“A música é, talvez, a mais universal de todas as linguagens”

Entrevista ao Trio Amatis

14 out 2026 7 min
Para o Trio Amatis, cada concerto é único. Lea, Sam e Mengjie acreditam que a música ganha vida de forma mais plena quando há espaço para o inesperado: para escutar, reagir e criar no momento. Em entrevista, antecipam-nos "Humanity in War", o projeto que apresentam no Grande Auditório com Thomas Quasthoff.

Como surgiu a ideia de criar o projeto Humanity in War?

Enquanto trio de piano, temos tido a sorte de viajar pelo mundo, partilhando a nossa música com públicos de tantos países e culturas diferentes. O início da guerra na Ucrânia provocou-nos um profundo sentimento de choque, mas também nos fez perceber até que ponto as nossas circunstâncias são excecionais. A liberdade de atravessar fronteiras, conhecer pessoas, trocar ideias e partilhar algo tão profundamente humano como a música só é possível graças a uma paz e a uma estabilidade que, durante grande parte da história da humanidade, estiveram longe de ser a norma.

Ver jovens da nossa idade serem enviados para a linha da frente para combater numa guerra sobre a qual tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de decidir tornou esta realidade particularmente evidente. Fez-nos perceber como somos afortunados por viver numa parte do mundo que tem desfrutado de um período tão longo de relativa paz, e como é importante nunca tomar essa realidade como garantida.

À medida que acompanhávamos as notícias, começámos a ficar cada vez mais impressionados com a forma como a guerra era comunicada através de estatísticas. À medida que os números aumentavam, parecia crescer também uma espécie de insensibilização, como se a dimensão do sofrimento humano se tivesse tornado demasiado grande para conseguirmos compreendê-la. Foi isso que nos levou a procurar uma forma mais humana de abordar estas questões, que permitisse voltar a dar visibilidade às vidas individuais escondidas por detrás dos números. Como escreveu Sam, violoncelista do Amatis Trio, no texto de abertura de Humanity in War: «Esquecemo-nos de que, por detrás de cada número e estatística, de cada bandeira nacional e de cada batalha, existe uma pessoa que é filha ou filho, mãe ou pai, marido ou mulher, companheira ou companheiro de alguém.»

Sentimo-nos particularmente atraídos pela intimidade das cartas pessoais. Revelam-nos muito do mundo interior de quem as escreve, dos seus medos, esperanças e vulnerabilidades, mas parecem muitas vezes ter sido escritas com o desejo de poupar os entes queridos ao horror de tudo aquilo que estavam a viver. Mesmo a grandes distâncias, em situações de sofrimento inimaginável, subsiste a simples esperança de que aquelas palavras possam levar algum conforto, tranquilidade ou até um sorriso a alguém que aguarda em casa. Para nós, é esta a expressão mais nobre da humanidade: o impulso de procurar o outro, de partilhar com alguém a experiência de estar vivo e de preservar essa ligação, mesmo nas circunstâncias mais sombrias.

Em Humanity in War, a música alterna com a leitura de testemunhos reais da Primeira Guerra Mundial. Como abordaram a seleção e a organização das obras musicais e dos textos?

A música é, talvez, a mais universal de todas as linguagens, capaz de transcender fronteiras, culturas e identidades nacionais. Tendo isso em conta, reunimos deliberadamente cartas e música de diferentes países, procurando revelar a humanidade que partilhamos para além das divisões provocadas pela guerra. A relação entre a música e as cartas nem sempre é literal. Cada obra reflete, antes, algo do universo emocional que se esconde por detrás das palavras. Korngold, no início do programa, capta o sentimento de orgulho e expectativa juvenil, quase ingénuo, daqueles que partiam para a guerra.

As Três Pequenas Peças de Webern, com a sua linguagem musical fragmentada e perturbadora, evocam a realidade devastadora do primeiro contacto de um jovem com a linha da frente, um mundo em que as estruturas familiares da vida desmoronaram e a existência humana se reduz à luta pela sobrevivência. Kreisler, por sua vez, fala-nos de ternura, nostalgia e saudade de alguém que está longe, enquanto Clarke oferece um lamento comovente pelo sofrimento e pelos erros que a humanidade continua a repetir.

Estes são apenas alguns exemplos do percurso emocional que se desenrola ao longo do programa. Em última análise, a música não serve apenas para ilustrar as cartas, mas para nos proporcionar o espaço necessário para as interiorizarmos e refletirmos sobre elas. Torna-se um veículo para as emoções que estes testemunhos profundamente pessoais despertam em nós, permitindo-nos viver uma experiência que as palavras, por si só, não conseguem expressar plenamente.

A colaboração com Thomas Quasthoff assume um papel central neste projeto. Como tem sido trabalhar com ele e de que forma contribui a sua narração para os objetivos do projeto?

Trabalhar com o Thomas tem sido um enorme privilégio. Crescemos a ouvir, em particular, as suas gravações dos Lieder de Schubert. Que voz! E, embora não cante em Humanity in War, a sua voz falada é igualmente extraordinária, conferindo às cartas uma profundidade, uma sensibilidade e uma humanidade muito especiais.

Há também algo de particularmente significativo em ouvir estes testemunhos serem lidos em alemão. Uma língua tão profundamente ligada à história dos conflitos na Europa é também a língua de Goethe, Schubert, Schumann e de algumas das mais importantes obras da poesia, da filosofia e da música europeias.

Ao ouvir Thomas dar voz às experiências de pessoas de diferentes nacionalidades, somos lembrados de que a língua, tal como a música, pode unir-nos em vez de nos dividir. Se o nosso objetivo é manter viva na consciência das pessoas a memória destas tragédias, contar com alguém como Thomas, cuja voz transmite tanta autoridade e honestidade emocional, é inestimável. A sua profunda humanidade faz dele uma pessoa muito especial para partilhar este projeto connosco.

Poderão estes testemunhos da Primeira Guerra Mundial, recuperados neste projeto, ajudar-nos a refletir sobre os conflitos atuais e a sensibilizar para os perigos que representam?

Infelizmente, a guerra tem feito parte da nossa complexa existência humana e talvez venha sempre a fazer. No entanto, se a História nos ensina alguma coisa, é a frequência com que permitimos que as nossas diferenças se sobreponham à humanidade que partilhamos. Em 1914, Laurence Binyon escreveu: «Ao pôr do sol e pela manhã, lembrar-nos-emos deles.» Mas recordar deve significar mais do que simplesmente homenagear aqueles que morreram.

Devemos também procurar compreender as vidas daqueles que sobreviveram, as esperanças que alimentaram e os futuros que nunca tiveram a oportunidade de conhecer. O que mais nos impressiona nestas cartas é a familiaridade que sentimos em relação às pessoas que estão por detrás delas. Os seus medos, o amor por aqueles que as esperavam em casa e as esperanças que depositavam no futuro não são assim tão diferentes dos nossos.

Recordam-nos que aqueles que viveram estas tragédias eram pessoas comuns, cujas vidas foram apanhadas em circunstâncias extraordinárias, muitas vezes em consequência de decisões que estavam inteiramente fora do seu controlo. Talvez seja aqui que a memória adquire um significado mais profundo.

Podemos nunca conseguir eliminar os conflitos da existência humana, mas, mantendo vivas estas histórias individuais, podemos esperar desenvolver uma compreensão mais profunda do verdadeiro custo da guerra e uma maior consciência da responsabilidade daqueles cujas decisões podem ter consequências tão devastadoras.

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