“Quando somos tocados por uma experiência assim, passamos a olhar para a natureza e para as pessoas que nela vivem de uma forma mais próxima e mais humana.”

Entrevista a Simone Menezes e Lélia Salgado

09 jun 2026 7 min

As fotografias de Sebastião Salgado, aliadas à música de Heitor Villa-Lobos e de Philip Glass, deram origem a Amazônia, um espetáculo em estreia no Grande Auditório com a Orquestra Gulbenkian.

Em entrevista, a diretora musical Simone Menezes e Lélia Salgado, responsável pelo legado artístico de Sebastião Salgado e pelo Instituto Terra (Vencedor do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2023), falam-nos sobre este fascinante projeto.

Neste espetáculo, as fotografias de Sebastião Salgado não funcionam apenas como cenário; fazem parte de uma narrativa. Como foi o processo de criação de Amazônia?

Simone Menezes (SM) — Tanto Villa-Lobos como Sebastião Salgado conheceram profundamente a Floresta Amazónica. Villa-Lobos era fascinado pelos sons da natureza e pelos cantos indígenas; Sebastião desenvolveu um olhar único sobre as formas da floresta e sobre os homens e mulheres que nela habitam.

A obra é construída em grandes quadros musicais, como A Floresta, Dentro da Floresta ou Dança Guerreira. A partir desses movimentos, iniciámos um diálogo artístico para criar uma narrativa visual que acompanhasse a música.

O primeiro passo foi a criação da suíte. A partir da obra original, com cerca de uma hora e dez minutos, selecionei os movimentos principais em colaboração com a Academia Brasileira de Música. Depois disso, Sebastião ouviu a obra inúmeras vezes até escolher, entre as suas fotografias, aquelas que melhor correspondiam ao universo de cada movimento. O resultado é um verdadeiro encontro entre a música de Villa-Lobos e o olhar de Sebastião Salgado.

A Amazónia surge aqui através de três universos artísticos distintos: Villa-Lobos, Philip Glass e o olhar fotográfico de Sebastião Salgado. O que aproxima estes criadores e que ideia de Amazónia emerge desse encontro?

SM — O que une estes três artistas é um sentimento de admiração profunda perante a Amazónia. Nenhum deles a apresenta como um paraíso idealizado. Pelo contrário, mostram-na como um lugar de tal grandeza que nos deixa quase sem palavras.

São artistas de gerações e linguagens muito diferentes, mas que chegaram à mesma experiência de deslumbramento diante da força da natureza. Ao mesmo tempo, através dos rostos e dos olhares das pessoas que habitam a floresta, acabamos por reconhecer algo de nós próprios.

A Amazónia que emerge deste encontro é, portanto, mais do que um lugar. É uma experiência de admiração, humildade e reconexão com algo maior do que nós.

A suíte Floresta do Amazonas foi originalmente concebida por Villa-Lobos para cinema e ganha aqui uma outra dimensão. O que descobriu nesta obra ao trabalhá-la para concerto e como está a pensar orientar a Orquestra Gulbenkian para transmitir a experiência sensorial de Amazônia?

SM — Villa-Lobos compôs originalmente esta música para um filme, mas percebeu rapidamente que ela tinha uma força sinfónica própria. Acabou por transformá-la num poema sinfónico autónomo, e penso que estamos perante uma das suas grandes obras de maturidade.

Ao estudá-la, encontrei três elementos marcantes: uma extraordinária força rítmica, uma escrita orquestral de enorme amplitude e um lirismo profundamente humano. O universo emocional de Villa-Lobos é muito particular, marcado por uma nostalgia e uma expressividade muito próprias.

Com a Orquestra Gulbenkian, a minha intenção é trabalhar precisamente esse equilíbrio entre força, espaço e emoção, permitindo que a música transporte o público para o interior desta paisagem sonora e humana.

O espetáculo é também um gesto de sensibilização para a preservação ambiental. Acredita que este espetáculo pode ter um impacto concreto na forma como o público se relaciona com a natureza e a sua preservação?

SM — Acredito que a arte atua de forma diferente da política ou da educação. O seu papel não é convencer, mas criar uma experiência que nos toca diretamente.

É essa a força de Amazônia. O projeto reúne uma música extraordinária e as fotografias extraordinárias de Sebastião Salgado, sem recorrer a efeitos ou artifícios. O foco está na força destas duas linguagens artísticas.

Quando somos tocados por uma experiência assim, passamos a olhar para a natureza e para as pessoas que nela vivem de uma forma mais próxima e mais humana. Se existe uma mensagem, talvez seja simplesmente esta: recordar-nos que fazemos parte deste grande jardim e que temos a responsabilidade de cuidar dele.

Lélia Salgado na Fundação Gulbenkian durante a atribuição do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2023.
Lélia Salgado na Fundação Gulbenkian durante a atribuição do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2023. © Márcia Lessa

O Prémio Gulbenkian para a Humanidade reconheceu o trabalho desenvolvido pelo Instituto Terra na regeneração ambiental e na sensibilização para a urgência climática. De que forma sente que Amazônia prolonga essa mesma missão, neste caso concreto, através das fotografias de Sebastião Salgado aliadas à música de Heitor Villa-Lobos e Philip Glass?

Lélia Salgado (LS) — O concerto Amazônia, que revela em uma singular interação a música de Heitor Villa-Lobos inspirada na floresta amazônica com as fotografias de Sebastião Salgado feitas na região em expedições ao longo de quase sete anos, é um alerta para a proteção dessa biodiversidade única e indispensável à sobrevivência da humanidade e do planeta, e também para a necessidade da proteção das populações indígenas que ali vivem. Ao concebermos esse concerto, junto com a exposição, o objetivo foi o de, por meio de uma atípica experiência visual e musical, sensibilizar o público de todas as gerações, bem como políticos, poderes públicos e instituições em geral, para a importância da preservação e regeneração ambientais, da urgência climática e da salvaguarda das comunidades autóctones.

Tanto Amazônia como o Instituto Terra parecem ter mesma ideia de esperança: o que está ameaçado pode ser protegido e até regenerado. Considera que essa é uma das mensagens centrais que une estes dois projetos?

LS — Sem dúvida. No Instituto Terra, mostramos que é possível replantar uma floresta. De uma terra árida e degradada, renasceu a biodiversidade da Mata Atlântica. Retornaram a flora e a fauna que ali existiam antes. É preciso manter o mesmo foco em relação à Amazônia. É possível, e imprescindível, regenerar o que já foi desmatado na Amazônia, e proteger o que ainda se mantém preservado, antes que acabe.

Entre a sensibilização proporcionada por Amazônia e a ação concreta do Instituto Terra no terreno, que futuro gostaria de ajudar a construir para as próximas gerações?

LS — Devemos com todas nossas forças atuar para a conscientização das futuras gerações da necessidade de preservamos as florestas e biodiversidades de nosso planeta. Sem isso, não sobreviveremos. Ações como a do Instituto Terra servem de exemplo a outras pessoas pelo mundo se darem conta de que, na prática, funciona. É possível. Precisamos multiplicar ações como essas por todos os cantos. Plantar árvores e preservar as que já existem possui um efeito imensurável. Tem um potencial de melhorar a vida das pessoas, promover mudanças sociais e salvar o planeta. O concerto Amazônia atua com o mesmo objetivo, mas em um âmbito diferente, o da sensibilização, que não é menos importante. Penso que quaisquer ações nesse sentido são bem-vindas. E primordiais. É preciso agir.

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