CAM em Movimento. Fernando José Pereira, «The man who wanted to collect Time», 2012

Programa «CAM em Movimento»

A apresentação de The man who wanted to collect Time, de Fernando José Pereira, constituiu a quarta mostra do ciclo de vídeos dedicado à solidão e à guerra, integrado no programa «CAM em Movimento». A obra foi exibida no contentor marítimo instalado no Jardim Gulbenkian, o primeiro de vários que seriam distribuídos pela cidade.

Em 2021, entre confinamentos e o definitivo encerramento para obras do seu edifício, o Centro de Arte Moderna (CAM) iniciou um «programa fora de portas» intitulado «CAM em Movimento». Guiado pelo desejo de apresentar uma arte mais democrática e feita para as pessoas, este novo ciclo sustentava o seu modelo na espontaneidade, reunindo uma programação pensada para suscitar a curiosidade do público através da invasão da paisagem comum e da tentativa de disrupção do quotidiano da cidade. Através de um exercício de experimentação e reflexão, pretendia-se questionar criticamente a instituição, explorando o leque de possibilidades, papéis e funções a adotar no presente e no futuro, em contexto local, nacional e internacional.

Para Benjamin Weil, estes eram os elementos fundacionais do «CAM em Movimento». Nesse sentido, a instituição conseguiria cumprir os seus objetivos se durante o período de encerramento conseguisse alargar a sua área de influência para lá do perímetro da Fundação Calouste Gulbenkian, procurando relacionar-se com outros públicos que, por uma razão ou por outra, habitualmente se escusam a interagir com a arte (Conversa online: Alargar e diversificar geografias, nov. 2021). Para o novo diretor do CAM, a obra do edifício oferecia à instituição «uma oportunidade […] [de] se reinventar e construir um futuro dinâmico, criar e estreitar laços de colaboração com outras áreas da Fundação, e explorar novos modos de se dar a conhecer e de atrair novos públicos» («António Filipe Pimentel é o novo diretor do Museu Calouste Gulbenkian», Expresso, 10 dez. 2020).

A par das intervenções artísticas de Didier Fiúza Faustino (1968) e de Fernanda Fragateiro (1962) nas linhas de comboio da CP de Sintra (Rossio-Sintra) e de Cascais (Cais do Sodré-Cascais), respetivamente, a proposta inaugural do «CAM em Movimento», em outubro de 2021, incluiu a instalação de um contentor marítimo no Jardim Gulbenkian ao qual, mais tarde, se juntariam outros, que se multiplicariam pela cidade com novos projetos artísticos e obras da coleção do CAM.

A criação de uma sala de projeção de vídeos dentro de um contentor de carga e transporte de mercadorias, sobretudo quando colocado no meio de um jardim, era inusitada, mas seguia a linha do programa, favorecendo o encontro com a arte em locais onde esta seria, à partida, inesperada (CAM em Movimento, 2021).

O primeiro contentor a ser instalado no Jardim Gulbenkian apresentou um ciclo de vídeos da coleção do CAM especialmente dedicado a questões políticas e sociais, como a solidão e a guerra, tendo a paisagem e o mundo natural como cenários de fundo (Centro de Arte Moderna \ CAM em Movimento. Fernando José Pereira, 2021).

O vídeo que fechava o ciclo, The man who wanted to collect Time (2012), de Fernando José Pereira, propõe uma relação particular com o tempo. Passado numa pequena cidade piscatória no norte da Islândia, a obra trata o tempo, não como reflexão existencialista sobre a solidão – como em Untitled (N’en Finit Plus) (2010-2011), de João Onofre (1976) –, ou testemunho dos despojos psicológicos da guerra e das crises políticas, económicas e sociais – White Horse (2006), de Lida Abdul (1973), e The Current Situation (2015), de Pedro Barateiro (1979), respetivamente –, mas como estudo da atividade natural e humana que assiste à transformação gradual da matéria (Ibid.).

Atento, desde o início do novo milénio, ao que considera ser o «tempo maquínico» – tempo da sociedade da informação e das temporalidades impostas pela cultura do instantâneo –, Fernando José Pereira quis dedicar-se a observar a realidade do mundo orgânico e a sua relação com a componente histórica, com a memória e a ruína (Ibid.).

Em 2012, no âmbito de uma residência artística, visita Seyðisfjörður, e depara-se com um ambiente simultaneamente calmo e severo – devido às rigorosas condições meteorológicas. Ali, vive-se demoradamente, e o tempo expande-se no horizonte. Entre passeios e conversas com os locais, descobre que em 1995 uma grande avalanche destruíra a maior fábrica da localidade dedicada ao processamento de farinha de peixe, e que o que dela restara fora comprado por dois irmãos escassos dias depois do cataclismo, com o intuito de manter a ruína intacta, «como memória viva do acontecimento» (Centro de Arte Moderna \ Fernando José Pereira. The man who wanted to collect Time, 2012).

Curioso, o artista aborda os dois irmãos, que o convidam a visitar a sua coleção de automóveis, cujas datas de construção, entre 1960 e 2012, evidenciam, mais uma vez, uma evidente singularidade: em vez de se encontrarem em reserva, para efeitos de conservação, os automóveis ocupavam um enorme terreno a céu aberto, permanecendo expostos aos elementos naturais, em estados mais ou menos avançados de degradação (Ibid.).

A obra The man who wanted to collect Time nasce do contacto com estas ideias. À paisagem idílica, praticamente virgem e isenta da intervenção humana, contrapõe-se a distopia da fábrica em ruína, lugar desabitado e abandonado ao tempo. A ação decorre entre as duas realidades, e é conduzida pela figura do ator canadiano que por ali vagueia e pela voz-off que acompanha as suas descobertas, enquanto propõe uma reflexão sobre a relação entre o espaço e o tempo.

A propósito do conflito entre as duas medidas – espaço e tempo –, é importante notar que, durante a rodagem do filme, o local volta a sofrer o abalo de uma tempestade, que acaba por destruir os últimos elementos edificados. Para o artista, interessa-lhe pensar que, apesar de ter permanecido estável entre a primeira e a segunda tempestades, o local se transformou durante a execução do filme. Acidentalmente, a obra reitera a ideia que a originou: a da batalha ganha a favor do tempo (Ibid.).

Como parte da programação paralela, foi organizada uma conversa online entre as curadoras Patrícia Rosas e Patrícia Albergaria e o artista Fernando José Pereira, intitulada «CAM em Movimento II: Alargar e diversificar geografias». A conversa centrou-se sobretudo no ciclo «CAM em Movimento» e no processo de produção e instalação do contentor marítimo no Jardim Gulbenkian, tendo ainda contado com uma apresentação de Fernando José Pereira acerca da obra The man who wanted to collect Time, o último vídeo do ciclo (Fundação Calouste Gulbenkian \ CAM em Movimento II: Alargar e diversificar geografias, 2021).

A exposição teve uma repercussão tímida nos meios de comunicação social. Destaque para a crítica de Luísa Santos na Contemporânea (Santos, Contemporânea, ed. 01-02-03, 2022), para as menções em artigos nas revistas Time Out (Moreira, Time Out, 19 out. 2021) e Umbigo (Duarte, Umbigo, 3 nov. 2021) e para as peças nos programas de rádio e televisão Jornal da Noite (SIC, 15 out. 2021), As Horas Extraordinárias (RTP3, 29 out. 2021) e Portugal em Direto (RTP1, 3 nov. 2021).

Madalena Dornellas Galvão, 2023


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

The man who wanted to collect Time

Fernando José Pereira (1961 - )

The man who wanted to collect Time, 2012 / Inv. 13IM61


Eventos Paralelos

Mesa-redonda / Debate / Conversa

CAM em Movimento. Alargar e Diversificar Geografias [conversa online]

14 dez 2021
Online

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Frame do vídeo de Fernando José Pereira, «The man who wanted to collect Time», 2012 (Col. CAM, Inv. 13IM61)
Frame do vídeo de Fernando José Pereira, «The man who wanted to collect Time», 2012 (Col. CAM, Inv. 13IM61)

Multimédia


Documentação


Periódicos


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