“É uma honra enorme fazer parte de um programa que já lançou artistas fantásticos”
Entrevista ao Maat Saxophone Quartet
O programa Rising Stars já lançou muitos músicos, com alguns deles a tornarem-se mesmo estrelas planetárias e a atuarem nos palcos mais prestigiados. O que significa para o Maat Saxophone Quartet integrar a iniciativa nesta fase da vossa carreira? E como surgiu a vossa participação?
Em primeiro lugar, é uma honra enorme fazer parte de um programa que, de facto, já lançou artistas fantásticos e que são agora das maiores referências na Europa e até no mundo. Sentimo-nos muito gratos pela oportunidade e pelo desafio que nos traz a elevarmos o nosso nível como músicos e curadores de concertos. Uma oportunidade também muito especial deste programa é a oportunidade de conhecer salas de concerto, públicos e programadores de vários países europeus e, através disso, trazer novas perspetivas em relação ao trabalho que já fazemos. Por fim, temos tido a oportunidade de conviver com músicos incríveis, os nossos colegas desta temporada, com quem nos cruzamos, trocamos ideias, vemos concertos, etc. Tem sido muito gratificante.
A oportunidade surgiu em 2024 por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian. O Rising Stars não é um prémio para o qual os músicos se podem candidatar, mas sim um programa para o qual os músicos são nomeados pelas salas de concerto. Felizmente que a Fundação conhecia o nosso trabalho e achou que seríamos uma boa escolha para esta temporada, assim que sugeriu a nossa nomeação à Casa da Música e à Philarmonie de Paris que concordaram em nomear o nosso grupo.
O vosso concerto terá um programa bastante diversificado. Que critérios orientaram a escolha do repertório e o que esperam do público numa sala que se espera cheia?
A nossa escolha de repertório para a Gulbenkian deriva de vários fatores. Primeiro, queríamos apresentar um repertório diversificado que apresentasse uma palette vasta daquilo que um quarteto de saxofones pode ser. Esta formação, apesar de ser mais comum nos dias de hoje, ainda não tem uma presença recorrente em grandes salas de concerto, assim que muitas pessoas nunca a ouviram. Pensando nisso, trazemos um repertório que engloba 3 transcrições provenientes de instrumentações diferentes e 1 peça originalmente escrita para quarteto de saxofones.
Do programa destaca-se o “Quarteto de Cordas” de Maurice Ravel, uma peça icónica do repertório para quarteto de cordas. Apresentar esta peça representa para nós um grande desafio, por ser uma obra tão conhecida e bem escrita para a sua instrumentação original, mas também um prazer enorme por ser uma obra que adoramos, e que genuinamente acreditamos que, nesta nova roupagem (algo que o próprio Ravel fazia regularmente com obras de outros compositores), renasce com novas cores e perspetivas musicais.
É de realçar também a obra “Four Faces Four Wings” da compositora sérvia Alexandra Vrebalov, originalmente escrita para nós, encomendada pelas salas que nos nomearam para a tour do ECHO Rising Stars. Estamos muito contentes com esta obra tanto a nível saxofonístico como a nível emocional e artístico. A obra imagina o quarteto como um só instrumento com 4 caras e 4 asas, uma referência aos querubinos do anjo Ezekiel, imaginando que, se um anjo descesse à Terra nos dias de hoje para transmitir uma mensagem divina, seria uma mensagem de desespero por paz. A compositora transmite essa força e urgência numa obra de 9 minutos sem silêncios e numa ascendência constante de tensão.
Como quarteto, quais têm sido os maiores desafios e aprendizagens do trabalho coletivo, e de que forma é que essa dinâmica se reflete em palco durante as vossas atuações?
Como músicos, criadores, e pessoas que trabalham juntas há já 8 anos, há sempre desafios e coisas novas a aprender, mas devemos dizer que, felizmente, o nosso grupo dá muito valor ao respeito e ao cuidado pelo outro, e pensamos que isso se transmite em palco. Procuramos criar um ambiente divertido e cativante dentro do grupo, procuramos explorar as ideias de cada um, e apoiarmo-nos uns aos outros quando surgem dificuldades coletivas ou a nível pessoal.
Acho que esta nossa perspetiva se transmite em palco através das escolhas musicais diversificadas, da forma como apresentamos os concertos (gostamos de falar com o público de forma relaxada e convidativa), da forma como incluímos elementos pessoais de cada um de nós aos concertos, como por exemplo, os arranjos do Daniel, e, por vezes, a voz da Catarina.
Depois da participação no Rising Stars, que caminhos gostariam de explorar nos próximos anos — seja em termos de repertório, colaborações, encomendas de novas obras ou formatos de concerto?
Para os próximos anos gostaríamos de explorar a possibilidade de nos apresentarmos com mais frequência em salas a nível europeu. Já somos uma presença bastante regular nas salas de concerto holandesas e portuguesas e em alguns sítios no Brasil, mas é um objetivo nosso, especialmente depois de experienciar alguns concertos desta tour, fazer crescer a nossa presença em mais países europeus. Temos recebido já convites para regressar a salas como a Musiekverein em Vienna e a Philarmonie em Colónia, e esperamos que as restantes salas gostem do nosso projeto para que possamos criar boas relações e fazer colaborações no futuro.
Em relação a planos artísticos, temos várias ideias. Esperamos lançar um novo álbum em 2027, vamos apresentar um programa novo que convida o ouvinte a uma escuta sensível e atenta da música através da escolha do repertório e de uma curadoria especial de luzes, programa esse que combina, mais uma vez, música arranjada com música nova escrita para nós; estamos a planear um projeto com uma compositora e cantora de jazz mexicana, Fuensanta Mendez, com quem vamos criar conjuntamente uma performance que combina poesia com diversos estilos musicais, tanto tradicionais dos nossos países, como música erudita e música improvisada, entre outras ideias que ainda estão a ser desenvolvidas ou que possam surgir. Temos também planos de desenvolver mais projetos educativos e com comunidades, algo que já temos vindo a explorar e que queremos aprofundar nos próximos anos.