“Esta obra exige experiência de vida e maturidade emocional. É isso que a torna tão poderosa.”

Entrevista a Diana Tishchenko

A violinista ucraniana antecipa em entrevista o Concerto para Violino e Orquestra n.º 2 de Penderecki, que irá interpretar ao lado da Orquestra Gulbenkian, sob a direção do maestro Lorenzo Viotti.
29 jan 2026 3 min

Olhando para o seu percurso artístico até agora, desde grandes concursos internacionais até colaborações com orquestras e maestros de renome, de que forma essas experiências moldam hoje a sua identidade musical e como influenciam a sua abordagem a uma obra tão complexa como esta?

Penso que o aspeto mais importante na abordagem desta obra é a compreensão do lado mais sombrio do nosso mundo. Nasci na Ucrânia pós-soviética, nos anos 1990 — um período de profunda “metamorfose” da sociedade e do sistema político. A educação musical tornou-se para mim uma espécie de janela para um universo alternativo — um universo que me deu, e continua a dar-me, esperança e motivação para avançar na vida. Talvez seja graças ao encontro com tantas personalidades notáveis ao longo do meu percurso musical que acredito profundamente no poder da colaboração humana. O diálogo, o respeito e a boa-vontade — seja na música ou em qualquer outra área — são capazes de criar verdadeiros milagres.

Escrito num período tardio da carreira de Penderecki, o concerto reflete uma linguagem musical muito pessoal. O que mais a fascina nesta obra e que tipo de narrativa musical gostaria de transmitir ao público?

Esta obra exige, sem dúvida, experiência de vida e maturidade emocional. É isso que a torna tão poderosa. Sinto-me especialmente grata por interpretar esta música hoje, pois ela reflete a imagem do nosso mundo com uma honestidade impressionante. Fala de fragilidade, de luta interior, de transformação e de resiliência — temas que se revelam profundamente relevantes no nosso tempo.

Irá apresentar-se com a Orquestra Gulbenkian sob a direção de Lorenzo Viotti. Como tem sido este diálogo artístico com o maestro?

O nosso diálogo artístico tem sido muito natural e profundamente intuitivo. Partilhamos uma forte ligação emocional a esta música e estamos completamente de acordo quanto à sua interpretação, aos seus personagens e à paleta de cores. Os músicos da Orquestra Gulbenkian percebem isso com muita clareza e respondem com grande sensibilidade. Esta compreensão mútua cria uma energia poderosa.

O concerto será apresentado duas vezes em Lisboa. O que espera do público, em particular aqueles que estão menos familiarizados com a música de Penderecki?

A beleza da performance ao vivo reside na possibilidade de nos sintonizarmos com uma determinada onda de vibrações — algo que só pode ser vivido no espaço partilhado da sala de concertos. Pessoalmente, sinto-me transformada cada vez que interpreto esta obra. É quase comparável a um estado de hipnose. Desejo que o público seja igualmente transportado para este mundo — que seja “hipnotizado” pela música e descubra que pensamentos, emoções ou questões interiores ela desperta em si posteriormente.

 

Fotografia © Ars Nova Copenhagen Jeppe Bjoern

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