquiridas pelo Fundador entre os anos de 1907 e 1942, diverge de forma substancial dos restantes. Marcado por uma atmosfera manifestamente sombria, e isento de ligação com o exterior, remete para o contexto primordial em que a maioria das peças artístico-funcionais aqui presentes foram encontradas: os túmulos deste período. Frequentemente violados e saqueados durante a Antiguidade, esses túmulos tornam ainda mais notável a excecionalidade do Vaso Canópico de Iunefer, encontrado intacto e em bom estado de conservação, com destaque para a policromia da tampa, que permanece quase ilesa.

A proeza da sua descoberta, em 1912, deveu-se ao arqueólogo, egiptólogo e professor britânico Flinders Petrie (1853-1942), que viajou pela primeira vez para o Egito em 1880, dedicando-se ao longo da vida a escavações em diferentes locais. Estas empreitadas, que acarretavam elevados custos financeiros, eram patrocinadas por sociedades internacionais que angariavam fundos para as suportar. Recebiam, como contrapartida, por parte do Serviço de Antiguidades do Egito, a permissão para que alguns dos artefactos encontrados saíssem do Egito rumo a diferentes cidades, museus e coleções privadas. Petrie, que trabalhou para a Egypt Exploration Fund em ocasiões distintas, fundou em 1905 a sua própria sociedade, a British School of Archeology in Egypt. 

A instalação do vaso no espaço fez-se recorrendo a uma estrutura expositiva semelhante às que albergam as obras que integram a mostra permanente. Numa dessas vitrines, colocada propositadamente no espaço, a peça foi exibida de forma isolada. A estrutura foi fixada numa das paredes da galeria, posicionada ao centro de outras duas. Acabou por se diferenciar de forma expressiva das restantes, pelo cromatismo escolhido para o seu interior, caracterizado pelo recurso ao preto e ao vermelho. O texto de contextualização da iniciativa foi estrategicamente integrado no interior da própria vitrine, mantendo o foco do espectador na peça e evitando a sua dispersão.

O termo «canópico» acabou por ser generalizado para fazer referência aos vasos antropomórficos que remetem para os rituais funerários no Antigo Egito. Segundo a mitologia grega, Canopus era o nome do piloto do navio que, ao serviço do rei Menelau, teve como missão reaver Helena, depois de esta ter sido raptada por Páris – acontecimento que desencadeou a Guerra de Troia. Também segundo a lenda, Canopus sucumbiria à mordida de uma serpente e teria sido sepultado numa localidade no delta do Nilo, dando nome à cidade que aí se fundou (perto da futura Alexandria). Nesta zona, terá surgido um culto associando o deus Osíris ao piloto Canopus, no âmbito do qual se começaram a produzir vasos para recolha de água do Nilo. 

O recurso a vasos canópicos, ou vasos de vísceras, foi transversal às diferentes épocas constitutivas do Antigo Egito. Desde o Império Antigo (2570-2450 a.C.) até ao Período Ptolemaico (305-30 a.C.), estes objetos serviram o propósito de acolher e proteger alguns dos órgãos internos dos defuntos, sendo eles próprios, à semelhança dos seus portadores, objeto de complexos processos de embalsamamento. Estes vasos estavam intimamente ligados à crença na possibilidade de ascensão à vida eterna, que sustentava a prática da mumificação (que, dependendo da época, poderia demorar mais de setenta dias). Eram colocados nos túmulos dentro de arcas concebidas e decoradas especificamente para o efeito. Totalizando quatro recetáculos, cada um deles acolhia um órgão interno (fígado, estômago, pulmões e intestinos), removido através de uma incisão vertical do lado esquerdo do corpo. Evocavam, individualmente, cada um dos filhos de Hórus, os genii, deuses protetores do túmulo (Imseti, Duamutef, Hapi e Qebehsenuef), bem como divindades femininas (Ísis, Neit, Serket Néftis) e os pontos cardeais (sul, leste, norte e oeste).

Ao longo do tempo, as características formais dos vasos canópicos sofreram alterações consideráveis. Durante grande parte do Império Antigo, as tampas eram completamente isentas de decoração. No Império Médio, período em que se enquadra o vaso de Iunefer, passou a ser prática comum reproduzir nas tampas uma face humana, provavelmente a do defunto. Foi apenas no Império Novo que as tampas passaram a representar as cabeças dos filhos de Hórus: Duamutef (cabeça de chacal ou cão selvagem, recebia o estômago); Qebehsenuef (cabeça de falcão, os intestinos); Hapi (cabeça de babuíno, os pulmões) e Imseti (cabeça humana, o fígado). 

Apesar de a tampa do vaso canópico da Glyptotek representar uma cabeça humana, esse dado não permite determinar com certeza o órgão que continha. Essa informação, assim como o nome do seu proprietário, foi deduzida através da tradução do texto, em hieróglifos, inscrito na superfície exterior do recetáculo: «Neit protege Duamutef, que aqui está, o venerável de Duamutef, o supervisor (do armazém?), Iunefer, justificado e senhor de veneração.» Uma vez que Duamutef protegia o estômago, seria precisamente este órgão que estaria contido no vaso. O nome Iunefer designava o proprietário, provavelmente supervisor de armazéns do gigantesco templo funerário do faraó Amenemhat III, na região do lago Faium, onde o vaso foi encontrado (túmulo 57). Neit, deusa protetora de Duamutef, estava associada às esposas reais, à guerra (como defensora) e à caça. O texto também indica que Iunefer se encontrava «justificado», ou seja, que obteve, no julgamento do tribunal de Osíris, o estatuto que lhe dava acesso à vida eterna. Este estatuto seria atribuído após o seu coração ter passado o teste da pesagem (em contrapeso com uma pena de avestruz), atestando a sua boa conduta, como descrito no capítulo correspondente do Livro dos Mortos: «Não matei, não roubei, nunca fiz mal a ninguém.»

As coleções privadas reunidas por Calouste Gulbenkian e pelo dinamarquês Carl Jacobsen (1842-1914), em exibição na Ny Carlsberg Glyptotek, encontram-se entre as mais importantes do mundo na sua categoria. Estes dois homens, contemporâneos, partilharam a mesma paixão pela arte e a consciência da importância de a preservar e promover, enquanto memória de outras épocas e civilizações, e como objeto de admiração e respeito. O Antigo Egito exercia um especial fascínio nestes dois magnatas (Jacobsen era filho do fundador da famosa cervejeira Carlsberg), que agregaram importantes acervos deste período, ainda que de dimensão distinta – a coleção de arte egípcia da Glyptotek tem cerca de 300 objetos, sendo substancialmente maior que a de Gulbenkian, mas não necessariamente mais relevante. Enquanto Jacobsen financiou escavações arqueológicas no Egito, advindo daí grande parte do seu espólio, Calouste Gulbenkian contou com Howard Carter – responsável pela descoberta do túmulo praticamente inviolado de Tutankhamon (em 1922) – como conselheiro e intermediário para algumas das suas aquisições no domínio das antiguidades egípcias. Reunindo, entre outras peças, uma barca solar, uma máscara funerária, uma esfinge e diferentes representações de faraós e divindades egípcias – nomeadamente os filhos de Hórus, sob a forma de amuletos que eram colocados entre as faixas de linho na zona do órgão removido – a coleção do Museu Calouste Gulbenkian não inclui vasos de vísceras; por isso, a exibição do Vaso Canópico de Iunefer constituiu uma oportunidade única. 

Uma publicação, disponível em português e em inglês, acompanhou a exposição da obra, incluindo textos assinados por três autores: Luís Manuel de Araújo (egiptólogo e professor jubilado), Jorge Rodrigues (curador da mostra e conservador do MCG) e Tine Bagh (conservadora da Ny Carlsberg Glyptotek). Complementam-na ainda notas introdutórias, da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins (administrador executivo da FGG) e António Filipe Pimentel (diretor do MCG).

No contexto da «Obra Visitante», a exibição do Vaso Canópico de Iunefer assinalou uma característica programática diferenciadora face às que a antecederam, na medida em que foi projetada para coincidir com uma exposição temporária, patente em simultâneo na Galeria Principal da Sede da FCG, cuja temática foi parcialmente partilhada: Faraós Superstars. Um autorretrato de Rembrandt, propriedade do Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madrid, e um fragmento de tapeçaria, emprestado pelo Museo Poldi Pezzoli, de Milão, foram as obras previamente mostradas no âmbito desta iniciativa. 

No que concerne à programação de atividades paralelas, projetadas no contexto da exposição em análise, realizaram-se apenas duas visitas-conversas: uma orientada pelo curador Jorge Rodrigues (dia 23 de março) e outra pela mediadora Mariana Abreu (25 de março), ambas com interpretação em língua gestual portuguesa. 

A exposição foi objeto de considerável atenção mediática, merecendo destaque o artigo «Há uma “preciosa antiguidade egípcia” para ver na Gulbenkian», de Raquel Dias da Silva, publicado na versão online da revista Time Out (11 jan. 2023).

Cristina Campos, 2024


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