“Senti que havia necessidade de escrever uma peça com um lado mais direto, mais humano”

Entrevista a Igor C Silva

Compositor e performer multimédia, Igor C Silva tem levado a sua música a palcos e festivais por todo o mundo. A sua obra cruza música contemporânea, eletrónica, improvisação e novas tecnologias, sempre com o objetivo de criar experiências sensoriais únicas.
25 set 2025 11 min

Sōma é uma estreia em Portugal. Pode falar-nos sobre esta peça? Uma encomenda da European Concert Hall Organisation (ECHO), certo?

Exatamente. A encomenda surgiu numa altura em que eu já não escrevia para a orquestra há dez anos. Fiquei contente por ter essa oportunidade novamente, mas ao mesmo tempo achei que escrever só para orquestra, o “só” entre aspas, porque não é “só”, é muita gente. A orquestra não servia a cem por cento o propósito musical, e a razão é muito simples: aquilo que eu tenho feito nos últimos dez anos prende-se muito com escrita, com composição, com arquitetura composicional, mas também com a interação humana direta com os performers. A orquestra é uma máquina grande – setenta, oitenta músicos -, e a relação musical/pessoal é muito diferente quando se está a trabalhar com um ensemble pequeno ou com solistas. Então senti que havia necessidade de escrever uma peça em que pudesse ter esse lado, ou que tivesse esse lado mais direto, humano, com alguns dos músicos, neste caso com os solistas, entre nós os quatro (SlowMob); e, obviamente, escolhendo solistas, nunca iria escolher, ou dificilmente iria escolher, um solista com características exclusivamente clássicas porque isso seria um concerto, um concerto para piano, com música escrita.

Interessa-me uma ideia de alguém que está a tocar a minha música, que está obviamente a usar as minhas ideias musicais, mas que ao mesmo tempo tem algo a dizer sobre aquilo de que eu estou a falar, ou aquilo que eu quero dizer, sobre o meu material musical, sobre as minhas ideias – basicamente conseguir ver aquilo que estou a fazer de vários ângulos e pôr cá para fora isso de um ângulo pessoal, sem nunca perder a minha identidade e sem aquele músico perder a sua identidade. No fundo (eu sinto sempre isto, mesmo com música absolutamente escrita e clássica), ao ter solistas em frente a uma orquestra, a música passa a ser menos faceless (impessoal). Quando temos um solista, há um foco maior na personalidade daquela pessoa em específico, então isso dá uma humanidade, ou algo desse género. Uma proximidade maior com o ato de tocar e de ver alguém tocar.

E assim surgiu Sōma. Qual o significado deste título?

Corpo, a sensação de corpo, membro também, ou seja, a ideia de corporalidade. E a ideia de corporalidade tem obviamente a ver com o corpo, com a perceção, tempo, espaço, um bocado cliché (sorri), mas de certa forma foi nisso que eu tentei debruçar-me. Embora não seja uma peça programática ou altamente conceptual, não é, tem um conceito, tem um conceito por causa do título, tem um conceito por causa do tipo de música, do tipo de performance que existe, mas ainda assim é música, não é conceito, não é música conceptual. E ainda bem que não é esse tipo de música conceptual.

SlowMob (Igor C Silva, Mané Fernandes, Zé Almeida e Diogo Alexandre) © Nine Louvel

A tecnologia é uma presença constante no seu trabalho. Em Sōma, como é que a eletrónica e o digital “encaixam” na música sinfónica, neste caso com a Orquestra?

Já tinha escrito duas peças para orquestra, ambas com eletrónica e improvisação, mas bastante mais “escritas”. Logo, com uma eletrónica mais fixa. Coisas pré-gravadas, altamente compostas. Sabemos que aquele som eletrónico, naquela situação, vai soar exatamente daquela forma com a orquestra – praticamente não havia o uso do que se chama “eletrónica em tempo real”, que é o que acontece nesta peça – eu estou no meu computador a receber de forma isolada o som da guitarra, do contrabaixo, da bateria e da orquestra para eu poder escolher o que é que posso manipular, quando quero manipular. Acabo por “pegar” na orquestra e gerar material em tempo real que tem a ver exatamente com o que eles acabaram de tocar há meio segundo atrás. Isto gera uma ligação tímbrica e gestual muito próxima àquilo que eles estão a tocar. Fico com muitas possibilidades no setup, que acaba por ser um instrumento. O arco geral da peça é sempre o mesmo. A música é claramente a mesma, mas os contornos das secções, a forma como ligamos secções ou o significado musical de certas secções pode mudar. Isto tem muito a ver com o facto de improvisar e da música e a eletrónica serem em tempo real.

A partitura na sua música não é assim tão importante?

É. É muito, muito importante, mas o resto é ainda tão ou mais importante. A partitura não é música. E quem disser o contrário está errado. A partitura é um conjunto de instruções para fazer música. O livrinho que vem com o armário do IKEA não é o armário, certo? São as instruções para fazer o armário. O armário é outra coisa. A cultura musical da música clássica sempre celebrou muito o compositor e a partitura. Eu discordo totalmente disso. Embora eu seja altamente minucioso, passo imenso tempo à volta das minhas partituras, no final de contas a partitura não vale de nada, é só uma forma de comunicar.

Uma espécie de guião?

Sim, uma espécie de guião. Às vezes um guião muito específico, às vezes um guião de ideias que são para ser desenvolvidas, usadas ou não. Depende. Eu sou muito específico também com as partituras: OK, isto é para ser assim e tocas o que lá está, ou isto é para ser mais ou menos assim, ou isto são as ideias, agora faz o que quiseres. Há vários níveis de detalhe. Quem pega nas minhas partituras, seja esta Sōma, seja outra peça qualquer, vê que eu estou sempre a oscilar: a música aqui tem de ser exatamente desta forma, porque faz todo sentido que seja desta forma, e noutra secção, por exemplo, aqui é só pegar nestas ideias e fazes o que quiseres dentro deste contexto. Oscilar desta forma, faz com que a minha ideia musical passe, mas também ao mesmo tempo que a criatividade da pessoa em questão também passe. Assim estamos os dois em contacto com a criatividade, com o som, com a música, e quebro, espero eu, esta ideia de que eu sou compositor, dono e senhor de toda a verdade e o performer é simplesmente um leitor do que eu estou a fazer. Acho que não faz sentido nenhum, em 2025, esse tipo de dinâmica. Acho que é uma dinâmica que só se vê na música clássica e não se vê em mais nenhuma manifestação musical.

Pormenor da partitura de Sōma

O jazz, a música eletroacústica ou a ópera, são alguns dos universos musicais explorados por si. Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso artístico?

Sempre gostei muito de música, sempre tive sensibilidade para a música. Em criança ouvia música e isso mexia comigo. Na altura eu não percebia, mas agora percebo. E é muito engraçado ter algumas das minhas primeiras memórias com quatro, cinco anos, fazer uma certa viagem e lembrar-me especificamente daquela música – coisas que passavam na rádio. Mas depois com sete anos comecei a estudar guitarra clássica, que me leva à guitarra elétrica, a guitarra elétrica leva-me às bandas de rock, de improvisação, de jazz, e o rock e o jazz levam-me a escrever. O facto de tocar guitarra elétrica também me leva a uma exploração tímbrica, porque a guitarra elétrica não é um instrumento eletrónico, mas é um instrumento elétrico, então há imensas formas de manipular o som, e o ouvido começa a perceber que aquele instrumento pode ter muitas facetas. A dada altura estou no limbo, neste limbo entre estar apaixonadíssimo pela guitarra e pelo ato de tocar e adorar escrever música e achar que as duas coisas se combinavam de uma forma perfeita e assim pensar numa licenciatura.

A minha decisão foi estudar composição e não guitarra jazz. A ideia de criar a música acabou por ser mais importante do que a ideia de tocar. Eu já escrevia bastante antes de ir para a ESMAE, claro que com uma certa ingenuidade, mas a ideia de criar música vem da minha adolescência, sobretudo do jazz, da música improvisada, do rock, da música experimental. E a partir daí, quando fiz a minha licenciatura e mestrado no Porto em composição, tive contacto com muita música, obviamente, contacto com aquilo que é a composição clássica contemporânea, que eu já tinha, mas passei a ter essa ligação um bocadinho mais vincada. Com as aulas de música eletrónica abriu-se um campo gigante de possibilidades e foi altamente entusiasmante. É super importante perceber como é que os instrumentos funcionam, obviamente. Mas o ponto de ligação entre mim e o tempo onde eu vivo era mais justificado pelo estudo da eletrónica e tecnologias envolvidas e gravação, do que as aulas em que se analisava um quarteto de Haydn. Inevitavelmente sentia-me mais próximo de uma coisa do que da outra. Por isso acabei por começar a explorar imenso a música eletrónica e dei por mim a combinar as duas coisas, ou seja, música acústica e música eletrónica, sempre. Acho que a minha última peça acústica, puramente acústica, é de 2013 ou 2012, por volta dessa altura, portanto já foi há muito tempo.

Escrevo cada vez mais com eletrónica, com tecnologia, com multimédia, luz, vídeo. Já fiz tanto disso nos últimos cinco anos, ao ponto de neste momento querer focar-me a cem por cento em som, performance e daí Sōma acabar por ser uma espécie de libertação do ato de fazer música multimédia. Neste momento interessa-me fechar os olhos e focar-me outra vez só em música. Provavelmente, vou voltar a fazer coisas com multimédia, mas neste momento, tocar música e fazer som, fazer som com amigos é muito bom.

Que projetos ou ideias o entusiasmam neste momento e que ainda gostaria de explorar nos próximos anos?

Nos próximos anos, tanta coisa. O facto de ter escrito esta peça criou uma coisa muito interessante que eu não estava à espera. Eu escolhi um quarteto, que sou eu na eletrónica e sintetizadores, o Mané Fernandes na guitarra, o Zé Almeida no contrabaixo e o Diogo Alexandre na bateria, eletrónica. São pessoas com quem eu tenho uma afinidade musical muito grande e criámos SlowMob. O grupo não existia antes da peça. Convidei três pessoas para tocar comigo no projeto da Echo, escolhidos a dedo, que por acaso nos demos muito bem e acabou por se transformar numa banda. Ainda estamos a perceber o que é, mas há claramente um som desta banda. Aqui está uma das coisas que eu quero explorar, explorar música com este quarteto. É uma festa fazer isto.E provavelmente fazer um disco com esta peça e gravar muita música, escrever muita música. E mais cedo ou mais tarde interessa-me voltar à ópera. E estou a escrever uma nova peça para orquestra e solista jazz. Ou improvisador. Dizer jazz é uma palavra muito grande. Para a Susana Santos Silva. Conhece?

Perfeitamente. Já esteve aqui no Jazz em Agosto várias vezes. É incrível.

Vamos fazer o Donaueschinger Musiktage, que é um festival na Alemanha. Encomendaram-me uma peça e eu voltei a dizer a mesma coisa: só se for com solistas. Neste caso sou eu na eletrónica e sintetizadores e a Susana no trompete e orquestra, mas acaba por ser uma espécie de continuidade do que estou a fazer. Vai ser uma peça muito virada para o detalhe microscópico que a Susana tem do som, que é uma coisa do outro mundo. É uma peça muito diferente, mas que vem com a ideia de conjugar improvisação, alguma coisa que tenha a ver com jazz, improvisação, criatividade, expressão, emocionalidade e música escrita. E estas coisas podem coexistir. E quem disser o contrário está errado (risos).

Oiça um excerto da obra

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