“Haydn tem sido sempre uma pedra angular do nosso repertório”
Entrevista ao Quarteto Casals
O Quarteto Casals tem uma relação especial com o repertório clássico vienense. Que lugar ocupa, neste contexto, o Quarteto em Ré maior, Hob. III:79, de Haydn, e que desafios particulares encontram nesta obra?
Haydn tem sido sempre uma pedra angular do nosso repertório. Gravámos a integral dos quartetos do op. 33 e As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz. Nas últimas temporadas, temos vindo a trabalhar nos seis quartetos do op. 20, com vista a uma possível gravação — um projeto que ainda não se concretizou, já que, entretanto, tomou forma o ciclo completo dos quinze quartetos de Chostakovitch, reunido em três álbuns que estão atualmente a ser lançados. O próximo ciclo de Haydn que tínhamos particular vontade de explorar era, naturalmente, o célebre op. 76. Neste caso, decidimos começar pelo “menos conhecido” do conjunto, o Quarteto n.º 5, em Ré maior. É uma obra maravilhosamente transparente, muito inventiva e com ideias incrivelmente originais – como é sempre habitual em Haydn. O andamento mais distintivo é o segundo, em Fá sustenido maior. Creio que é a primeira vez que tocamos um quarteto nessa tonalidade. É bastante exigente em termos de afinação, mas é verdadeiramente maravilhoso.
A obra Fiery Earth, de Elisenda Fábregas, será apresentada pela primeira vez em Portugal. Como descreveriam esta peça e o que vos atraiu na linguagem musical da compositora?
Elisenda Fábregas foi compositora residente no Palau de la Música Catalana, em Barcelona, na última temporada, e tanto o Palau como nós tivemos a ideia de encomendar e estrear uma nova obra de uma compositora catalã. A peça, intitulada Fiery Earth, tem cerca de treze minutos de duração e é construída em torno de motivos cíclicos que reaparecem ao longo da obra. Está cheia de fogo e paixão, e termina de forma trágica, com três acordes finais em Dó menor.
O Quinteto com Piano de Chostakovitch é uma obra de grande força expressiva. Como abordam o diálogo entre o quarteto e o piano nesta peça?
O quinteto com piano é, muitas vezes, uma formação bastante complexa – em comparação, por exemplo, com os trios ou quartetos com piano –, pois há, de certo modo, “vozes a mais”, e em muitas composições a textura pode parecer duplicada ou excessivamente densa. Mas, no caso do quinteto de Chostakovitch, tal como nos seus quartetos de cordas, ele revela-se um mestre da orquestração: os cinco instrumentos fundem-se na perfeição, em grande harmonia.
A obra começa com um Prelúdio e Fuga, uma clara homenagem a J. S. Bach, como nos seus próprios 24 Prelúdios e Fugas para piano solo. Na Fuga, o tratamento do contraponto é brilhante e profundamente inspirado. Segue-se um Scherzo sarcástico – uma característica típica na música de Chostakovitch –, depois um Intermezzo melancólico, cheio de drama e romantismo, e, por fim, um Finale em Sol maior, de carácter pastoral e colorido por elementos folclóricos. Em suma, mais uma obra-prima deste génio do século XX.
Neste concerto, estarão acompanhados pelo pianista Alexander Melnikov. Como se tem desenvolvido esta colaboração e o que destacariam na sua abordagem a Chostakovitch?
Conhecemos o Alexander Melnikov há muitos anos e já colaborámos com ele em diversas ocasiões. É um pianista notável, por quem temos grande admiração. Somos também ambos artistas da mesma editora, a Harmonia Mundi. A sua gravação dos 24 Prelúdios e Fugas de Chostakovitch é uma verdadeira referência. Já interpretámos com ele os quintetos com piano de Schumann, Brahms e Chostakovitch. Será um enorme prazer partilhar novamente o palco com ele na Gulbenkian, em Lisboa.