“Trabalhar com Christian Zacharias é uma experiência artística sempre renovada”
Entrevista ao Quarteto Leipzig e Christian Zacharias
Neste concerto, o programa reúne Gade, Brahms e Schumann — três compositores profundamente ligados à tradição romântica alemã. Que linhas de continuidade e contraste destacariam ao interpretar estas obras no mesmo concerto?
Quarteto Leipzig (QL) – Enquanto quarteto de cordas de Leipzig, sentimo-nos continuamente inspirados a aproximar do nosso público a riqueza e a notável diversidade da vida musical da nossa cidade. Neste caso, são os compositores Gade, Schumann e Brahms, cujas vidas e obras estavam intimamente ligadas a esta cidade de música. Por detrás de todos os acontecimentos dessa época está o nome de Felix Mendelssohn, sem o qual muitas carreiras nunca teriam acontecido.
Gade estudou em Leipzig, no Conservatório fundado por Mendelssohn, que se tornou seu mentor e colega. Schumann pediu a Mendelssohn que revisse os seus quartetos de cordas e apoiou Brahms nos seus esforços para ser ouvido também em Leipzig. Será coincidência que tanto Schumann como Brahms tenham deixado três quartetos de cordas cada um, bem como um dos três grandes quintetos para piano?
Neste concerto voltam a colaborar com o pianista Christian Zacharias no Quinteto para Piano de Schumann. O que distingue o trabalho com Zacharias e como é que a sua personalidade musical molda a vossa interpretação desta obra icónica?
QL – A colaboração entre Christian Zacharias e o Quarteto Leipzig existe há mais de 25 anos. Mesmo depois de todo este tempo e de tantos concertos, continuam a ser a determinação partilhada e a busca pelo detalhe e pela variedade, o questionamento e a reavaliação constantes que moldam o nosso trabalho no Quinteto para Piano de Schumann. Em particular, a elegância sonora, a interpretação subtil, a ênfase nos elementos essenciais e o desejo de perfeita unidade tornam o trabalho com Christian Zacharias uma experiência artística sempre renovada.
O Quarteto Leipzig conta com mais de três décadas de atividade e uma discografia notável. Como evoluiu a vossa identidade musical ao longo dos anos, especialmente com as mudanças na formação do ensemble?
QL – O Quarteto de Cordas de Leipzig existe há mais de 37 anos, e a sua discografia inclui mais de 120 discos. Não é incomum que, ao longo de um período tão longo, ocorram mudanças. Mas o ensemble manteve-se fiel às suas origens e ao seu berço musical, e por isso as transições envolveram sempre parceiros e companheiros musicais de tempos de escola e de vida partilhada em Leipzig. Cada mudança traz também consigo a oportunidade e a convicção de continuar — juntos e com curiosidade — a procurar o que é essencial: o significado que a música tem para todos nós.
Este concerto na Gulbenkian marca um momento simbólico na sua carreira, uma vez que irá dedicar-se mais à direção de orquestra. Como sente este tipo de “despedida” ?
Christian Zacharias – A única coisa que posso dizer é que continuo a tocar piano e que, gradualmente, estou a deixar de tocar recitais. Toquei durante muitos anos, repetidamente, com o Quarteto de Cordas de Leipzig, e decidimos reunir-nos uma última vez para uma digressão final. Continuarei, de tempos a tempos, a fazer concertos de música de câmara, bem como a trabalhar com orquestras e a fazer conferências sobre piano. Se consultar o meu website, verá muitos programas diferentes, com ou sem piano. Seria maravilhoso regressar à Fundação Gulbenkian, tanto como maestro como pianista.