Obra Visitante: Diego Velázquez, «Retrato de Filipe IV»

Iniciativa «Obra Visitante»

A quinta edição da iniciativa Obra Visitante trouxe ao Museu Calouste Gulbenkian um dos mais emblemáticos retratos de Diego Velázquez, proveniente da Frick Collection, de Nova Iorque. Representando Filipe IV em traje militar, no contexto da vitória espanhola em Lérida, a obra evidencia a singular relação entre o monarca e o pintor da corte espanhola.

Com o seu contexto de produção singular, o chamado Fraga Philip, como o retrato é também conhecido, era considerado a obra favorita de Henry Frick na sua coleção. Celebrado pela Fundação Gulbenkian, constitui um exemplo particularmente expressivo da mestria de Velázquez. Paradoxalmente criado num curto espaço de tempo, em condições precárias e com uma notável economia de meios, o retrato irradia uma presença fascinante, conciliando simplicidade e esplendor, placidez e poder vitorioso.

Um episódio histórico revela de forma eloquente a importância atribuída à imagem pública do monarca. Concluída em Fraga, a pintura foi enviada para a igreja de San Martín, em Madrid, para assistir a uma missa celebrada em honra da vitória espanhola sobre França. A obra-prima de Velázquez funcionava, assim, como efígie e substituto simbólico do rei, assegurando a sua presença onde este se encontrava ausente.

O programa Obra Visitante foi ainda acompanhado por um momento de especial relevo: a conferência internacional «Velázquez. Portrait and Power», realizada no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, a 29 de abril de 2024. A sessão foi aberta por Guilherme d’Oliveira Martins e António Filipe Pimentel, da Fundação Calouste Gulbenkian. O programa iniciou-se com Guillaume Kientz, diretor da Hispanic Society Museum & Library, em Nova Iorque, especialista em pintura espanhola, que analisou as poses de Filipe IV nos retratos de Velázquez.

Seguiu-se Xavier F. Salomon, diretor-adjunto da Frick Collection, com a comunicação «King Philip IV of Spain in The Frick Collection», e Pablo Pérez d’Ors, diretor da Fundación Juan March, em Palma, que abordou a pintura de guerra, centrando-se no contexto militar específico em que a obra foi produzida. Realizada em português e inglês, com tradução simultânea, a conferência foi transmitida em direto no website do Museu Gulbenkian.

Após a conferência, foi exibido o filme Conservation of Velázquez’ Portrait of Philip IV, produzido em 2010 por Michael Gallagher, conservador-chefe do Departamento de Conservação de Pintura do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, responsável pelo restauro da obra. Gallagher mostrou de que forma a delicada limpeza do verniz amarelado – que obscurecia os efeitos luminosos do brocado prateado sobre o manto carmesim do rei – permitiu recuperar a extraordinária riqueza visual do retrato.

O filme documenta ainda os primeiros estudos técnicos realizados sobre a pintura, recorrendo a microscopia, radiografia e reflectografia infravermelha. Estes exames confirmaram a rapidez e segurança da execução pictórica, bem como a notável economia de meios com que Velázquez alcançou os efeitos metálicos cintilantes e a impressionante sensação de presença física da figura régia. A sessão encerrou com um debate com o público, seguido de visita à exposição e de um cocktail.

No âmbito das atividades educativas associadas à exposição, Raquel Feliciano coordenou o programa Descobrir. Durante as quatro visitas guiadas dirigidas ao público geral, realizadas no verão de 2024, contextualizou a obra no momento da sua produção, mas também no conjunto da trajetória de Velázquez, desde a formação no ateliê de Francisco Pacheco (1564–1644) até à sua ascensão ao cargo de pintor da corte. Propôs ainda uma leitura comparativa com outros retratos históricos expostos na galeria permanente do Museu Gulbenkian, incluindo obras de Rubens, Rembrandt e Anton van Dyck. Patrícia Simões, assistente curatorial do Museu Gulbenkian, conduziu igualmente uma visita orientada dedicada à obra, sob o título «Velázquez and the public image of Philip IV».

O catálogo publicado por ocasião da exposição, Obra Visitante: Diego Velázquez, Retrato de Filipe IV (edição bilingue português-inglês, 2024, 64 páginas), com coordenação editorial de Carla Paulino, do Museu Calouste Gulbenkian, inclui os ensaios de Pablo Pérez d’Ors, «King Philip IV of Spain by Velázquez: Incense and Gunpowder on Canvas», e de Vera Mariz, curadora de investigação do Museu Calouste Gulbenkian, autora do texto «Calouste Gulbenkian and Diego Velázquez».

A exposição teve uma presença assinalável na imprensa escrita – impressa e digital – e nos meios audiovisuais. No universo da imprensa escrita, contabilizam-se cerca de vinte referências, na sua maioria breves notas informativas que retomavam essencialmente o comunicado institucional da Fundação Gulbenkian (Agenda Cultural, Time Out, e-cultura, entre outros). Neste conjunto predominantemente informativo, destacam-se, contudo, três artigos de maior densidade crítica e interpretativa.

O primeiro, «Velázquez, o génio ao serviço de Sua Majestade, de visita à Gulbenkian», de Maria João Martins, publicado no Diário de Notícias (5 de maio), e «Velázquez “visita” Gulbenkian», de Christiana Martins, no Expresso (3 de abril), sintetizam o contexto histórico da produção da obra apresentada, sendo que Maria João Martins recupera também os principais conteúdos partilhados pelos especialistas convidados para a conferência internacional realizada em paralelo no Museu Gulbenkian.

A estes soma-se o texto de Joana Emídio Marques, publicado no Observador, a 11 de abril, sob o título «O retrato de Filipe IV na Gulbenkian: a história, a glória e a sombra de uma obra-prima de Velázquez». Mais do que uma contextualização factual da produção, aquisição, exposição e apresentação da obra em Lisboa, a autora oferece um ensaio particularmente envolvente sobre as relações entre arte e poder – uma dinâmica onde sombra e luz, horror e beleza, o pior e o melhor da humanidade se entrecruzam de forma persistente.

Na televisão portuguesa, destacaram-se três momentos de cobertura. Na TVI, Paulo Portas referiu a exposição no segmento Global (7 de abril de 2024), recomendando a visita e explicando brevemente a iniciativa Obra Visitante. Na RTP3, a apresentação integrou igualmente o programa Ensaio (data por confirmar), conduzido por Diogo Louçã Rodrigues, que entrevistou António Filipe Pimentel, diretor do Museu Gulbenkian, oferecendo uma perspetiva institucional sobre a chegada da pintura. Na SIC, através do programa Todas as Artes, foi transmitida uma reportagem mais desenvolvida de Cristina Reis, com imagens da exposição e declarações do diretor do museu, proporcionando uma leitura mais abrangente tanto do dispositivo expositivo como da relevância histórica do retrato.

Katherine Sirois, 2025


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Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, fotográficos, multimédia, pressbook, comunicados de imprensa, entre outros. 2023 – 2024


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